14 outubro, 2016

O que a vida me roubou.


Imagem: Johnny Gloom






A aliança dele reluz, em cima da mesa da cozinha, vazia e solitária. A minha permanece no dedo anelar direito. Encaro, alternando o olhar, aqueles dois círculos dourados. Penso em nós dois. Eu e ele. Ele e eu. O coração dói. A alma despedaça. O corpo deseja morrer. É sempre assim quando me lembro dele – o meu ser chora um mar de dor. De piedade. De angústia. De saudade. O choro de uma busca desesperada e de uma falta lastimável.

Ele se foi. Há quatro anos. Entrou dentro daquele carro e nunca mais voltou. Desde então, os crepúsculos não são mais lindos, mas os observo. Ganhei um gato chamado Sol (ele é Canceriano), dono do meu carinho. Fiz análise. Ioga à beira-mar. Enfim, busquei permanecer viva, mas, ás vezes, a falta que sinto dele me rouba o ar.  

Ontem à tarde eu enlouqueci – como se estivesse perfeitamente segura de que ele estava pela casa. Como dizer então? Aos meus amigos que eu o senti ali, ao meu lado na cama, como nos velhos tempos. Seja como for, depois de algum tempo, meus amigos me disseram que já estava na hora de eu conhecer novas pessoas e me levaram para um barzinho no fim da rua da desilusão. Esses lugares sempre me causam um pavor, pois são como um hospício a céu aberto. A verdade é que eu não sentia ninguém em volta. Acontece que quando se conhecer o amor verdadeiro tudo o que é oferecido depois disso é o nada do nada. Queria dizer isso aos meus amigos, mas eles sentiriam ainda mais pena de mim. Pena da coitada que perdeu o noivo, em um terrível acidente de carro, na semana do casamento. Uma fatalidade – dirão os desconhecidos. A morte – direi eu.

Ali, naquele bar, quis conversar com alguém. Falar sobre os planos do casamento: o pequeno apartamento que compramos no bairro dos girassóis. Ah, a flor do sol... Sonhávamos em casar em meio a um campo delas. Sonhávamos em ter filhos, no mínimo três ou quatro. Fantasiávamos tantas coisas belas, infinitas como o nosso amor.

Deus, Deus me dê uma razão para continuar vivendo...

O gosto do adeus é amargo.

Volto para casa cansada. Aproximo-me do espelho, procurei. Encontrei um rosto desconhecido. O mundo fora de mim, todos os dias, todas as horas. Para sempre. O vento intruso bagunçou meus cabelos. Chamava-me. Quando percebi já estava no parapeito do apartamento. Os dedos dos pés tocavam um chão gélido. As mãos abriam-se ao vazio. Lágrimas? Sem. Estou chegando, meu amor - eu disse. E voei.

Não dei importância ao chão, pois ele não me causou dor. A realidade sempre foi mais cruel. No mesmo momento em que o meu corpo tocou o solo, acordei. Ofegante. Suada. Viva!

Mais um dia de luta, pensei. Então vieram os raios de sol, enquanto eu afagava o meu Sol. Segui para a janela com o gato em meus braços. Com muito cuidado apoiei-me no parapeito. Então vieram as pétalas... uma por uma foram abrindo-se. O milagre da vida estava acontecendo, agora! Ali, diante dos meus olhos. Um girassol. Duas vidas. As duas alianças em meus dedos. Ele afundado na cama. Quase como o jeito antigo. Meu estômago abriga borboletas. Ele sorriu. Depois estendeu a mão direita. Segurei a sua mão e soube que a partir daquele momento, com muito cuidado, semearia mais um botão de flor. 

Um comentário:

  1. Tocante! Muito profundo! E essa música... Se encaixa perfeitamente!

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