17 agosto, 2016

O último voo...


Imagem: Mark Heine



A ambiguidade da dor me anestesia, nesse momento, sou apenas um cadáver recém-morto a observar um céu vazio. Minha memória permanece rastejando sobre as lembranças cruéis de nós dois - as imagens fazem o meu corpo doer inteiro e se desdobrar como se eu fosse um papel recém-amassado e, logo depois, descartado em uma lixeira qualquer.
Hoje, você finalmente foi embora – não disse nada apenas me olhou turvo, penoso e assustado. Ah, aquele olhar... Inesquecível! Eu já o vi diversas outras vezes e todos causaram uma dor parecida com a de agora.
“Por quê?” minha fala só sabe fazer essa perguntar, meu pensamento só sabe formular essa palavra.
Por que você me escolheu? Logo eu que te adverti, tantas vezes, que não suportaria outra decepção, outra decapitação da alma. Logo eu que te alertei para não se aproximar de mim caso não pudesse aguentar a minha profundidade. Implorei para não tentar ficar se o seu plano era o de partir. Avisei que o meu coração está cansado dos amores nômades, mas você afirmou que não gostava da transitoriedade e ficou... Derrubou o meu muro de gelo e fincou-se na abertura do portão de minha alma.  E eu, cansada de estar “sozinha” ajudei-o a se acomodar. Em troca, você me jogou em um poço profundo, escuro e musguento... Agora, eu tento escalar o fundo do poço e encontrar a superfície, mas minhas mãos sangram enquanto o meu coração e os meus olhos só sabem chorar, chorar e chorar, nesse momento, *você deságua em mim, e eu, oceano.
Não tenho forças para nada! Sou uma carcaça humana sem serventia, a dor estar acabando comigo, você estar acabando comigo.
Lembra-se quando eu sentava aqui, nesses batentes claros, todas as tardes para observar o último voo dos pássaros? Conhecemo-nos entre os voos rasantes das aves e os nossos passos apresados. Eu amava sentar nesses batentes e olhar os pássaros cruzarem o céu rosado. Hoje, para mim, esse ritual é um tormento, pois seu rosto sempre virá a minha mente antes mesmo do sol se pôr.
Meu Deus! *Estou novamente sentindo a profunda falta de alguma coisa que não sei o que é. Só sei que dói, dói. Sem remédio.
Ajuda-me senhor! Por favor, ajuda-me a não me tornar fria novamente. Ajuda-me a não perder a esperança amorosa. Ajuda-me a perder a memória...


*Citações de Djavan e Caio Fernando Abreu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário