30 agosto, 2017

O dia do adeus


Imagem: Jen Mann



VERSÃO CONTO

A história que irei contar agora é particularmente dolorosa. E se escrevo, nesse momento, sobre isso é porque tenho a certeza de que nunca esquecerei aquele dia. Sobretudo, eu nunca o esquecerei.
No dia em que ele morreu, eu estava na casa de uma amiga em outra cidade, porquanto; naquela noite, aconteceria uma grande festa com uma famosa cantora da música popular brasileira. Lembro-me que naquela manhã ao acordar eu vi tanta beleza em um céu tão azul que os meus opacos olhos desatentos, por um instante, conduziram-me a uma epifania: vida.
Mas foi à tarde que tudo aconteceu. Eu estava na sala com as garotas, conversando sobre as festividades da cidade, e como seria legal combinarmos os nossos sapatos com a cor dos nossos vestidos de gala. Nesse momento de falações fúteis, o telefone tocou. Eu o atendi em gargalhadas: “– Ele morreu” – disse ela com um tom de voz que eu nunca havia escutado antes na vida, fúnebre. Soltei o telefone de sobressalto, depois senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto e um braço me segurando firme pela cintura. As meninas tentavam me consolar, me abraçavam e pediam para eu ficar calma. Mas eu não queria me acalmar. Eu queria apenas voltar para casa. Estar com ele.
Por um longo tempo, elas ficaram ali na minha frente, me olhando. Eu me sentia mal com aqueles olhares a filtrar o meu ser, então afastei-me delas, meio grogue, e entrei no quarto. Um lugar vazio e úmido, assim como a minha alma. Fiquei ali por horas.
Finalmente, quando à noite chegou, levantei. Meu corpo movia-se desajustado pelo espaço quadriculado. Eu me sentia mal e muito culpada. Quis conversar com uma amiga, mas acredito que eu não aguentaria o olhar penoso. Quando percebi, estava escrevendo uma carta, endereçada a mim mesma:

É tudo tão branco aqui, tão calmo. Estou caminhando devagarinho, pisando em um chão que parece ser feito de pequenos pedaços de diamante. A brisa suave e doce toca a minha face. As nuvens passam por mim, enquanto percorro uma estrada - sinto que ela está me levando a alguém, e sei que essa pessoa está me esperando há tempo. Estou indo em direção ao pai. Ele, que almejei há tanto tempo na terra, me chamou e eu aceitei o seu convite de beijar o céu.
O sol aqui é enorme, mas ele não me queima. Nada aqui me feri. Minhas roupas são tão finas e leves que em alguns momentos penso não estar usando nada. Às vezes passam por mim pessoas correndo, acho que elas estão indo para o mesmo lugar que
eu. Confesso que no começo senti medo, porque era tudo estranho e as pessoas temem o que é desconhecido. O mais difícil foi ver todos que amo segurando lágrimas nas mãos. Doeu estar ao lado delas e não poder abraçá-las. E as palavras que sempre me fugiram, naquele momento eu estava cheio delas. Eu só queria dizer que é bom estar em casa.

Quando as minhas mãos soltaram o lápis, vesti calça e blusa preta. Nada de vestido. Enquanto passava batom vermelho nos lábios, às lágrimas voltaram; agora negras por causa da maquiagem. Engoli o choro culposo e fui para a festa. Lá, no meio daquela multidão, me senti o ser humano mais sujo e cruel do mundo. Eu era uma assassina declarada, simplesmente pelo fato do meu corpo estar naquele local. Eu era tão jovem, entende? - foi a primeira vez que a morte apareceu na minha vida - fiquei perdida na insatisfação da solidão entre quatro paredes e pensei em tatear devaneios em meio à multidão. O que eles não sabiam é que aquela foi a pior festa da minha vida, parecia um velório. Eu não via as pessoas, não ouvia a música, pois o mundo estava morto.
Na manhã seguinte, enquanto eu voltava para casa, ao observar o nascer do sol, a lembrança dele voltou. Naquele instante, uma certeza aflorou dentro de mim: a vida nunca mais seria a mesma.
Seja como for, depois de algum tempo, e aos poucos, as lágrimas foram sumindo e eu comecei a me comportar de uma maneira estranha. Comecei a visitá-lo com bastante frequência. Sentava sobre o seu túmulo e lia cartas e mais cartas que eu o escrevia, diariamente. Eram cartas; acho eu, de amor. E devo dizer ainda que eu sentia um prazer enorme em passar horas deitada ao lado dele, enfim: como se o fantasma dele, que eu tenho certeza que vagava por aquele cemitério, pudesse me ver, me ouvir, me sentir e me perdoar.
Desculpem a minha loucura, sei que parece um pouco inacreditável, mas eu o sentia perto de mim, para ser mais objetiva: eu sentia os olhos dele sobre mim, vigiando-me, como um detetive atento a qualquer deslize meu. Quando o olhar dele me transpassava, via o que havia acontecido depois de sua morte, e o que havia acontecido depois de sua partida era algo cinza e podre. Algo em mim era pútrido, os amigos dele tinham razão, nada em mim era belo ou divino, e no momento em que tive essa certeza; decidi contá-lo pessoalmente que eu sempre o amei, mas que só tinha descoberto isso no dia em que ele morreu. É assim mesmo, a gente só sente falta daquilo que perdeu.
Hoje, como de costume, cheguei cedo ao cemitério. Sentei ao lado dele e retirei a carta do bolso da calça jeans. Com cuidado abri o envelope com o estilete e, em seguida, os pulsos. As palavras da carta eram tão vermelhas que pareciam sangrar. Assim como eu.




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