26 novembro, 2017

FELICIDADE CLANDESTINA


                                                                         Imagem: Bradley Soile




            Quando penso nele, penso sempre nas suas tatuagens. No significado delas, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, naquele sórdido bar de esquina, foi nas tatuagens que eu reparei. Havia algo fascinante naquela âncora e naquele navio sombrio, como a representação de uma travessia do mundo material para o espiritual. Era o que a burguesia chamaria de manifesto rebelde: o corpo como uma tela humana.
            E o que havia além daqueles símbolos, também lembro-me bem: loucura. Carpe diem o verdadeiro Alcorão da vida, para ele. Seus pensamentos disparando espirais entorpecidos pelos alucinógenos. Muitas e muitas vezes, enquanto estávamos deitados na cama enorme, eu fazia a pergunta de maior frequência: “- O que você está pensando, querido?” “-  Nada” – ele respondia, encarando o teto branco. Mas a pergunta certa que deveria ser feita, era: “- Devo deixar o meu coração do lado de fora antes de entrar?”.
Nas noites de verão e nas manhãs de inverno, ele me beijava, a barba roçando as minhas têmporas, meu James Dean. Lá fora, as luzes da rua criavam formas confusas, às vezes sombrias, enquanto ele arqueava o corpo, projetando-se para cima de mim. Eu sentia todo o peso dele, e isso era bom.
Existe uma mulher como eu em todo lugar, eu acho. A moça que se apaixona perdidamente pelo cara mau. É, sou como qualquer ser humano entorpecido pela paixão, cega, surda e muda. Duas semanas juntos e ele já era o grande amor da minha vida. O meu homem perfeito, como se fosse tudo parte de um plano divino, então não me importei em me entregar de corpo e alma. Eu sempre fui sedenta por carinho e atenção. E isso, ele me dava de sobra. Bem aventurados os apaixonados.
Eu, uma pessoa tão original, finalmente, havia encontrado alguém tão inerente quanto eu. Mas, naturalmente, uma modesta angústia cresceu em minha alma, após dois dias sem notícias dele. E assim continuou. Quanto tempo? Uma semana. Eu não liguei. Também não esperava que ele ligasse. Eu sabia que durante esse tempo indefinido o jogo é ganho por aquele que demonstrar mais desapego e desinteresse. Mas o drama do “dia seguinte” corroía a minha alma como um rato a roer um pano velho descartado em qualquer bueiro urbano.
E apesar da hostilidade entre ambos tornar-se gradativamente mais intensa ao passar dos dias, pois tudo na vida deve ser recíproco, até o desinteresse, o meu coração ofendido sofria a grande desgraça de ser irremediavelmente “jovem” e imprudente; mas, principalmente, intenso demais para uma era tão contemporaneamente subjetiva.
O fato é que, quando ele apareceu com outra mulher, eu me senti usada para satisfazer o prazer dele, bonequinha de luxo, descartável. Vagamente consciente, eu sabia que não nos amávamos, isso era claro. Mas o que seria amor? Essa palavra tão embaraçosa. Acho até que existia algo de falso em nossa relação. Então, por que sofri? Porque me feriu o grave orgulho de não ser levada a sério, novamente. Eu sabia que a raiva que eu sentia daquela nova mulher era mal direcionada – eu ficava furiosa por agora ela tê-lo e eu estar, mais uma vez, sozinha.
Será que realmente tentamos? Perguntava-me entre a escuridão da noite e o raiar do dia. O que foi que aconteceu, o que foi exatamente que aconteceu, meu Deus? Não queria lembrar, mas não me saía da cabeça a nossa excitação mental, espiritual e física. Havia o cansaço do dia-a-dia e os livros separando os nossos corpos, foi isso, amor de menos? Amor demais? Ou foi o mundo líquido?
Passei a noite pensando e repensando: ele me caçou para o quê, ah foi para ... ? Não, não foi apenas isso. Haveria de não ser. Mas conheço bem esse processo do mundo dos amantes: chamam-me de amor, pelo menos durante algum tempo até o instante de utilidade. A verdade é que, como li certa vez em um livro com o título de morangos, “Cultura demais mata o corpo da gente”, mas penso que deveria ser o contrário: cultura demais mata a alma da gente. Atordoa a mente.
Existiu um momento, quando estávamos observando estrelas ofuscadas, naquele deserto de almas, que eu pensei que iríamos dar certo. Eu. Você. As tatuagens. Mas aquele olhar, que não mais me despia, importunava-me. Aquele olhar que eu vi era anônimo.  Um olhar imóvel. Sem vida.
Depois daquela noite, eu não o olhei mais. Aquele homem por quem me apaixonei ensinou o meu coração a bater em silêncio, mais uma vez. A paixão é um perigo social. É uma gafe que só os loucos comentem.
E foi assim que...

04 novembro, 2017

Cidade grande


Imagem: Sandro Andrade

Luzes...
Dezenas delas, 
Pequenos vagalumes que cortam o céu
E iluminam os olhos tão vagamente
Opacos e incrédulos. 

O céu
Negro como um mar ébano
Sem estrelas no fundo
Da água turbulenta.

A esperança
De um crescimento oportuno
No crânio do mundo 
Fez-se a solidão

Acontece
Que eu tinha aqueles braços
Que me abraçavam 
Eu tinha aqueles olhos
Que me olhavam 

Eu tinha aquela boca 
feita de beijos
Rubros e ardentes

Eu tinha aquelas noites
De volúpia

Na névoa da solidão
Eu o tinha.

30 agosto, 2017

O dia do adeus


Imagem: Jen Mann



VERSÃO CONTO

A história que irei contar agora é particularmente dolorosa. E se escrevo, nesse momento, sobre isso é porque tenho a certeza de que nunca esquecerei aquele dia. Sobretudo, eu nunca o esquecerei.
No dia em que ele morreu, eu estava na casa de uma amiga em outra cidade, porquanto; naquela noite, aconteceria uma grande festa com uma famosa cantora da música popular brasileira. Lembro-me que naquela manhã ao acordar eu vi tanta beleza em um céu tão azul que os meus opacos olhos desatentos, por um instante, conduziram-me a uma epifania: vida.
Mas foi à tarde que tudo aconteceu. Eu estava na sala com as garotas, conversando sobre as festividades da cidade, e como seria legal combinarmos os nossos sapatos com a cor dos nossos vestidos de gala. Nesse momento de falações fúteis, o telefone tocou. Eu o atendi em gargalhadas: “– Ele morreu” – disse ela com um tom de voz que eu nunca havia escutado antes na vida, fúnebre. Soltei o telefone de sobressalto, depois senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto e um braço me segurando firme pela cintura. As meninas tentavam me consolar, me abraçavam e pediam para eu ficar calma. Mas eu não queria me acalmar. Eu queria apenas voltar para casa. Estar com ele.
Por um longo tempo, elas ficaram ali na minha frente, me olhando. Eu me sentia mal com aqueles olhares a filtrar o meu ser, então afastei-me delas, meio grogue, e entrei no quarto. Um lugar vazio e úmido, assim como a minha alma. Fiquei ali por horas.
Finalmente, quando à noite chegou, levantei. Meu corpo movia-se desajustado pelo espaço quadriculado. Eu me sentia mal e muito culpada. Quis conversar com uma amiga, mas acredito que eu não aguentaria o olhar penoso. Quando percebi, estava escrevendo uma carta, endereçada a mim mesma:

É tudo tão branco aqui, tão calmo. Estou caminhando devagarinho, pisando em um chão que parece ser feito de pequenos pedaços de diamante. A brisa suave e doce toca a minha face. As nuvens passam por mim, enquanto percorro uma estrada - sinto que ela está me levando a alguém, e sei que essa pessoa está me esperando há tempo. Estou indo em direção ao pai. Ele, que almejei há tanto tempo na terra, me chamou e eu aceitei o seu convite de beijar o céu.
O sol aqui é enorme, mas ele não me queima. Nada aqui me feri. Minhas roupas são tão finas e leves que em alguns momentos penso não estar usando nada. Às vezes passam por mim pessoas correndo, acho que elas estão indo para o mesmo lugar que
eu. Confesso que no começo senti medo, porque era tudo estranho e as pessoas temem o que é desconhecido. O mais difícil foi ver todos que amo segurando lágrimas nas mãos. Doeu estar ao lado delas e não poder abraçá-las. E as palavras que sempre me fugiram, naquele momento eu estava cheio delas. Eu só queria dizer que é bom estar em casa.

Quando as minhas mãos soltaram o lápis, vesti calça e blusa preta. Nada de vestido. Enquanto passava batom vermelho nos lábios, às lágrimas voltaram; agora negras por causa da maquiagem. Engoli o choro culposo e fui para a festa. Lá, no meio daquela multidão, me senti o ser humano mais sujo e cruel do mundo. Eu era uma assassina declarada, simplesmente pelo fato do meu corpo estar naquele local. Eu era tão jovem, entende? - foi a primeira vez que a morte apareceu na minha vida - fiquei perdida na insatisfação da solidão entre quatro paredes e pensei em tatear devaneios em meio à multidão. O que eles não sabiam é que aquela foi a pior festa da minha vida, parecia um velório. Eu não via as pessoas, não ouvia a música, pois o mundo estava morto.
Na manhã seguinte, enquanto eu voltava para casa, ao observar o nascer do sol, a lembrança dele voltou. Naquele instante, uma certeza aflorou dentro de mim: a vida nunca mais seria a mesma.
Seja como for, depois de algum tempo, e aos poucos, as lágrimas foram sumindo e eu comecei a me comportar de uma maneira estranha. Comecei a visitá-lo com bastante frequência. Sentava sobre o seu túmulo e lia cartas e mais cartas que eu o escrevia, diariamente. Eram cartas; acho eu, de amor. E devo dizer ainda que eu sentia um prazer enorme em passar horas deitada ao lado dele, enfim: como se o fantasma dele, que eu tenho certeza que vagava por aquele cemitério, pudesse me ver, me ouvir, me sentir e me perdoar.
Desculpem a minha loucura, sei que parece um pouco inacreditável, mas eu o sentia perto de mim, para ser mais objetiva: eu sentia os olhos dele sobre mim, vigiando-me, como um detetive atento a qualquer deslize meu. Quando o olhar dele me transpassava, via o que havia acontecido depois de sua morte, e o que havia acontecido depois de sua partida era algo cinza e podre. Algo em mim era pútrido, os amigos dele tinham razão, nada em mim era belo ou divino, e no momento em que tive essa certeza; decidi contá-lo pessoalmente que eu sempre o amei, mas que só tinha descoberto isso no dia em que ele morreu. É assim mesmo, a gente só sente falta daquilo que perdeu.
Hoje, como de costume, cheguei cedo ao cemitério. Sentei ao lado dele e retirei a carta do bolso da calça jeans. Com cuidado abri o envelope com o estilete e, em seguida, os pulsos. As palavras da carta eram tão vermelhas que pareciam sangrar. Assim como eu.




23 julho, 2017

Culpada



Imagem: Conrad Roset


Ele me julga culpada; talvez eu seja mesmo, porquanto carrego comigo um dos piores ‘pecados’ do mundo: o sentimentalismo. Sou sensível demais e isso me faz sentir os mistérios da vida exorbitantemente. A dor nunca é pequena, a paixão nunca é módica e o abandono sempre é o apocalipse – toda vez que me apaixono sou culpada por sentir em excesso -.

Li que Sylvia Plath suicidara porque era muito sensível e muito inteligente, e segundo Antonio Tabucchi as pessoas muito sensíveis e muito inteligentes sofrem mais que as pessoas pouco sensíveis e pouco inteligentes e têm a tendência de se suicidar (é o que dizem os psiquiatras e as estatísticas). “Se as pessoas escassamente sensíveis e inteligentes tendem a fazer mal aos outros, as pessoas muito inteligentes e sensíveis tendem a fazer mal a si mesmas: quem é muito sensível e muito inteligente conhece os riscos que comporta a complexidade disso que a vida escolhe para nós ou nos consente escolher, é consciente da pluralidade da qual somos feitos, não somente de uma natureza dupla, mas também tripla, quádrupla, das centenas de hipóteses da existência” (Tabucchi, p.7). Este é o grande problema daqueles que sentem e entendem demasiadamente, segundo Tabucchi: é que podemos ser tantas coisas, mas a vida é uma só e nos obriga a ser só uma coisa, aquela que os outros pensam que nós somos.

Atrás do amanhã, frente aos meus olhos incapazes de serem secos: eu vejo e sinto muito. Talvez o erro esteja no meu excesso, ou no exagero do fantasiar. E és que sinto muito por sentir: por todos os amores vazios que me abraçaram e me lançaram na lama da solidão irremediável. A minha infelicidade é a solidão intangível do meu coração da outra metade que talvez nem exista.

E ser sensível demais e demasiadamente, talvez, quem sabe, inteligente; tudo isso me perturba porque eu penso  até então que, de certa forma, aceitar todas as ausências das fantasias de minhas paixões é como ser um álbum de fotografia. E a minha coleção de retratos é como a coleção de belos quadros adormecidos do Rubem Alves: “os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora”.

Mas o que me inquieta, agora, é o retrato recente, que guardo sem dor, embora doa, e em segredo.


30 junho, 2017

O dia de ontem


Imagem: Pascal Campiom




           Ontem não havia lua no céu. Ontem à noite o que me doía era a consciência. O que me doía era não conseguir aceitar a efemeridade da vida, e o silêncio do silêncio. A dor da solidão corria o meu corpo e fazia cintilar um mar de pensamentos obscuros. Você sabe do que estou falando: daquelas reflexões que circundam a nossa pobre carcaça humana quando o dia, o mês, ou o ano foi insatisfatório. Autodestruição. Captou, baby?!
            Era dia de sol na tarde da noite que não era ontem. Eu era criança e pedia aos céus a vida adulta, um marido e muitos filhos, porque elas me disseram que eu só conseguiria ser feliz quando eu atingisse esses objetivos. Acreditei! Porém; mais tarde, bem mais tarde, na vida adulta, elas diriam que eu não precisava de ninguém para ser feliz. Autossuficiência. Acreditei!
            Foi então que comecei, nos primeiros anos de minha vida, a perseguir o amor, no entanto, ele era como uma borboleta arisca... voava, voava ao meu redor e partia em um piscar de olhos. Inúmeras vezes, eu não conseguia compreender o porquê da fuga, e isso me doía tão profundo que eu chorava e chorava, a cabeça escondida entre os travesseiros, a infelicidade de nunca ter conseguido um “amor”.
           Mas de repente decidi seguir o segundo conselho. Eu era autossuficiente e não precisava do amor de ninguém. Fria. Muito fria. Feliz sendo só minha...
            Então apaixonei-me e voltei a perseguir o amor. Eu precisava dele como um corpo precisa de um coração para viver. Embora estivéssemos naquela zona de conforto azul cintilante, na beira do abismo, o silêncio do silêncio voltou. Depois de vários espancamentos psicológicos, ele voou para além do abismo.
            Então elas me disseram que todos eram monstros e que criar expectativa era algo muito perigoso. Acreditar no outro também era arriscado: “Amor não existe”. “Não acredite no amor” ... E elas diziam e diziam e diziam... E eu morria. Morria.
Mas elas nunca me escutaram. Infelizmente, eu também nunca havia dado ouvidos a mim mesma.
            Ainda ontem à noite eu lembrei-me de todos os conselhos que recebi, ao longo dos meus vinte e poucos anos, e entrei em uma compreensão: QUEM DECIDE A MINHA VIDA SOU EU! Não é uma compreensão nova, apenas a havia esquecido.
Não passei todos esses anos sentindo fome na alma, criando filosofias, desencontrando, procurando abrigo, amparo, amor — eu não fiz tudo isso para desistir agora, sem mais nem menos, no meio de uma noite qualquer, e que agora eu tenho mesmo é que continuar, porque a casca está endurecida — e ri muito, mais tarde, cheia de vitalidade e vontade de abrir janelas, portas e o coração.
No dia de ontem eu não precisava, necessariamente, de um marido ou de filhos para ser feliz, mas eu necessitava de um companheiro, assim, como todo ser humano. Construir laços, dar e receber amor... Eu acredito sim no amor, e daí?
Quero alguém para tecer a vida comigo, ser o meu lado esquerdo, sonhar e realizar, lado a lado. Ir fundo no fundo. Barulho no meio do silêncio. Paixão e amor. Amor não líquido.
El@s não vão mais acabar com a minha esperança. A minha essência está viva e quer o amor com história própria, porquanto, como disse Bauman: ."Não há como aprender a fazer o certo a partir das experiências dos outros". Pior, não há como aprender a “fazer certo na próxima oportunidade” com um evento que jamais voltaremos a vivenciar (seja esse o amor ou a morte). 
           
           




16 junho, 2017

São João é São Miguel



                               Bandeirolas no céu, festa em São Miguel,
                             Chegou o São João e eu vou me animar
                                   De malas prontas, da capitá
                                       pra minha terra eu vou retornar.

O arrasta pé na serra,
Alegria e animação
No arraiá do tio Kalika
Tem quadrilha no salão,
Vou perder as estribeiras
Pular fogueira e soltar balão.

Lá no pátio do forró
Vou dançar à noite inteira
Levantar um moi de poeira.
Mas olhe, não danço só,
Tem sempre um parceiro
Pé de valsa companheiro
Lá no pátio do forró.

Junho é mês de festejo
De cultura e tradição
De muito traquejo
E de muita exortação
De alegria, faz tracejo
           No desenho do sertão

16 maio, 2017

Existe sempre alguma coisa ausente


Imagem: j.o.e.




      É muito difícil construir histórias, principalmente, quando o emocional está no chão e a mente perturbada. Escrever... Toda vez que escrevo eu tenho um ritual particular. Depois de sair para correr, escolho uma música que desperte-me alguma emoção, fico olhando para o papel e os dedos que estão preenchidos pela dor daquele momento reescrevem/criam a história.  
      Sempre escrevo sobre o amor e a morte; mas, principalmente, sobre o fero do amor, porquanto, como disse Bauman em sua obra Amor Líquido:“O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto à morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento”. Minhas criações são sobre as desilusões que nos levam a ultrapassarmos os nossos limites. Minha escrita é sobre a vida que grita nos cantos de um bar sórdido, enquanto os copos de álcool preenchem as amargas bocas túrbidas. E em meio a essa desventura de observar a vida e escrever. Sendo sincera, nunca imaginei que a minha escrita proporcionaria aos seres observados uma escapatória. Eu escrevia para expelir a dor que sentia, entre tantas coisas, mas que acabou por também  expelir a dor dos outros.
      Há alguns meses não escrevia, pois eu estava imersa em uma grande crise emocional que não me dava mais motivos para levantar da cama ao acordar. Minha vida começou a sair dos trilhos e o belo roteiro que eu havia escrito para ela... foi rasurado por outras pessoas, ou pelo tal do destino. Pior que tudo, crescia dentro de mim um sentimento de desorientação (ainda ronda). “Onde estou?”; “Qual é o meu lugar no mundo?” “Para onde devo ir?”; “Talvez eu não seja boa o suficiente”; “O sonho morreu?” “Devo parar agora?”...
      Então, eu estava no hospital com uma grande crise de enxaqueca, enquanto pensava em abandonar o estudo e nunca mais escrever, ou ensinar. Os “nãos” consecutivos que a vida me deu me fizeram desistir.
      Fazia frio e garoava dentro de mim... Foi quando ela me abordou, ao ler o meu nome no prontuário. Sorrindo, ela agradeceu-me pela minha escrita. Agradeceu-me pela minha obra que a fez ter coragem suficiente para sair de um casamento violento. Naquele momento breve – fiquem bem. Voltei para casa pensando que aquele encontro talvez fosse uma mensagem de Deus, um pedido para eu continuar escrevendo. Não sei por que eu pensei isso, tendo em vista que eu já estava farta de ouvir os clichês de autoajuda que saltavam das bocas alheias: “Deus sabe a hora certo de tudo”; “Vai chegar no momento certo”;“Deus não abandona um filho”; “Reze, querida. Reze!”; “Se não aconteceu agora é porque não era pra ser”. Não sei se esses clichês são verdadeiros, mas sei que sempre vai existir alguma coisa ausente a me atormentar, como disse Caio Fernando Abreu: “Algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede faz parte. E atormenta”. É no meio desse tormento que a minha escrita viverá. Hoje. Amanhã. Para sempre. Ou não.
... “*A vida nem sempre é como sonhamos, mas nem sempre sonhamos o que queremos viver”...
     

*Citação de Allan Kardec.  

04 maio, 2017

A ilusão do amor.


Imagem: Dara Scully

Quando eu escuto aquelas músicas sentimentais que fazem sangrar o coração, eu só penso em você. Quando eu acordo no meio da noite choramingando o medo de estar viva, eu só penso em você. Na fila da padaria, na espera demorada do atendimento bancário, em meio a uma epifania, na correria do dia a dia, eu só penso em você.

O pensamento verte sangue – disse o poeta. A vida se esvazia. Correr perde o sentido. No vai e vem dos dias, eu só penso em você.

Partem-se as horas. O fio da meada, nunca mais será a mesma. A vida nunca mais será a mesma: eu disse e nem assim ninguém acreditou. Em mim. Nele. Em nós.

De tanto eu pensa e repensar, o abismo da minha mente engoliu os divinos risos dourados. Ilusão? Paixão? Amor?

Ilusão...

Amor...

Eu só penso em você. 

07 abril, 2017

Um dia eu sumo e ninguém me acha.


Imagem: Loui Jover

Hoje, uma típica noite de sexta-feira, acordo, meio tonta, com um gosto amargo na boca. São 18h10minh, o relógio soa desesperado, enquanto a janela aberta introduz no interior do quarto uma luz mórbida. Mais uma vez, a escuridão é o meu abrigo e o silêncio é o espreitar da morte.

Não tem pra quer eu levantar da cama, hoje não, sem motivos. Estou cansada, viajei durante cinco horas para voltar para casa, o corpo físico pede recuperação. Estou cansada, um pouco da esperança morreu hoje, novamente, a alma pede recuperação. Hoje resolvi assumir a minha amargura, porquanto eu não suporto mais inventar encanto e magia para o vazio. 

Garotão, calado! Nada, você não entende nada. Você não entende nada sobre o meu cansaço. Você não sabe nada sobre o sonho em vão. A vida rodando por aí e eu fora do seu movimento, espreitando a mentira da felicidade.  

Olhe bem para mim – tenho cara de quem quer ser amarga? Não! Mas quando dei por mim eles já haviam levado embora o meu sonho, a minha esperança e o meu amor. Amor não existe, garotão, é tudo balela. Eles me ensinaram isso. Você não sabe quem são eles? Jura?! Nossa, garotão! Eu te contei sobre eles entre drinques e velas postas delicadamente sobre a madeira da mesa de bar.

O coração é um bicho tão esquisito, a alma também é algo estranhíssimo. Você não acha? Não, você não acha. Você é apenas um garoto e isso te impossibilita de saber como eu me sinto.

Semana passada, um deles me disse que estava apaixonado por mim, vê se pode um negócio desse! Eu esperei a minha vida toda para ouvir de alguém por quem eu nutro paixão que ele também gosta de mim, mas, finalmente, quando isso aconteceu eu senti vontade de sair correndo! Desaparecer! Chorar, chorar e chorar o fato do desacreditar. É isso mesmo, garotão, eu não acredito que um deles se apaixonou por mim, ou me ama. Não acredito, sou amarga, já disse.

Ai, eu queria tanto acreditar, e voar e cantar e girar na roda gigante, mas eu não consigo! Quando eu estou prestes a reconstruir a esperança...babau! Eles puxam o meu tapete e a idiota cai de cara no chão, novamente.

Eu, cansei. Cansei!

Não, garotão. A vida não me tornou amarga, os homens sim. Você sim. Mas como eu estava dizendo: hoje resolvi assumir a minha amargura e não levantar da cama. Só pra deixar de ser burra. Sabe, garotão... Igual àquela frase do Cortella: “Um dia eu sumo e ninguém me acha”. Entenda como quiser! Eu não te devo explicação!

Vai! Caia fora da montanha da minha loucura!  Pega a sua maldita senha e vá girar na roda gigante amarela, voar... Porque agora eu vou virar outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.

Mas eu volto! Um dia eu volto, garotão. 


O silêncio do inocente


Imagem do Google

Conto premiado pela Academia Mossoroense de Letras 06-03-2007

Meus pulsos doem. Os primeiros raios de sol invadem o chão úmido do banheiro. Grito ou permaneço em silêncio? A secura da garganta e o medo me mantém muda. Meus braços formigam e a dor que começa no quadril e finda nas costas é quase insuportável. Levanto devagarinho do vaso sanitário e tento, mais uma vez, desatar os nós do pulso, mas é algo impossível, pois ele os amarrou a grade da janela com bastante primor. Passei à noite lutando contra essa grade e o choro que não cessava, só não lutei contra ele, porque a última vez que tentei revidar acabei levando uma paulada na cabeça. A tentativa de detê-lo é o motivo de eu ter, perto da sobrancelha direita, uma terrível cicatriz. Melhor mesmo é ficar calada, enquanto ele me chuta e me soca. O silêncio o faz se acalmar, já o choro e o grito o fazem ter ainda mais sede de sangue.

A primeira agressão teve início logo após a lua de mel, o motivo: os homens olhavam demais para mim. Então ele me esbofeteou e mandou que eu aumentasse o comprimento da saia. Depois ele exigiu que eu jogasse fora as roupas com decote. Eliminasse o batom vermelho e as saídas de casa sozinha. O doce lar virou uma prisão perpétua e o amor transformou-se em medo.

Recuei depressa quando a maçaneta da porta começou a girar.
Ele disse: “Bom dia, menina” e o coração disparou de pânico.
– Desculpe-me por ontem, mas você me desobedeceu. Avisei que não era para sair de casa – ele me beija.
- Desculpe-me – múrmuro.
- Está tudo bem agora, menina. – Ele começa a me desamarrar.
Passo os dedos sobre os pulsos repletos de hematomas. Ele segura as minhas mãos e beija-as.
- Menina, estou com fome. Já passou da hora de você preparar o café da manhã.

Levanto com dificuldade. Meu quadril lateja. Manco até a cozinha. Abro a geladeira e pego à bandeja de ovos, preciso fazer uma deliciosa refeição para o meu marido, caso contrário ele irá me agredir novamente.

Sentamos à mesa. Ele lê as notícias esportivas do jornal em voz alta, pois adora reclamar do seu time de futebol para mim. O tom de voz sereno, o olhar terno o fazia parecer inofensivo. É um homem de bem. Diziam os vizinhos. É um santo. Diziam os colegas de trabalho e a família. É o Diabo. Dizia eu. Mas ninguém acreditava. Quem acreditaria na “puta” que dormiu com ele antes do casamento? Ninguém! Nessa cidadezinha pequena ninguém dá ouvido à conversinha de mulher. A palavra do homem é a que vale.

E esses hematomas? Perguntavam os amigos. Desastrada demais, vive esbarrando nos móveis. Dizia ele. E esse corte na testa? Perguntava os meus pais. Acidente doméstico. Dizia eu repreendida por ele: “Se contar a verdade eu te mato!”. Antes, juras de amor; hoje, ameaças constantes. Rezar era tudo o que eu fazia, até hoje à noite.

Depois do jantar preparei-me toda. Entre os travesseiros escondi a pequena faca. O esperei.
Ele entrou no quarto moreno e viril, o desejo crescendo entre as pernas. Primeiro toque. Recusei. Palmada na bunda. Segundo toque. Recusei. Puxão de cabelo. Terceiro toque. Recusei. Soco na cara.
- Vai continuar me evitando?
Não respondi e ele perguntou de novo: “Vai continuar me evitando?!”. Sacudi a cabeça: “Vou! A escravidão já acabou!”.
Minha mandíbula estalou quando ele furioso me estapeou. Meus olhos se encheram de lágrimas de raiva. Tentei retirar o corpo dele de cima do meu empurrando-o com as mãos, mas a minha força em comparação à dele era mínima.
- Você prometeu que nunca mais me bateria! Eu o empurrava e chorava – por que você me bate?
Ele me penetrou – Porque eu amo você, menina. O cheiro de álcool se espalhando pelo ar junto aos sussurros dele... Eu amo você... Eu amo v-você... meninaaa! E o orgasmo aflorou das profundezas.

O momento havia chegado. Procurei o pedaço de metal mortífero em baixo do travesseiro. A mão esquerda agarrou o ferro e rápida perfurei a garganta dele, muitas e muitas vezes, o sangue jorrando como uma mina de ouro. O corpo sacudindo por causa da violenta dor da morte.

O sangue dele impregnado no meu corpo tinha cheiro de liberdade. Eu sorria e rodopiava feliz pelo jardim, enquanto os vizinhos me olhavam horrorizados: “Está louca” eles sussurravam uns para os outros. “Estou livre!” eu sussurrava para mim.

No outro dia ninguém se surpreendeu quando os homens me jogaram no quartinho branco. Penso, por vezes, que eles me observam o dia inteiro, mas durante à noite é ele quem me vigia. Ele pensa que eu não consigo vê-lo através dessas paredes!

Não me espanto que seja ele quem passa a madrugada me arranhando, tendo em vista que ele sempre gostou de deixar o meu corpo marcado.

Maldito! – gritei alto, varias vezes.
“Acalme-se” as pessoas de branco pediam, mas eu não podia, pois ele estava, mais uma vez, me violentando.
Senti uma picada de abelha no meu corpo e um pano grosso prendeu os meus braços contra as costas.
“Eu amo você, menina” – gritou ele, mais alto e mais alto como se estivesse dentro da minha cabeça.
“Por amor de Deus, me deixe em paz!” implorei, mas, de certa forma, sabia que era um pedido em vão... Ele viveria para sempre junto a mim, no meu corpo, na minha alma e em minha mente...


23 março, 2017

Feliz aniversário, meu amor.




Pau dos Ferros
24 de março de 2013


Escrever essas palavras não é tarefa fácil...

Escrever essas palavras é uma tarefa árdua; dada a significância que sua presença possui diante de minha inspiração. Sendo assim, talvez essas palavras não demostrem o real valor da sua presença em minha vida, mas, infelizmente, nosso contato é remoto; por isso, optei por escrever-te uma carta. É, eu sei... Coisa de menina romântica, mas você sabe, melhor do que ninguém, que lá no fundo do fundo, eu ainda sou uma menina romântica.  

Hoje, preciso confessar algo: eu imaginei uma linda história de amor entre nós dois no exato momento em que vi o seu sorriso. Eu estava certa! A história aconteceu! Meio torta, mas intensa. Intensa não no sentido de duração cronológica, mas na profundidade do sentimento: incomparável, incompreensível.

Eu sei, meu ex-amor, que fui imatura, algumas vezes. Desculpe-me, por isso. Desculpe-me, também, por eu não consegui expressar, oralmente, o que eu realmente sentia; as palavras giravam em minha cabeça como uma montanha russa, depois se perdiam na imensidão da minha mente cintilante.

Quero que você saiba que nunca fui covarde, apenas controlava “o que dizer” e “como dizer”, porquanto as palavras que são lançadas não voltam, e até podem magoar. Você sabe bem disso. Você as usava para me matar, quase todo dia.

Naquela época, trabalhávamos muito, estudávamos muito, mas eu sempre pensava em você: imaginava coisas bobas...Sentada ao lado da janela do ônibus encostava a cabeça na vidraça, deixava a paisagem correr, e pensava demais em você. Geralmente eram pensamentos, demasiadamente, afetivos e revigorantes. Eu também lembrava da chuva: chovia, chovia e nós seguíamos por dentro dela, sem nos importar com os danos futuros, apenas sentíamos o “insetível” (essa palavra não existe, acabei de inventá-la para expressar o que não se pode sentir).

Não sei como, ou quando (mas talvez eu saiba) tudo começou a morrer.  Eu sentia você indo embora aos poucos, evitando-me. Até que uma noite você foi embora, para sempre. Nesse dia, eu aprendi a ser realista.

Aprendi que, muitas vezes, os “N” da vida são subjetivos. Aprendi que o tempo passa... 
Você teve uma contribuição no meu crescimento pessoal, não nego. Mas... ah, não consigo mais escrever. É hora de ir embora. Vou Caminhando devagar... Quem sabe, na próxima esquina, a gente se esbarra, novamente.

Feliz aniversário, Baby. 

18 março, 2017

Mente cintilante


Crédito na imagem



Vestida de nós, despi-me em versos
Nesse universo que é o nosso lar.
Imaginei duas cópias nossa no berçário,
Um relicário de amor.
Borboletas no jardim,
O cachorro a correr,
O gato a se esconder.
O vinho aberto,
O beijo certo.
O papel na máquina,
A máquina no papel.
O violão na sacada,
Paixão que nunca acaba.
Acho que te inventei no interior da minha mente...

***
O sentimento nu, a paixão que voou...
Serão para sempre os mesmos enganos.
Acho que inventei todos no interior da minha mente...

***
Cerro os olhos
Abre-se a retina castanho-claro
Amor em silêncio.
Isso é morrer...

***
No ar que eu respiro,
No caminho que determino,
Invento todos em minha mente...

***
O coração se dissipa em ilusão
Caio morta no chão
Ninguém inventa-me no interior da mente....










20 fevereiro, 2017

Seca


                                                         Imagem: Lora Zombie





Confesso que ontem eu tentei chorar. Deitei em posição fetal, abracei o travesseiro e tentei chorar. Não aconteceu nada. Coloquei uma música triste. Nada. Assisti a um filme de drama. Nada. Nenhuma lágrima. Estou seca. Vazia. Se não consigo chorar para aliviar a dor, o que devo fazer? Bem, só me resta encarar a parede enquanto as horas avançam e as pessoas vivem lá fora. Vidas artificiais. Vidas sem sentido. Igual a minha.

Quando ele morreu, eu também não chorei. Estava seca, igual hoje. O caixão descendo para o eterno. A multidão em pranto. Eu parada, toda de preto, óculos escuros, sem lágrimas. Eterno vazio. Triste, muito triste.

Hoje eu não sinto nada, apenas a vida morta. A vida que não acelera o peito. O comum de todos os dias, sem magia, sem encanto, sem esperança. É tão agoniante e frustrante não ter mais esperança. É uma desgraça.

Eu amei mais uma vez sozinha. E era tão bom fazer parte desse amor e voar e sonhar e viver. Mas hoje eu decidi assumir o meu coração vazio, mais uma vez. Só porque ele foi embora, sem dizer absolutamente nada, assim, como todos os outros que também, em algum momento, emprestaram magia para o vazio e depois se foram.

E só porque esse mês, essa semana, hoje, eu não sinto vontade de levantar da cama, ou de comer, ou de me arrumar, ou de escrever, e, principalmente, eu não sinto mais vontade de inventar beleza para o vazio... eu queria chorar. 

Acordar me deixa triste. Escrever me deixa triste. Ler me deixa triste. Essa cidade me deixa triste. Planejar o futuro aumenta a minha tristeza, absurdamente. Sinto saudade de ter esperança e fico triste de novo. Sonhar me deixa triste, Lembrar que ele foi embora me deixa mais que triste...

Talvez essa tristeza nunca passe. Talvez eu volte a usar preto. Talvez o meu coração nunca mais se emocione. Mas hoje, eu só queria chorar. Se não sonho mais, se não espero mais nada dele ou de outro qualquer, se não me importo mais com o futuro. Só me resta o choro, mas nem isso eu tenho mais.