26 novembro, 2017

FELICIDADE CLANDESTINA


                                                                         Imagem: Bradley Soile




            Quando penso nele, penso sempre nas suas tatuagens. No significado delas, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, naquele sórdido bar de esquina, foi nas tatuagens que eu reparei. Havia algo fascinante naquela âncora e naquele navio sombrio, como a representação de uma travessia do mundo material para o espiritual. Era o que a burguesia chamaria de manifesto rebelde: o corpo como uma tela humana.
            E o que havia além daqueles símbolos, também lembro-me bem: loucura. Carpe diem o verdadeiro Alcorão da vida, para ele. Seus pensamentos disparando espirais entorpecidos pelos alucinógenos. Muitas e muitas vezes, enquanto estávamos deitados na cama enorme, eu fazia a pergunta de maior frequência: “- O que você está pensando, querido?” “-  Nada” – ele respondia, encarando o teto branco. Mas a pergunta certa que deveria ser feita, era: “- Devo deixar o meu coração do lado de fora antes de entrar?”.
Nas noites de verão e nas manhãs de inverno, ele me beijava, a barba roçando as minhas têmporas, meu James Dean. Lá fora, as luzes da rua criavam formas confusas, às vezes sombrias, enquanto ele arqueava o corpo, projetando-se para cima de mim. Eu sentia todo o peso dele, e isso era bom.
Existe uma mulher como eu em todo lugar, eu acho. A moça que se apaixona perdidamente pelo cara mau. É, sou como qualquer ser humano entorpecido pela paixão, cega, surda e muda. Duas semanas juntos e ele já era o grande amor da minha vida. O meu homem perfeito, como se fosse tudo parte de um plano divino, então não me importei em me entregar de corpo e alma. Eu sempre fui sedenta por carinho e atenção. E isso, ele me dava de sobra. Bem aventurados os apaixonados.
Eu, uma pessoa tão original, finalmente, havia encontrado alguém tão inerente quanto eu. Mas, naturalmente, uma modesta angústia cresceu em minha alma, após dois dias sem notícias dele. E assim continuou. Quanto tempo? Uma semana. Eu não liguei. Também não esperava que ele ligasse. Eu sabia que durante esse tempo indefinido o jogo é ganho por aquele que demonstrar mais desapego e desinteresse. Mas o drama do “dia seguinte” corroía a minha alma como um rato a roer um pano velho descartado em qualquer bueiro urbano.
E apesar da hostilidade entre ambos tornar-se gradativamente mais intensa ao passar dos dias, pois tudo na vida deve ser recíproco, até o desinteresse, o meu coração ofendido sofria a grande desgraça de ser irremediavelmente “jovem” e imprudente; mas, principalmente, intenso demais para uma era tão contemporaneamente subjetiva.
O fato é que, quando ele apareceu com outra mulher, eu me senti usada para satisfazer o prazer dele, bonequinha de luxo, descartável. Vagamente consciente, eu sabia que não nos amávamos, isso era claro. Mas o que seria amor? Essa palavra tão embaraçosa. Acho até que existia algo de falso em nossa relação. Então, por que sofri? Porque me feriu o grave orgulho de não ser levada a sério, novamente. Eu sabia que a raiva que eu sentia daquela nova mulher era mal direcionada – eu ficava furiosa por agora ela tê-lo e eu estar, mais uma vez, sozinha.
Será que realmente tentamos? Perguntava-me entre a escuridão da noite e o raiar do dia. O que foi que aconteceu, o que foi exatamente que aconteceu, meu Deus? Não queria lembrar, mas não me saía da cabeça a nossa excitação mental, espiritual e física. Havia o cansaço do dia-a-dia e os livros separando os nossos corpos, foi isso, amor de menos? Amor demais? Ou foi o mundo líquido?
Passei a noite pensando e repensando: ele me caçou para o quê, ah foi para ... ? Não, não foi apenas isso. Haveria de não ser. Mas conheço bem esse processo do mundo dos amantes: chamam-me de amor, pelo menos durante algum tempo até o instante de utilidade. A verdade é que, como li certa vez em um livro com o título de morangos, “Cultura demais mata o corpo da gente”, mas penso que deveria ser o contrário: cultura demais mata a alma da gente. Atordoa a mente.
Existiu um momento, quando estávamos observando estrelas ofuscadas, naquele deserto de almas, que eu pensei que iríamos dar certo. Eu. Você. As tatuagens. Mas aquele olhar, que não mais me despia, importunava-me. Aquele olhar que eu vi era anônimo.  Um olhar imóvel. Sem vida.
Depois daquela noite, eu não o olhei mais. Aquele homem por quem me apaixonei ensinou o meu coração a bater em silêncio, mais uma vez. A paixão é um perigo social. É uma gafe que só os loucos comentem.
E foi assim que...

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