20 fevereiro, 2017

Seca


                                                         Imagem: Lora Zombie





Confesso que ontem eu tentei chorar. Deitei em posição fetal, abracei o travesseiro e tentei chorar. Não aconteceu nada. Coloquei uma música triste. Nada. Assisti a um filme de drama. Nada. Nenhuma lágrima. Estou seca. Vazia. Se não consigo chorar para aliviar a dor, o que devo fazer? Bem, só me resta encarar a parede enquanto as horas avançam e as pessoas vivem lá fora. Vidas artificiais. Vidas sem sentido. Igual a minha.

Quando ele morreu, eu também não chorei. Estava seca, igual hoje. O caixão descendo para o eterno. A multidão em pranto. Eu parada, toda de preto, óculos escuros, sem lágrimas. Eterno vazio. Triste, muito triste.

Hoje eu não sinto nada, apenas a vida morta. A vida que não acelera o peito. O comum de todos os dias, sem magia, sem encanto, sem esperança. É tão agoniante e frustrante não ter mais esperança. É uma desgraça.

Eu amei mais uma vez sozinha. E era tão bom fazer parte desse amor e voar e sonhar e viver. Mas hoje eu decidi assumir o meu coração vazio, mais uma vez. Só porque ele foi embora, sem dizer absolutamente nada, assim, como todos os outros que também, em algum momento, emprestaram magia para o vazio e depois se foram.

E só porque esse mês, essa semana, hoje, eu não sinto vontade de levantar da cama, ou de comer, ou de me arrumar, ou de escrever, e, principalmente, eu não sinto mais vontade de inventar beleza para o vazio... eu queria chorar. 

Acordar me deixa triste. Escrever me deixa triste. Ler me deixa triste. Essa cidade me deixa triste. Planejar o futuro aumenta a minha tristeza, absurdamente. Sinto saudade de ter esperança e fico triste de novo. Sonhar me deixa triste, Lembrar que ele foi embora me deixa mais que triste...

Talvez essa tristeza nunca passe. Talvez eu volte a usar preto. Talvez o meu coração nunca mais se emocione. Mas hoje, eu só queria chorar. Se não sonho mais, se não espero mais nada dele ou de outro qualquer, se não me importo mais com o futuro. Só me resta o choro, mas nem isso eu tenho mais.



Nenhum comentário:

Postar um comentário