30 junho, 2017

O dia de ontem


Imagem: Pascal Campiom




           Ontem não havia lua no céu. Ontem à noite o que me doía era a consciência. O que me doía era não conseguir aceitar a efemeridade da vida, e o silêncio do silêncio. A dor da solidão corria o meu corpo e fazia cintilar um mar de pensamentos obscuros. Você sabe do que estou falando: daquelas reflexões que circundam a nossa pobre carcaça humana quando o dia, o mês, ou o ano foi insatisfatório. Autodestruição. Captou, baby?!
            Era dia de sol na tarde da noite que não era ontem. Eu era criança e pedia aos céus a vida adulta, um marido e muitos filhos, porque elas me disseram que eu só conseguiria ser feliz quando eu atingisse esses objetivos. Acreditei! Porém; mais tarde, bem mais tarde, na vida adulta, elas diriam que eu não precisava de ninguém para ser feliz. Autossuficiência. Acreditei!
            Foi então que comecei, nos primeiros anos de minha vida, a perseguir o amor, no entanto, ele era como uma borboleta arisca... voava, voava ao meu redor e partia em um piscar de olhos. Inúmeras vezes, eu não conseguia compreender o porquê da fuga, e isso me doía tão profundo que eu chorava e chorava, a cabeça escondida entre os travesseiros, a infelicidade de nunca ter conseguido um “amor”.
           Mas de repente decidi seguir o segundo conselho. Eu era autossuficiente e não precisava do amor de ninguém. Fria. Muito fria. Feliz sendo só minha...
            Então apaixonei-me e voltei a perseguir o amor. Eu precisava dele como um corpo precisa de um coração para viver. Embora estivéssemos naquela zona de conforto azul cintilante, na beira do abismo, o silêncio do silêncio voltou. Depois de vários espancamentos psicológicos, ele voou para além do abismo.
            Então elas me disseram que todos eram monstros e que criar expectativa era algo muito perigoso. Acreditar no outro também era arriscado: “Amor não existe”. “Não acredite no amor” ... E elas diziam e diziam e diziam... E eu morria. Morria.
Mas elas nunca me escutaram. Infelizmente, eu também nunca havia dado ouvidos a mim mesma.
            Ainda ontem à noite eu lembrei-me de todos os conselhos que recebi, ao longo dos meus vinte e poucos anos, e entrei em uma compreensão: QUEM DECIDE A MINHA VIDA SOU EU! Não é uma compreensão nova, apenas a havia esquecido.
Não passei todos esses anos sentindo fome na alma, criando filosofias, desencontrando, procurando abrigo, amparo, amor — eu não fiz tudo isso para desistir agora, sem mais nem menos, no meio de uma noite qualquer, e que agora eu tenho mesmo é que continuar, porque a casca está endurecida — e ri muito, mais tarde, cheia de vitalidade e vontade de abrir janelas, portas e o coração.
No dia de ontem eu não precisava, necessariamente, de um marido ou de filhos para ser feliz, mas eu necessitava de um companheiro, assim, como todo ser humano. Construir laços, dar e receber amor... Eu acredito sim no amor, e daí?
Quero alguém para tecer a vida comigo, ser o meu lado esquerdo, sonhar e realizar, lado a lado. Ir fundo no fundo. Barulho no meio do silêncio. Paixão e amor. Amor não líquido.
El@s não vão mais acabar com a minha esperança. A minha essência está viva e quer o amor com história própria, porquanto, como disse Bauman: ."Não há como aprender a fazer o certo a partir das experiências dos outros". Pior, não há como aprender a “fazer certo na próxima oportunidade” com um evento que jamais voltaremos a vivenciar (seja esse o amor ou a morte). 
           
           




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