19 outubro, 2016

Céu - Agradecimentos da Dissertação de Mestrado.


Imagem: Henn Kim



Nunca a desistência. Revisão de erros cometidos. Acertos comemorados. Chorei pela guerra diária da sobrevivência, mas também sorri pelo mesmo motivo. Dá-me a tua mão, você já tem a minha!
Amanheceu, e mais uma vez eu não consigo levantar da cama. Sinto-me um lixo. Uma carcaça humana sem serventia. Estou sozinha no apartamento branco. Nessa casa que não é minha. Nessa cidade que não é minha. Vivendo uma vida que no início eu também julguei não ser minha.
Nunca imaginei que para chegar ao céu teríamos que percorrer um deserto lamacento infestado de mãos que brotam do chão e tentam agarrar nossos calcanhares para depois nos puxar para o fundo do poço. Ontem eles quase conseguiram me puxar para o poço, por isso, hoje, acordei sentindo dor. Uma dor que foge a explicações filosóficas e científicas. Uma dor que, como uma droga, alucina-me as imagens mais trepidas e surreais do meu subconsciente.
A dor não me deixa respirar, não me deixa ESCREVER. A dor só quer que eu chore e chore e chore, como se o choro fosse a única saída para o fim dela. Então, eu choro. Choro como se fosse a única coisa que eu soubesse fazer na vida. Choro triste, perdida, solitária, doente, nervosa, dolorida, sôfrega. Eu choro o choro de um sonho, das idas e das vindas, da travessia, de cenas imaginárias, irreais. Eu choro o pior choro do mundo: choro o desacreditar em mim mesma. O desmerecimento de mim quase me fez perder o sonho - e a dor de perder um sonho é igual à dor da morte do corpo. Veja só, quando você perde o seu sonho e se perde de você mesmo, você e seu sonho continuam vivos. Há, então, como disse Caio Fernando Abreu, “uma morte anormal”. O desacreditar em mim mesma se torna tão irremediável e dolorido quanto o nunca mais ter quem morreu.
A dor me fez ficar na cama durante horas. Fez-me vomitar tudo: a comida, a água, a minha pele, o meu cérebro, a minha vitalidade e a alegria. Vomitei o eu, a esperança, todo o resto do que sobrou e do que não sobrou.

A dor me fez tomar o calmante em partes e me fez dormir por horas a fio. A dor me fez cortar o cabelo, parar de sorrir e vestir preto.  Diante de todo esse tormento, o pior de tudo era não saber de onde vinha exatamente essa dor, era não saber exatamente o que fazer com ela e o que fazer comigo e com o sumiço de mim, por mágica.
Mas, houve um dia de sol intenso e eu, finalmente, levantei da cama. Nesse dia, elas estavam ao meu lado, o Girassol e a Margarida – Além do céu e do deserto existe um jardim com belas flores. Por muitas vezes, para evitar o cansaço que me sufocava, eu ia até o jardim. E quando, por segundos, ficava alegre, era porque me aproximava do canteiro das flores. E recomponho na memória essas flores amontoadas no canteiro de tijolos, com seus talos verdes e rígidos, suas longas pétalas amarelas e o miolo marrom, granuloso, soltando cheiros delicados e doces. Acabamos aos poucos fazendo amizade e, então, começamos a dividir experiências de guerra, carinho e amor.
Hoje, elas atravessaram o deserto para me colocar cara a cara comigo mesma e para me ajudar a seguir em frente.
Olhei demoradamente o meu reflexo no espelho, delicadamente posto por elas à minha frente.
- O que você vê? – perguntaram-me elas.
- Uma pessoa que tem a força de dentro maior – respondi. E lembrei que a minha mãe costumava dizer que crescer dói e que a dor é necessária, pois é ela que antecede a vitória.
Nesse dia voltei para o céu e, agora que possuía asas, atravessei o deserto voando. Nunca mais teria contado com as mãos do deserto, de maneira alguma elas me puxariam novamente para o fundo do poço. NUNCA MAIS!
 Quando retornei ao céu, ela já me esperava, parada com as mãos cruzadas em frente ao corpo, os cabelos loiros caindo sobre os ombros. Minha Guia. Ela exalava um ar de mistério e uma sabedoria que seria transmitida para mim e para todos os seus outros aprendizes que estavam à espera de um novo ensinamento.
   Comecei a segui-la pelo corredor branco. Durante o percurso, observei as pessoas que ali se encontravam: eram pessoas tão jovens, tão demasiadamente deslumbradas e, ao mesmo tempo, assustadas pela complexidade do céu que surgia em nossa frente. Mas, o segredo daquele lugar, acontecia quando nos encontrávamos o suficiente concentrados para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. Quando aprendemos a voar, cruzar o céu se tornou um pouco mais fácil. 
Acredito que eu e eles um dia seremos grandes. Na verdade, já somos grandes! Mas, faltam-nos algumas complexidades que aperfeiçoaremos com o tempo.

Agora, estou caminhando por esse corredor. A minha estadia aqui está acabando. A lição foi ensinada e aprendida. É hora de partir e ensinar aos tantos outros como voar ferozmente, cruzar o deserto, passar pelo jardim, alcançar a porta do céu e sair. Ensinar como cultivar flores e não sentir dor. Preciso ensiná-los a plantar e a colher, assim como me ensinaram.
Paro no meio do corredor e olho para além daquelas montanhas verdes, daqueles campos amarelos, para além das nuvens. O coração aperta – lembro-me dos meus pais, meus irmãos, meus amigos. Eu os sinto perto de mim, sempre. Eles sempre estiveram além dessas nuvens, enviando-me amor e carinho, e o mais importante: sempre acreditaram em mim! O meu ser agradece por isso.
Retomo os passos para além daquela porta que estou prestes a atravessar. Uma nova história será escrita, vivida. Respiro fundo. O medo e a dor nunca mais tomará conta de mim. Entrego-me a saudade, a fragilidade de partir e a felicidade de ter vivido naquele céu. Por fim, permaneço caminhando. Firme!

Sidileide Batalha
24 de abril de 2016





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