16 maio, 2017

Existe sempre alguma coisa ausente


Imagem: j.o.e.




      É muito difícil construir histórias, principalmente, quando o emocional está no chão e a mente perturbada. Escrever... Toda vez que escrevo eu tenho um ritual particular. Depois de sair para correr, escolho uma música que desperte-me alguma emoção, fico olhando para o papel e os dedos que estão preenchidos pela dor daquele momento reescrevem/criam a história.  
      Sempre escrevo sobre o amor e a morte; mas, principalmente, sobre o fero do amor, porquanto, como disse Bauman em sua obra Amor Líquido:“O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto à morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento”. Minhas criações são sobre as desilusões que nos levam a ultrapassarmos os nossos limites. Minha escrita é sobre a vida que grita nos cantos de um bar sórdido, enquanto os copos de álcool preenchem as amargas bocas túrbidas. E em meio a essa desventura de observar a vida e escrever. Sendo sincera, nunca imaginei que a minha escrita proporcionaria aos seres observados uma escapatória. Eu escrevia para expelir a dor que sentia, entre tantas coisas, mas que acabou por também  expelir a dor dos outros.
      Há alguns meses não escrevia, pois eu estava imersa em uma grande crise emocional que não me dava mais motivos para levantar da cama ao acordar. Minha vida começou a sair dos trilhos e o belo roteiro que eu havia escrito para ela... foi rasurado por outras pessoas, ou pelo tal do destino. Pior que tudo, crescia dentro de mim um sentimento de desorientação (ainda ronda). “Onde estou?”; “Qual é o meu lugar no mundo?” “Para onde devo ir?”; “Talvez eu não seja boa o suficiente”; “O sonho morreu?” “Devo parar agora?”...
      Então, eu estava no hospital com uma grande crise de enxaqueca, enquanto pensava em abandonar o estudo e nunca mais escrever, ou ensinar. Os “nãos” consecutivos que a vida me deu me fizeram desistir.
      Fazia frio e garoava dentro de mim... Foi quando ela me abordou, ao ler o meu nome no prontuário. Sorrindo, ela agradeceu-me pela minha escrita. Agradeceu-me pela minha obra que a fez ter coragem suficiente para sair de um casamento violento. Naquele momento breve – fiquem bem. Voltei para casa pensando que aquele encontro talvez fosse uma mensagem de Deus, um pedido para eu continuar escrevendo. Não sei por que eu pensei isso, tendo em vista que eu já estava farta de ouvir os clichês de autoajuda que saltavam das bocas alheias: “Deus sabe a hora certo de tudo”; “Vai chegar no momento certo”;“Deus não abandona um filho”; “Reze, querida. Reze!”; “Se não aconteceu agora é porque não era pra ser”. Não sei se esses clichês são verdadeiros, mas sei que sempre vai existir alguma coisa ausente a me atormentar, como disse Caio Fernando Abreu: “Algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede faz parte. E atormenta”. É no meio desse tormento que a minha escrita viverá. Hoje. Amanhã. Para sempre. Ou não.
... “*A vida nem sempre é como sonhamos, mas nem sempre sonhamos o que queremos viver”...
     

*Citação de Allan Kardec.  

04 maio, 2017

A ilusão do amor.


Imagem: Dara Scully

Quando eu escuto aquelas músicas sentimentais que fazem sangrar o coração, eu só penso em você. Quando eu acordo no meio da noite choramingando o medo de estar viva, eu só penso em você. Na fila da padaria, na espera demorada do atendimento bancário, em meio a uma epifania, na correria do dia a dia, eu só penso em você.

O pensamento verte sangue – disse o poeta. A vida se esvazia. Correr perde o sentido. No vai e vem dos dias, eu só penso em você.

Partem-se as horas. O fio da meada, nunca mais será a mesma. A vida nunca mais será a mesma: eu disse e nem assim ninguém acreditou. Em mim. Nele. Em nós.

De tanto eu pensa e repensar, o abismo da minha mente engoliu os divinos risos dourados. Ilusão? Paixão? Amor?

Ilusão...

Amor...

Eu só penso em você.