16 novembro, 2016

Capítulo 1 - O Lago.






Imagem: Mahafsoun

CAPÍTULO 1
 Raízes
  
É início de julho do ano de 2012 e Guilherme Almeida está retornando a sua cidade de origem, agora como um médico recém-formado. Uma placa na beira da estrada saúda o seu regresso: “Seja bem-vindo a Miguel Arcanjo”. As letras se encontram desgastadas por causa da ação do tempo, mas a placa continua exatamente como ele lembra, velha e meio enviesada. A cidadezinha do interior mudou um pouco — as ruas estão pavimentadas e alguns mini edifícios tentam alcançar o céu. Guilherme reconhece algumas casas e até pessoas enquanto percorre as ruas até a fazenda de seus pais.
O céu encontra-se em um tom alaranjado; é hora do crepúsculo. Fora do asfalto da cidade e já na estrada de terra, Guilherme bate o polegar direito no volante do carro seguindo o ritmo da música In loving memory, da banda Alter Bridge. Pelas lentes do seu óculos de grau, ele observa ao longe o reflexo do pôr-do-sol na água de um pequeno lago, o mesmo lago onde ele costumava pescar com seu pai nas manhãs de domingo. Repentinamente, Guilherme é embriagado por uma nostalgia gostosa que o faz  ir até lá e contemplar o finalzinho do crepúsculo sentado no píer. Maravilhar-se com o pôr-do-sol é um privilégio que ele não tinha há algum tempo, pois os últimos anos que antecederam a sua formatura foram corridos.
Guilherme caminha em direção ao lago sentindo-se absorto com aquela magnífica vista do sol sumindo por trás do verde dos campos da serra. Ao chegar ao fim do píer, ele se detém a observar o movimento da água que ondula de acordo com o toque do vento. Quando volta a contemplar o pôr-do-sol, avista uma mulher de cabelos longos e negros segurando a aba do vestido florido enquanto avança para dentro da água. Guilherme percebe/sente, sem nenhuma sobra de dúvidas, que ela tentará suicídio.
— Droga! — murmura. E corre até ela. Sem ser percebido, para ao lado de uma árvore que fica próxima da beira do lago. — Se eu fosse você, não faria isso.
A mulher para de avançar lago adentro e, sem se virar, diz: — Quem é você para me dizer o que eu devo ou não fazer?
— Um ser humano, por isso, se você continuar, eu terei que impedi-la. — Ele avança um pouco na direção dela, afundando ligeiramente os sapatos na terra amolecida.
— Não se aproxime!
— Me dê a sua mão, eu te ajudo a sair daí. — Ele estende a mão, mas ela não se vira.
— Já falei para não se aproximar! Vá embora!
— Não posso, já estou completamente envolvido nessa situação. Como falei, se você entrar, eu terei que ir atrás de você. Só temos um problema: eu não sei nadar.
— Não seja ridículo! Você não me conhece, por que faria isso?
— Porque essa é a minha profissão. Eu salvo vidas.
Ela se volta para ele, encara-o.
— Venha, eu te ajudo a sair. — E estende a mão novamente. — Eu sei que você não quer morrer assim, sentindo os pulmões queimarem. A morte deve ser algo tranquilo e não angustiante, e se afogar é terrivelmente aflitivo.
Ela olha para a mão dele estendida em sua direção, pensa um pouco e então a segura. Guilherme agarra o braço dela com as duas mãos e, com a ajuda dele, ela avança desajeitadamente para fora do lago. Perde o equilíbrio e tropeça para frente, chocando seu corpo contra o corpo dele.
Rapidamente, Guilherme a segura:
— Tudo bem, eu a peguei!
Ele sorri, mas ela não retribui: sente-se envergonhada e idiota. Mas confessa mentalmente para si própria que ele é como um anjo que veio salvá-la de si mesma. Ela consegue sentir a aura de proteção que emana dele, e isso a tranquiliza. Após retomar o equilíbrio, ela se desvencilha dos braços dele e volta de súbito a olhar para o lago, calada e misteriosa. Guilherme admira a beleza dela enquanto escolhe cuidadosamente as palavras:
— Vamos! Eu te levo até sua casa. — Ele toca o ombro dela. — Suponho que deva morar por perto.
Ela não o responde, continuando imóvel.
— Então você não quer ir para casa? Tudo bem, eu vou sentar aqui e descansar um pouco, pois acabei de fazer uma longa viagem. — Ele tenta distraí-la dos pensamentos que permeiam sua mente enquanto se acomoda embaixo da árvore. Não pode deixá-la sozinha, temendo que ela atente novamente contra a própria vida. De braços cruzados e sentado debaixo daquela árvore, Guilherme não desvia os olhos da mulher que está parada a sua frente como se fosse uma estátua de mármore. Ele formula mentalmente uma conversa, mas acaba desistindo de falar algo, uma vez que todas as outras tentativas falharam. O melhor, por enquanto, é continuar calado e atento a qualquer movimento dela.

“Ele ainda não apareceu. Talvez não tenha se dado conta de que saí de casa, mas isso só é possível caso ele não tenha retornado do trabalho”, pensa a mulher enquanto suspira. De súbito, parece fácil voltar para casa agora ao imaginar que ele não esteja por lá. Nesse momento, parece impossível e surreal o fato de que há poucos minutos ela tenha tentado se matar. Suspira novamente. Parece que tudo irá ficar bem, ao menos por hoje. Felizmente, não perdera a esperança de ser livre algum dia em vida, sendo ela mesma, mas hoje, a única coisa que ela pode fazer é retornar para casa sentindo-se covarde por não ter tido coragem suficiente para acabar com tudo logo de uma vez.
 A mulher sorri lacrimosamente e seu riso é de derrota.
 Tristonha, ela descruza os braços e, com um movimento apressado, põe-se a andar, pois é hora de voltar para casa. Ao se virar, vê o seu salvador ainda sentado debaixo da árvore. Havia se esquecido dele, surpreendendo-se ao encontrá-lo ainda ali.
Guilherme fica surpreso ao vê-la caminhar em sua direção. Levanta-se rapidamente e sorri para ela, que apenas o olha com raiva enquanto passa por ele. Guilherme sente-se aliviado ao vê-la se afastar daquele lago e a única coisa que ele pode fazer agora é observá-la sumir entre o verde do campo. 
Quando Guilherme chega à fazenda dos seus pais, já é noite. Sua mãe, Amanda Almeida, o espera na varanda com um sorriso largo entre os lábios; ao seu lado, Pedro Almeida, tenta não transparecer a emoção de reencontrar o filho, após tantos anos. Guilherme estaciona o carro em frente à casa e desce. As suas pernas estão bambas e o coração batendo disparado de saudade.
— Guilherme, meu filho! Quanta saudade eu estava de você! — Amanda o abraça, com olhos marejados.
— Seja bem-vindo de volta, rapaz! — murmura Pedro Almeida ao abraçar calorosamente o filho.
— Senti muita falta de vocês dois! — afirma Guilherme emocionado.
— Vamos entrar, filho! Você deve estar faminto. Preparei o seu prato predileto, baião de dois ao queijo — diz Amanda enquanto passa carinhosamente uma das mãos sobre o rosto do filho.
— Oba! Que delícia! — Sorridente e sentindo-se feliz, Guilherme entra em casa acompanhado de seus pais.
Naquela noite, após o jantar e as conversas jogadas fora com a família, Guilherme  senta-se em uma cadeira de balanço, posta na varanda que circunda a casa, e põe-se a olhar as estrelas. Da cidade não dá para vê-las nitidamente, apenas no interior o céu torna-se um espetáculo cheio de constelações. “O vento continua suave e os grilos cantam entre os matos. Senti muita falta desse ambiente, pois estar em contato com a natureza é algo maravilhoso e inexplicável”, pensa Guilherme enquanto empurra com os pés a cadeira de balanço. Vez ou outra a lembrança da mulher  do lago aparece em sua mente, no entanto, ele afasta o pensamento. Nesse momento, deseja apenas relaxar. Talvez depois tente descobrir o nome dela, dessa forma será mais fácil encontrá-la para saber se está bem.
— Pensando na vida, filho? — Pedro Almeida senta-se na cadeira de balanço ao lado de Guilherme.
— Sim. Penso que ela é maravilhosa e a natureza existe para confirmar isso.
— Concordo! A natureza é realmente divina, mas acho melhor você ir dormir, descansar, pois a viagem foi longa. Amanhã sua mãe deseja fazer um jantar em sua homenagem.
— Imaginei que ela faria algo. Mais alguns minutos e entrarei, pai.
— Não demore muito — diz Pedro ao levantar-se e antes de sumir pela porta, acrescenta: — Ah, é bom tê-lo de volta, filho.
— A benção, meu pai.
— Deus te abençoe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário