14 janeiro, 2017

Febre de Marilyn Monroe





                                        "Não me falta homem, o que me falta é amor."
                                                Marilyn Monroe

Ele olhou-me e falou “Você poderia ser a reencarnação da Marilyn Monroe com os olhos da Penélope Cruz”.  Não sei se ele estava falando sério ou fazendo algum tipo de piadinha, tentando, assim, fazer graça com algumas palavras prontas para enfeitar as promessas.  Eles sempre me elogiavam quando queriam alguma coisa além de um jantar, sem luz de velas.
- A Marilyn era loura. Eu sou morena –  tomei um gole do vinho.
- Não falo da tonalidade da pele, mas do feitiço que dela vem. Veja só, você tem carisma é bonita. E é uma estrela, sei até que te chamam de diva, já li sobre você.
- Leu sobre mim? Onde? – ri meio sem graça.
- Isso não vem ao caso, querida. Estou feliz por ter aceitado estar comigo aqui, essa noite. Gosto da companhia de mulheres bonitas. De pessoas inteligentes.
Sorri, falsamente. Estava atuando. Protagonizando o papel criado por ele para mim. A mulher delicada e ingênua, como uma criança, que acredita na possibilidade de um amor eterno.
- Eu te conheço tão bem, querida. 
- Na verdade, você conhece apenas a minha escrita e não eu. As pessoas, principalmente os homens, sempre confundem nós duas.  
Pousei a mão sobre a toalha branca. O vermelho das minhas unhas contrastando com os raios lunares que banhavam aquele espaço de mistérios.  Cuidadosamente, mas decidido, ele colocou a mão sobre a minha.
Alguns silêncios. Vagas promessas.
Os olhos dele me olhavam e tentavam descobrir algo sobre mim. Algum segredo escondido, muito além daquele corpo feminino. Daquele batom vermelho.
Eu o olhava e pensava, com a maldita esperança que ainda resta no peito, “Será ele o meu futuro marido. Que vai me tratar bem. O homem que será fiel a minha alma? Ou, será ele mais um dos canalhas que irá me abandonar depois que o sol nascer?”.
- Você é a mulher mais bonita que já conheci em toda a minha vida. Sou apenas um admirador de sua beleza. Não te escrevo um poema porque não sei rimar, mas trago-lhe algo. 
Ele tirou do bolso do paletó uma caixinha preta e a colocou em cima da mesa. 
- O que é? – perguntei curiosa.
- Abra e veja.
Peguei a caixinha de veludo e a abri. Dentro dela uma pulseira de pérolas negras brilhava.
- Uma joia rara para outra – ele sorriu.
Flores. Rosas brancas. Por que ele não me deu rosas brancas? São as minhas flores favoritas. Pensei.  Fechei a caixinha. Devolvi.  A expressão dele mudou de entusiasmo para decepção.
- Alguma coisa errada, querida? – ele levou a mão ao queixo, expressão fechada.
Agora, não sai da minha cabeça um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação": "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Falei séria. Fala da paixão a primeira vista de uma garotinha ruiva por um cão também ruivo. Os dois se olham. Admiram-se, prometidos. Mas a dona o puxa, ele se vai. Para sempre.
De mais a mais, eu também sei que você vai embora. Eu sinto isso, bem no fundo do meu peito furado. Não sou, para você, nada além de uma fantasia. Assim como fui para o meu antigo chefe que me demitiu por eu não corresponder as suas “investidas amorosas”. Fui uma fantasia para o meu ex-professor que me reprovou pelo mesmo motivo. Meu ex-amigo que matou a nossa amizade porque eu não quis dormir com ele. Assim foi com o atendente do banco que me escondeu que era casado. O jornalista. O escritor. O empresário. O policial. O cara na festa. O advogado. Todos os homens que me cercaram/cercam e arrancam um pedaço de mim – do lugar que mais dói – o coração.

Você sabe – iniciei a fala. Levantei-me - Após a lua as fantasias se desfazem e o que sobra é uma alma calejada que queima em febre de solidão. Quando aparecer alguém que me faça sentir o sopro de borboletas no estômago e me faça desprender os pés do chão, será a hora certa de borrar o batom vermelho. Por enquanto acho que perdi o deslumbre pelo amor e isso é a coisa mais triste que já aconteceu na minha vida, até agora. Agradeço a quem por isso? A você ou a eles?!


Crônica escrita em Julho de 2014. 



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