23 julho, 2017

Culpada



Imagem: Conrad Roset


Ele me julga culpada; talvez eu seja mesmo, porquanto carrego comigo um dos piores ‘pecados’ do mundo: o sentimentalismo. Sou sensível demais e isso me faz sentir os mistérios da vida exorbitantemente. A dor nunca é pequena, a paixão nunca é módica e o abandono sempre é o apocalipse – toda vez que me apaixono sou culpada por sentir em excesso -.

Li que Sylvia Plath suicidara porque era muito sensível e muito inteligente, e segundo Antonio Tabucchi as pessoas muito sensíveis e muito inteligentes sofrem mais que as pessoas pouco sensíveis e pouco inteligentes e têm a tendência de se suicidar (é o que dizem os psiquiatras e as estatísticas). “Se as pessoas escassamente sensíveis e inteligentes tendem a fazer mal aos outros, as pessoas muito inteligentes e sensíveis tendem a fazer mal a si mesmas: quem é muito sensível e muito inteligente conhece os riscos que comporta a complexidade disso que a vida escolhe para nós ou nos consente escolher, é consciente da pluralidade da qual somos feitos, não somente de uma natureza dupla, mas também tripla, quádrupla, das centenas de hipóteses da existência” (Tabucchi, p.7). Este é o grande problema daqueles que sentem e entendem demasiadamente, segundo Tabucchi: é que podemos ser tantas coisas, mas a vida é uma só e nos obriga a ser só uma coisa, aquela que os outros pensam que nós somos.

Atrás do amanhã, frente aos meus olhos incapazes de serem secos: eu vejo e sinto muito. Talvez o erro esteja no meu excesso, ou no exagero do fantasiar. E és que sinto muito por sentir: por todos os amores vazios que me abraçaram e me lançaram na lama da solidão irremediável. A minha infelicidade é a solidão intangível do meu coração da outra metade que talvez nem exista.

E ser sensível demais e demasiadamente, talvez, quem sabe, inteligente; tudo isso me perturba porque eu penso  até então que, de certa forma, aceitar todas as ausências das fantasias de minhas paixões é como ser um álbum de fotografia. E a minha coleção de retratos é como a coleção de belos quadros adormecidos do Rubem Alves: “os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora”.

Mas o que me inquieta, agora, é o retrato recente, que guardo sem dor, embora doa, e em segredo.


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