26 setembro, 2016

Paixão Platônica.



Imagem: Andrew Salgado

Contemplei a beleza dos seus olhos
Olhos de poeta, sempre mudos
Me oferecem instantes
Que nunca tivemos.

Se de perto eu os olhasse
Sem ser por um retrato
Quem sabe conheceria
O verdadeiro amor
Ou sucumbiria em pranto e dor.

07 setembro, 2016

A Carta







A primeira e única carta que você escreveu sobre o nosso amor, nesse momento, está em minhas mãos. Encontrei-a, após sete longos anos de separação, em meio a antigos livros usados e guardados cuidadosamente no fundo do meu armário. De súbito, quando toquei o envelope e li seu nome estampado no papel branco meu coração parou e minha alma retrocedeu o tempo. Por alguns milésimos de segundos me vi dentro daquele apartamento branco encarando seus olhos frios, após uma discussão.

Sempre achei que ficaríamos juntos para sempre. Eu sei, o pensamento é meio infantil, bobo, mas é a verdade. Eu achava que o amor era capaz de suportar tudo. Seu ciúme. Sua paranoia. Sua frieza. Seus jogos mentais. Sua crueldade. A minha inocência. A minha imaturidade. A minha fragilidade de ser uma alma que não suporta o raso demais. Mas você não era raso, ao contrário. Você era o amor que pedi a ele ajoelhada ao pé da cama, após completar os meus dezenove anos.

Lembro-me de estar cansada de ser “sozinha” e você surgiu como uma esperança de vida. Finalmente o amor havia chegada e eu seria, por fim, feliz...

Nada feito! O "amor" só piorou a minha angústia humana. Eu vivia dentro de uma bolha aristocrata e sagrada. Eu não tinha coragem de estourar essa bolha, pois o medo da morte era maior do que o da liberdade.

Meu coração idiota amava cada pedacinho seu, sua risada atônita, seus olhos verdes-esperança, seu toque cuidadoso, seu jeito de andar meio torto, seu cheiro “ogrodoce”, seu medo de me perder que se estampava nos seus abraços, atos e expressões faciais.

Eu amava o modo como você me amava. Mas eu odiava o modo (que) eu deveria te amar de volta. Perdendo-me de mim mesma.

Naquela manhã de novembro você foi embora sem dizer nada. Apenas abriu a porta de nossa vida e se foi...

Naquele dia, naquela semana, naquele mês, naquele ano eu chorei um mar de desamor. Chorei a dor de perder uma parte do meu corpo e não saber o que fazer com o que restou.

A casa. O estudo. O trabalho. O tratamento psicológico. Os amores que vieram depois. Nada. Nada me dava vontade de ser viva.

Eu vivia uma obsessão, plantada por você, que me sucumbia a cada dia.  Toda a sua agressão psicológica me causou o medo de me  apaixonar novamente. Tornei-me fria e cruelmente observadora. Eu era a sua nova versão: coração de gelo.

Mas houve uma manhã na qual acordei e a dor havia ido embora. Nesse dia, eu vi o céu tão azul e percebi que o verdadeiro amor estava dentro de mim e se materializava no vento, nas nuvens, na rosa que acabará de brotar. Nesse momento, finalmente, entendi suas palavras: “O amor, este objeto facilmente confundido com a graça, é algo puro e que não vem de nós”.

Entendi que o amor não aprisiona, mas te dá asas. O amor te oferece à liberdade de ser quem tu és, sem máscaras, sem personagens. O amor aquece e te dá à coragem de enfrentar o mundo e suas mazelas. O amor é uma dádiva de Deus que não nos deixa experimentar a solidão.  


O amor conduziu o nosso reencontro, o nosso perdão e as nossas vidas construídas separadamente. Você seguiu amando outra pessoa. E eu sigo deixando um pouquinho de  amor por onde passo. 

05 setembro, 2016

Vidas



Imagem: Ashley Mackenzie


Em outra vida
Eu te amei como jamais amei ninguém.
Em outra vida
Você foi o meu sol, girassol.
Em outra vida
O nosso abraço nunca teve um fim.
Nesta vida
Amor nosso, desencontros.
O senso da ausência fere o sonho
O coração dispara quando em foto
Os meus olhos encaram os teus.
Nesta vida
Resta-me a esperança 
dos nossos versos se cruzarem
Em uma só rima.