29 outubro, 2016

Pela metade


                                                        Imagem: Brian M. Viveros

Ela voltou para casa sozinha
Com a maquiagem borrada. 
Com a faca ainda enfiada no peito. 

Entrou sem nada.
Nada que esquenta o pé e que protege.

Passaram-se dias. Meses. Anos.
Então chegou o menos.
Menos dor. Menos amor. Menos rancor.

Está acabando.
Contudo, sente-se solitária demais. Terrível demais.
Viveu quase toda a vida assim, sendo sozinha.
Dando-se carinho. Sendo blasé.

Tudo bem. Depois ela melhora.
Se apaixona pelo mocinho do filme.
Lê romance e vai passando. Sempre passa. Sempre acaba.

O amor morreu assim, pela metade.

O corvo


 O corvo








27 outubro, 2016

Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.



Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.

Preciso falar sobre a violência psicológica contra a mulher.

Chamava-se X. As pessoas esperavam dele coisas como beijar bebês, amar animais, versos poéticos, o prêmio Nobel da paz. Espantavam-se com os olhos claros profundos, ombros largos, a voz meio áspera, o rosto duro e frio. O conheci através das poesias. Que romântico! - dirão os desavisados de plantão. Que redoma de vidro! - direi eu. E você sabe a que me refiro.

X, inicialmente, demonstrou ser um homem amoroso. Bom filho. Bom irmão. Bom cidadão. É um santo! – dizia a família. É um exemplo de humanidade! – diziam os vizinhos e os conhecidos. X era o príncipe que fazia de tudo para me ver feliz. Ele era perfeito. Mas não existem pessoas perfeitas. Mais uma vez, você sabe o que eu quero dizer.

X se apaixonou por mim, e antes de hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro do campo magnético daquela pessoa era bom. Eu esperava encontrar em X um companheiro, mas encontrei o meu principal coveiro.

Com o tempo descobri as verdadeiras ‘qualidades’ de X. Ele era um ditador, um egoísta, um manipulador, um robô cruel e frio. X costumava me dizer, ‘carinhosamente’: “O curso que você faz é uma m****! Você não tem futuro longe de mim!”; “Você não vai chegar a lugar algum com essa sua escrita medíocre”; “Já lavou a louça hoje? Você só serve para isso!” “Seus amigos são um lixo! Pobres coitados como você.” “Sua idiota!” "Te amo" "Me perdoa".

X controlava a minha maneira de andar, de falar, de sentir e de pensar. Eu vivia um pesadelo. Estava presa dentro de uma redoma de vidro que se fechava mais e mais, a cada dia. Eu era refém do medo. Refém do pavor. Refém da baixa autoestima. Refém daquele jogo psicológico.

Ninguém acreditava em mim quando eu falava sobre X e sobre não conseguir sair daquela situação. 
A culpa de tudo aquilo era minha. Vocês sabem, a mulher é sempre a culpada, a mentirosa. Já o homem é o possuidor de toda a sabedoria e da verdade. Né assim, sociedade?

Por trás do que acontecia, eu redescobria medos profundos que me tiravam o sono, a fome e a vontade de viver. Esses medos me proporcionavam crises de pânico indescritíveis que me esfacelava  a alma como um cadáver em decomposição. X fazia-me sentir esquizofrênica.

Certo dia, tateando traços difusos, li em um site uma matéria intitulada “Violência psicológica”. Naquele dia, finalmente, descobri o que estava acontecendo comigo. Procurei ajuda psicológica. E fui, aos poucos, tirando X da minha vida - apesar de sua insistência em se fazer presente nela, sem um pingo de remorso.

Anos depois, conheci Y. Com ele nunca tive nada. Apenas respondi, por educação, uma mensagem no Facebook deixada por ele, na qual Y elogiava a minha vida artística. Mas Y começou a criar, em sua mente, uma história de amor entre nós dois. O que o levou a me perseguir, me ameaçar e perturbar a minha paz. Contra Y alertei toda a minha família, meus amigos e os familiares de Y. E, por medo, me isolei, por um tempo, na casa de uma amiga, em outra cidade.

Z, igual a Y e a W, não soube receber um não. Teve a masculinidade ferida e reagiu cruelmente a isso. Falou coisas terríveis para mim. E tentou fazer-me acreditar que eu era uma pessoa horrível.

X, Z, Y, W, K ... O que todos eles têm em comum? Eles causaram em mim uma grande ferida. São os responsáveis pelo pavor que carrego no peito e na alma. Esse medo é o principal vilão na tentativa de iniciar uma relação amorosa com um parceiro. Mas se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, é porque sei que existem as exceções.

O que aprendi com todos eles? Que é preciso falar. Gritar! Nunca calar. Ninguém te escuta? Grita mais alto que no meio da multidão robótica uma alma branda te ouve e te dá à mão. Eles têm que te ouvir, antes de você tomar vários comprimidos para dormir, cortar os pulsos, ou pular do vigésimo andar. Depois vão todos ao seu enterro e ficarão inventado historinhas sujas a seu respeito.


P.S Mulheres, contêm as suas histórias. Não se calem! Como disse uma amiga minha: Nada justifica atos machistas, idiotas e frustrantes. O universo não merece tanta mediocridade. Meu grito é de libertação! 

19 outubro, 2016

Céu - Agradecimentos da Dissertação de Mestrado.


Imagem: Henn Kim



Nunca a desistência. Revisão de erros cometidos. Acertos comemorados. Chorei pela guerra diária da sobrevivência, mas também sorri pelo mesmo motivo. Dá-me a tua mão, você já tem a minha!
Amanheceu, e mais uma vez eu não consigo levantar da cama. Sinto-me um lixo. Uma carcaça humana sem serventia. Estou sozinha no apartamento branco. Nessa casa que não é minha. Nessa cidade que não é minha. Vivendo uma vida que no início eu também julguei não ser minha.
Nunca imaginei que para chegar ao céu teríamos que percorrer um deserto lamacento infestado de mãos que brotam do chão e tentam agarrar nossos calcanhares para depois nos puxar para o fundo do poço. Ontem eles quase conseguiram me puxar para o poço, por isso, hoje, acordei sentindo dor. Uma dor que foge a explicações filosóficas e científicas. Uma dor que, como uma droga, alucina-me as imagens mais trepidas e surreais do meu subconsciente.
A dor não me deixa respirar, não me deixa ESCREVER. A dor só quer que eu chore e chore e chore, como se o choro fosse a única saída para o fim dela. Então, eu choro. Choro como se fosse a única coisa que eu soubesse fazer na vida. Choro triste, perdida, solitária, doente, nervosa, dolorida, sôfrega. Eu choro o choro de um sonho, das idas e das vindas, da travessia, de cenas imaginárias, irreais. Eu choro o pior choro do mundo: choro o desacreditar em mim mesma. O desmerecimento de mim quase me fez perder o sonho - e a dor de perder um sonho é igual à dor da morte do corpo. Veja só, quando você perde o seu sonho e se perde de você mesmo, você e seu sonho continuam vivos. Há, então, como disse Caio Fernando Abreu, “uma morte anormal”. O desacreditar em mim mesma se torna tão irremediável e dolorido quanto o nunca mais ter quem morreu.
A dor me fez ficar na cama durante horas. Fez-me vomitar tudo: a comida, a água, a minha pele, o meu cérebro, a minha vitalidade e a alegria. Vomitei o eu, a esperança, todo o resto do que sobrou e do que não sobrou.

A dor me fez tomar o calmante em partes e me fez dormir por horas a fio. A dor me fez cortar o cabelo, parar de sorrir e vestir preto.  Diante de todo esse tormento, o pior de tudo era não saber de onde vinha exatamente essa dor, era não saber exatamente o que fazer com ela e o que fazer comigo e com o sumiço de mim, por mágica.
Mas, houve um dia de sol intenso e eu, finalmente, levantei da cama. Nesse dia, elas estavam ao meu lado, o Girassol e a Margarida – Além do céu e do deserto existe um jardim com belas flores. Por muitas vezes, para evitar o cansaço que me sufocava, eu ia até o jardim. E quando, por segundos, ficava alegre, era porque me aproximava do canteiro das flores. E recomponho na memória essas flores amontoadas no canteiro de tijolos, com seus talos verdes e rígidos, suas longas pétalas amarelas e o miolo marrom, granuloso, soltando cheiros delicados e doces. Acabamos aos poucos fazendo amizade e, então, começamos a dividir experiências de guerra, carinho e amor.
Hoje, elas atravessaram o deserto para me colocar cara a cara comigo mesma e para me ajudar a seguir em frente.
Olhei demoradamente o meu reflexo no espelho, delicadamente posto por elas à minha frente.
- O que você vê? – perguntaram-me elas.
- Uma pessoa que tem a força de dentro maior – respondi. E lembrei que a minha mãe costumava dizer que crescer dói e que a dor é necessária, pois é ela que antecede a vitória.
Nesse dia voltei para o céu e, agora que possuía asas, atravessei o deserto voando. Nunca mais teria contado com as mãos do deserto, de maneira alguma elas me puxariam novamente para o fundo do poço. NUNCA MAIS!
 Quando retornei ao céu, ela já me esperava, parada com as mãos cruzadas em frente ao corpo, os cabelos loiros caindo sobre os ombros. Minha Guia. Ela exalava um ar de mistério e uma sabedoria que seria transmitida para mim e para todos os seus outros aprendizes que estavam à espera de um novo ensinamento.
   Comecei a segui-la pelo corredor branco. Durante o percurso, observei as pessoas que ali se encontravam: eram pessoas tão jovens, tão demasiadamente deslumbradas e, ao mesmo tempo, assustadas pela complexidade do céu que surgia em nossa frente. Mas, o segredo daquele lugar, acontecia quando nos encontrávamos o suficiente concentrados para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. Quando aprendemos a voar, cruzar o céu se tornou um pouco mais fácil. 
Acredito que eu e eles um dia seremos grandes. Na verdade, já somos grandes! Mas, faltam-nos algumas complexidades que aperfeiçoaremos com o tempo.

Agora, estou caminhando por esse corredor. A minha estadia aqui está acabando. A lição foi ensinada e aprendida. É hora de partir e ensinar aos tantos outros como voar ferozmente, cruzar o deserto, passar pelo jardim, alcançar a porta do céu e sair. Ensinar como cultivar flores e não sentir dor. Preciso ensiná-los a plantar e a colher, assim como me ensinaram.
Paro no meio do corredor e olho para além daquelas montanhas verdes, daqueles campos amarelos, para além das nuvens. O coração aperta – lembro-me dos meus pais, meus irmãos, meus amigos. Eu os sinto perto de mim, sempre. Eles sempre estiveram além dessas nuvens, enviando-me amor e carinho, e o mais importante: sempre acreditaram em mim! O meu ser agradece por isso.
Retomo os passos para além daquela porta que estou prestes a atravessar. Uma nova história será escrita, vivida. Respiro fundo. O medo e a dor nunca mais tomará conta de mim. Entrego-me a saudade, a fragilidade de partir e a felicidade de ter vivido naquele céu. Por fim, permaneço caminhando. Firme!

Sidileide Batalha
24 de abril de 2016





14 outubro, 2016

O que a vida me roubou.


Imagem: Johnny Gloom






A aliança dele reluz, em cima da mesa da cozinha, vazia e solitária. A minha permanece no dedo anelar direito. Encaro, alternando o olhar, aqueles dois círculos dourados. Penso em nós dois. Eu e ele. Ele e eu. O coração dói. A alma despedaça. O corpo deseja morrer. É sempre assim quando me lembro dele – o meu ser chora um mar de dor. De piedade. De angústia. De saudade. O choro de uma busca desesperada e de uma falta lastimável.

Ele se foi. Há quatro anos. Entrou dentro daquele carro e nunca mais voltou. Desde então, os crepúsculos não são mais lindos, mas os observo. Ganhei um gato chamado Sol (ele é Canceriano), dono do meu carinho. Fiz análise. Ioga à beira-mar. Enfim, busquei permanecer viva, mas, ás vezes, a falta que sinto dele me rouba o ar.  

Ontem à tarde eu enlouqueci – como se estivesse perfeitamente segura de que ele estava pela casa. Como dizer então? Aos meus amigos que eu o senti ali, ao meu lado na cama, como nos velhos tempos. Seja como for, depois de algum tempo, meus amigos me disseram que já estava na hora de eu conhecer novas pessoas e me levaram para um barzinho no fim da rua da desilusão. Esses lugares sempre me causam um pavor, pois são como um hospício a céu aberto. A verdade é que eu não sentia ninguém em volta. Acontece que quando se conhecer o amor verdadeiro tudo o que é oferecido depois disso é o nada do nada. Queria dizer isso aos meus amigos, mas eles sentiriam ainda mais pena de mim. Pena da coitada que perdeu o noivo, em um terrível acidente de carro, na semana do casamento. Uma fatalidade – dirão os desconhecidos. A morte – direi eu.

Ali, naquele bar, quis conversar com alguém. Falar sobre os planos do casamento: o pequeno apartamento que compramos no bairro dos girassóis. Ah, a flor do sol... Sonhávamos em casar em meio a um campo delas. Sonhávamos em ter filhos, no mínimo três ou quatro. Fantasiávamos tantas coisas belas, infinitas como o nosso amor.

Deus, Deus me dê uma razão para continuar vivendo...

O gosto do adeus é amargo.

Volto para casa cansada. Aproximo-me do espelho, procurei. Encontrei um rosto desconhecido. O mundo fora de mim, todos os dias, todas as horas. Para sempre. O vento intruso bagunçou meus cabelos. Chamava-me. Quando percebi já estava no parapeito do apartamento. Os dedos dos pés tocavam um chão gélido. As mãos abriam-se ao vazio. Lágrimas? Sem. Estou chegando, meu amor - eu disse. E voei.

Não dei importância ao chão, pois ele não me causou dor. A realidade sempre foi mais cruel. No mesmo momento em que o meu corpo tocou o solo, acordei. Ofegante. Suada. Viva!

Mais um dia de luta, pensei. Então vieram os raios de sol, enquanto eu afagava o meu Sol. Segui para a janela com o gato em meus braços. Com muito cuidado apoiei-me no parapeito. Então vieram as pétalas... uma por uma foram abrindo-se. O milagre da vida estava acontecendo, agora! Ali, diante dos meus olhos. Um girassol. Duas vidas. As duas alianças em meus dedos. Ele afundado na cama. Quase como o jeito antigo. Meu estômago abriga borboletas. Ele sorriu. Depois estendeu a mão direita. Segurei a sua mão e soube que a partir daquele momento, com muito cuidado, semearia mais um botão de flor.