07 abril, 2017

O silêncio do inocente


Imagem do Google

Conto premiado pela Academia Mossoroense de Letras 06-03-2007

Meus pulsos doem. Os primeiros raios de sol invadem o chão úmido do banheiro. Grito ou permaneço em silêncio? A secura da garganta e o medo me mantém muda. Meus braços formigam e a dor que começa no quadril e finda nas costas é quase insuportável. Levanto devagarinho do vaso sanitário e tento, mais uma vez, desatar os nós do pulso, mas é algo impossível, pois ele os amarrou a grade da janela com bastante primor. Passei à noite lutando contra essa grade e o choro que não cessava, só não lutei contra ele, porque a última vez que tentei revidar acabei levando uma paulada na cabeça. A tentativa de detê-lo é o motivo de eu ter, perto da sobrancelha direita, uma terrível cicatriz. Melhor mesmo é ficar calada, enquanto ele me chuta e me soca. O silêncio o faz se acalmar, já o choro e o grito o fazem ter ainda mais sede de sangue.

A primeira agressão teve início logo após a lua de mel, o motivo: os homens olhavam demais para mim. Então ele me esbofeteou e mandou que eu aumentasse o comprimento da saia. Depois ele exigiu que eu jogasse fora as roupas com decote. Eliminasse o batom vermelho e as saídas de casa sozinha. O doce lar virou uma prisão perpétua e o amor transformou-se em medo.

Recuei depressa quando a maçaneta da porta começou a girar.
Ele disse: “Bom dia, menina” e o coração disparou de pânico.
– Desculpe-me por ontem, mas você me desobedeceu. Avisei que não era para sair de casa – ele me beija.
- Desculpe-me – múrmuro.
- Está tudo bem agora, menina. – Ele começa a me desamarrar.
Passo os dedos sobre os pulsos repletos de hematomas. Ele segura as minhas mãos e beija-as.
- Menina, estou com fome. Já passou da hora de você preparar o café da manhã.

Levanto com dificuldade. Meu quadril lateja. Manco até a cozinha. Abro a geladeira e pego à bandeja de ovos, preciso fazer uma deliciosa refeição para o meu marido, caso contrário ele irá me agredir novamente.

Sentamos à mesa. Ele lê as notícias esportivas do jornal em voz alta, pois adora reclamar do seu time de futebol para mim. O tom de voz sereno, o olhar terno o fazia parecer inofensivo. É um homem de bem. Diziam os vizinhos. É um santo. Diziam os colegas de trabalho e a família. É o Diabo. Dizia eu. Mas ninguém acreditava. Quem acreditaria na “puta” que dormiu com ele antes do casamento? Ninguém! Nessa cidadezinha pequena ninguém dá ouvido à conversinha de mulher. A palavra do homem é a que vale.

E esses hematomas? Perguntavam os amigos. Desastrada demais, vive esbarrando nos móveis. Dizia ele. E esse corte na testa? Perguntava os meus pais. Acidente doméstico. Dizia eu repreendida por ele: “Se contar a verdade eu te mato!”. Antes, juras de amor; hoje, ameaças constantes. Rezar era tudo o que eu fazia, até hoje à noite.

Depois do jantar preparei-me toda. Entre os travesseiros escondi a pequena faca. O esperei.
Ele entrou no quarto moreno e viril, o desejo crescendo entre as pernas. Primeiro toque. Recusei. Palmada na bunda. Segundo toque. Recusei. Puxão de cabelo. Terceiro toque. Recusei. Soco na cara.
- Vai continuar me evitando?
Não respondi e ele perguntou de novo: “Vai continuar me evitando?!”. Sacudi a cabeça: “Vou! A escravidão já acabou!”.
Minha mandíbula estalou quando ele furioso me estapeou. Meus olhos se encheram de lágrimas de raiva. Tentei retirar o corpo dele de cima do meu empurrando-o com as mãos, mas a minha força em comparação à dele era mínima.
- Você prometeu que nunca mais me bateria! Eu o empurrava e chorava – por que você me bate?
Ele me penetrou – Porque eu amo você, menina. O cheiro de álcool se espalhando pelo ar junto aos sussurros dele... Eu amo você... Eu amo v-você... meninaaa! E o orgasmo aflorou das profundezas.

O momento havia chegado. Procurei o pedaço de metal mortífero em baixo do travesseiro. A mão esquerda agarrou o ferro e rápida perfurei a garganta dele, muitas e muitas vezes, o sangue jorrando como uma mina de ouro. O corpo sacudindo por causa da violenta dor da morte.

O sangue dele impregnado no meu corpo tinha cheiro de liberdade. Eu sorria e rodopiava feliz pelo jardim, enquanto os vizinhos me olhavam horrorizados: “Está louca” eles sussurravam uns para os outros. “Estou livre!” eu sussurrava para mim.

No outro dia ninguém se surpreendeu quando os homens me jogaram no quartinho branco. Penso, por vezes, que eles me observam o dia inteiro, mas durante à noite é ele quem me vigia. Ele pensa que eu não consigo vê-lo através dessas paredes!

Não me espanto que seja ele quem passa a madrugada me arranhando, tendo em vista que ele sempre gostou de deixar o meu corpo marcado.

Maldito! – gritei alto, varias vezes.
“Acalme-se” as pessoas de branco pediam, mas eu não podia, pois ele estava, mais uma vez, me violentando.
Senti uma picada de abelha no meu corpo e um pano grosso prendeu os meus braços contra as costas.
“Eu amo você, menina” – gritou ele, mais alto e mais alto como se estivesse dentro da minha cabeça.
“Por amor de Deus, me deixe em paz!” implorei, mas, de certa forma, sabia que era um pedido em vão... Ele viveria para sempre junto a mim, no meu corpo, na minha alma e em minha mente...


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