05 janeiro, 2018

O outono da vida


Imagem: Derek Gores



               O silêncio está me deprimindo. Não é o silêncio das pessoas ou o silêncio do mundo que está me magoando, mas o meu próprio silêncio. Em certo dia comum, eu comecei a ver a minha vida se ramificando, como a vida de Sylvia Plath no seu único romance: A redoma de vidro. Assim, “na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava para mim. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas”... Mas, não mais como Sylvia Plath, a minha árvore começou a desfolhar. Eu estava no outono da minha vida e os homens que encontrei pelo caminho de cada estação eram o meu único abrigo das tempestades e do frio. No entanto, foram esses mesmo homens que me empurraram para um ponto alucinante de loucura. Eles eram como uma bússola que me fazia movimentar-se em busca de mais: MAIS vida, MAIS vitórias, MAIS sonhos, MAIS desejo, MAIS paixão, MAIS insanidade. 
            Sempre fui uma mulher incomum. Uma mulher que acredita que a paixão dá sentido à vida. Eu sou uma escritora, não muito popular, que escreve sobre a tensa chama fugaz da paixão, e tem o profundo sonho de transformar tudo o que toca em poesia. Dentro de mim mora um grito, ele toma voz na minha escrita, na minha arte, e sai à procura de pessoas como eu: insaciáveis por liberdade e por paixões - sejam essas carnais, matérias, afetivas ou imaginarias - paixões de qualquer outro substantivo ou verbo, mas que nos empurram para frente. Nós os camaleões que acreditam na liberdade de ser sempre aquilo que o momento oferece. Nômades desajustados que procuram a intensa felicidade por entre as fendas de dor.
            Ouço as vozes deles me perguntando para que serve a minha vida?  Ouço o discurso das personas que reivindicam a minha sensatez, o meu equilíbrio diante do sistema. Tem uma guerra na minha mente. Estou cansada de sentir como se eu fosse louca. Tem uma guerra na minha cabeça. E eu só quero me aproximar dele como um ladrão aproxima-se de uma joia rara.
Eis a fuga para a loucura...
            


3 comentários:

  1. Que lindooooo!!! Tudo que você escreve é tão particular, que sinto como se estivesse caminhando pelo seu coração... Bjos

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    1. Sempre bom tê-la por aqui, minha escritora preferida. Beijão, agradeço o carinho de sempre, é reciproco.

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