27 outubro, 2016

Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.



Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.

Preciso falar sobre a violência psicológica contra a mulher.

Chamava-se X. As pessoas esperavam dele coisas como beijar bebês, amar animais, versos poéticos, o prêmio Nobel da paz. Espantavam-se com os olhos claros profundos, ombros largos, a voz meio áspera, o rosto duro e frio. O conheci através das poesias. Que romântico! - dirão os desavisados de plantão. Que redoma de vidro! - direi eu. E você sabe a que me refiro.

X, inicialmente, demonstrou ser um homem amoroso. Bom filho. Bom irmão. Bom cidadão. É um santo! – dizia a família. É um exemplo de humanidade! – diziam os vizinhos e os conhecidos. X era o príncipe que fazia de tudo para me ver feliz. Ele era perfeito. Mas não existem pessoas perfeitas. Mais uma vez, você sabe o que eu quero dizer.

X se apaixonou por mim, e antes de hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro do campo magnético daquela pessoa era bom. Eu esperava encontrar em X um companheiro, mas encontrei o meu principal coveiro.

Com o tempo descobri as verdadeiras ‘qualidades’ de X. Ele era um ditador, um egoísta, um manipulador, um robô cruel e frio. X costumava me dizer, ‘carinhosamente’: “O curso que você faz é uma m****! Você não tem futuro longe de mim!”; “Você não vai chegar a lugar algum com essa sua escrita medíocre”; “Já lavou a louça hoje? Você só serve para isso!” “Seus amigos são um lixo! Pobres coitados como você.” “Sua idiota!” "Te amo" "Me perdoa".

X controlava a minha maneira de andar, de falar, de sentir e de pensar. Eu vivia um pesadelo. Estava presa dentro de uma redoma de vidro que se fechava mais e mais, a cada dia. Eu era refém do medo. Refém do pavor. Refém da baixa autoestima. Refém daquele jogo psicológico.

Ninguém acreditava em mim quando eu falava sobre X e sobre não conseguir sair daquela situação. 
A culpa de tudo aquilo era minha. Vocês sabem, a mulher é sempre a culpada, a mentirosa. Já o homem é o possuidor de toda a sabedoria e da verdade. Né assim, sociedade?

Por trás do que acontecia, eu redescobria medos profundos que me tiravam o sono, a fome e a vontade de viver. Esses medos me proporcionavam crises de pânico indescritíveis que me esfacelava  a alma como um cadáver em decomposição. X fazia-me sentir esquizofrênica.

Certo dia, tateando traços difusos, li em um site uma matéria intitulada “Violência psicológica”. Naquele dia, finalmente, descobri o que estava acontecendo comigo. Procurei ajuda psicológica. E fui, aos poucos, tirando X da minha vida - apesar de sua insistência em se fazer presente nela, sem um pingo de remorso.

Anos depois, conheci Y. Com ele nunca tive nada. Apenas respondi, por educação, uma mensagem no Facebook deixada por ele, na qual Y elogiava a minha vida artística. Mas Y começou a criar, em sua mente, uma história de amor entre nós dois. O que o levou a me perseguir, me ameaçar e perturbar a minha paz. Contra Y alertei toda a minha família, meus amigos e os familiares de Y. E, por medo, me isolei, por um tempo, na casa de uma amiga, em outra cidade.

Z, igual a Y e a W, não soube receber um não. Teve a masculinidade ferida e reagiu cruelmente a isso. Falou coisas terríveis para mim. E tentou fazer-me acreditar que eu era uma pessoa horrível.

X, Z, Y, W, K ... O que todos eles têm em comum? Eles causaram em mim uma grande ferida. São os responsáveis pelo pavor que carrego no peito e na alma. Esse medo é o principal vilão na tentativa de iniciar uma relação amorosa com um parceiro. Mas se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, é porque sei que existem as exceções.

O que aprendi com todos eles? Que é preciso falar. Gritar! Nunca calar. Ninguém te escuta? Grita mais alto que no meio da multidão robótica uma alma branda te ouve e te dá à mão. Eles têm que te ouvir, antes de você tomar vários comprimidos para dormir, cortar os pulsos, ou pular do vigésimo andar. Depois vão todos ao seu enterro e ficarão inventado historinhas sujas a seu respeito.


P.S Mulheres, contêm as suas histórias. Não se calem! Como disse uma amiga minha: Nada justifica atos machistas, idiotas e frustrantes. O universo não merece tanta mediocridade. Meu grito é de libertação! 

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