19 maio, 2016

O visitante





                                             Dedico este conto  ao meu guia espiritual, Ângelo. 
                                                                                                   12/07/2013

A primeira vez que o vi foi há trinta e quatro anos, eu segurava contra o peito minha boneca de pano, enquanto meu tio Brian segurava-me nos braços. Meus olhos ardiam por causa dos raios solares e das lágrimas derramadas durante todo o dia. Naquela manhã sombria, o vi entre os crucifixos e as estatuetas de anjos sem asas. Ele era excessivamente pálido e magro, uma magreza delicada, mas ao mesmo tempo imperial. Estava ali parado como se esperasse alguém. Se não o tivesse visto se movimentar poderia tê-lo confundido com uma das esculturas que jaziam naquele lugar.  Naquela manhã, ele foi o meu ponto de apoio, o meu ponto fixo de observação, poderia até dizer de distração. Enquanto desciam os caixões de madeira marrom onde os meus pais se encontravam, eu o observava. Foi a partir desse dia que eu soube que jamais iria esquecê-lo.
Após alguns anos o vi novamente, foi durante uma tempestade em meio a uma estrada deserta. Naquela noite, quando ele pegou-me nos braços, tentei perguntar o seu nome, mas eu não possuía voz, assim como não possuía forças para andar. Quando senti sua frieza ao redor do meu corpo estremeci de frio, além disso, minha boca estava com um gosto amargo como se eu tivesse engolido algo ácido. As gotas da chuva caiam sobre o meu rosto e doía. Doía o corpo e a alma. Quando ele colocou-me no chão ouvi o som de uma explosão, o barulho foi tão forte que os meus ouvidos doeram ao receberem as vibrações sonoras. Nesse momento, olhei para o lado e vi o meu carro em chamas. Tentei gritar, mas o som da minha voz não saia, então, o chamei em pensamento e pedi que ajudasse o meu marido. Eu estava desesperada, agora me lembrava de tudo, da chuva, do cervo no meio da estrada, do Harry tentando retomar a direção. As imagens giravam na minha mente como uma roda gigante desgovernada. Foi quando os vi de relance, os dois seguindo lado a lado na estrada. Para onde eles estavam indo? Por que eu não poderia ir com eles?
A terceira vez que o vi foi ontem, eu estava deitada na cama e senti cheiro de chuva, logo soube que ele estava ali, em algum lugar em meio aquela casa vazia. Há tantos anos que não o via, muitas noites eu ficava tensa na cama esperando ele aparecer enquanto tentava ouvir ruídos que entregassem sua presença ali. Eu o amava e esperava por ele todos os dias, contudo, raramente ele aparecia, mas agora eu o sentia ali, pálido, frio e sem movimentos. Sua lealdade me comove, durante todos esses anos ele me protegeu e me guiou. Confesso que em alguns momentos eu não conseguia vê-lo, mas sabia que estava por perto.
Ás vezes a solidão dele me comovia, imaginava que ele nunca havia conversado com ninguém. Não entendo também o porquê dele nunca ter me falado seu nome. A verdade é que eu gostava de saber que ele não era de ninguém, meu amor era egoísta. Para ser mais clara, eu sentia ciúmes dele, da pele dele, da paz que dele emanava, da vida dele e principalmente dele. Muitas noites eu sentia seu beijo, talvez fosse um delírio, mas eu gostava de pensar que era real. Minha curiosidade tentava decifrar de onde ele vinha e o motivo dele ter escolhido estar nessa cidade tão pequena, pois com a sua beleza ele poderia ser um modelo famoso e viajar ao redor do mundo, mas ele escolheu esconder a beleza do seu rosto celeste atrás de grandes madeixas negras.
Também nunca havia ouvido a sua voz, mas conhecia o seu cheiro: cheiro de brisa do mar, de terra molhada, cheiro de chuva, de céu. A respeito de sua vida nunca soube nada, durante todos esses anos não o questionei e sei que se tivesse o questionado tenho a plena certeza de que ele nada me contaria.
Admito, agora, algo surpreendente, senti medo dele quando o vi pela primeira vez naquele cemitério, senti medo porque o desconhecido me assusta. Eu ousei encará-lo naquela manhã por pura curiosidade e porque estava com tanto medo da morte, da saudade e do buraco no meu peito cavado pelo assassinato dos meus pais. Depois do acidente e da morte do meu marido, eu acordava todas as noites assustada chegando a desejar ter morrido no lugar dele, mas quando sentia o cheiro de chuva o coração acalmava, eu levantava da cama e procurava por elas, poderiam estar em qualquer lugar da casa. A primeira vez que encontrei uma foi na sala em cima da velha poltrona do meu pai. Tão branca e leve. Toda noite as procurava, encontrava-as e guardava na caixinha em baixo da cama. Penas. Penas de um anjo de verdade.
Hoje acordei atordoada, senti cheiro de chuva e o vi  sentado na cadeira de estofado verde.
- Pensei que não viria hoje – murmurei com a voz cansada. Ele nada respondeu.
Estou grisalha e velha, tenho medo de não ser atraente aos seus olhos, mas ele nunca reclamou do meu envelhecimento. Uma vez me disseram que a salvação deixava as asas deles estendidas. Durante todos esses anos ele me ofereceu proteção e afeição.  Sei que fui abençoada com o seu amor. Eu não tenho medo do que vai acontecer daqui a alguns instantes, porque eu sei que um anjo contempla o meu caminho e sei que ele já esteve no lugar para onde vai me levar. Senti o cheiro de chuva mais forte, então algo gelado tocou os meus lábios. Um anjo veio me beijar, deduzi que estava morrendo.



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