24 fevereiro, 2016

O dia do Adeus






Eu estava na casa de uma amiga, em outra cidade, pois naquela noite aconteceria ali uma grande festa com uma famosa cantora da música popular brasileira. Lembro que naquela tarde eu e as garotas estávamos olhando nossas redes sociais enquanto ríamos de coisas banais. Foi quando o meu celular tocou, o atendi em gargalhadas. De toda as palavras ditas naquele instante, recordo-me apenas dessa frase:  “ – Ele morreu”.  Depois senti lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto e um braço me segurando firme pela cintura. Nesse momento, as meninas tentavam me consolar, me abraçavam e pediam para eu ficar calma e beber um pouco de água.  Mas eu não queria água, queria apenas voltar para casa. Estar com ele.
Afastei-me das meninas meio grogue e entrei no quarto. Me ajoelhei e comecei a rezar  com toda a minha fé e devoção, lembro que a última vez que tinha rezado assim foi há dois dias pedindo para que ele saísse logo daquele hospital. Depois de conversar com Deus, deitei no chão frio e me entreguei à dor do momento. Fiquei ali por horas.
 Quando a noite chegou levantei,  peguei lápis e papel, e entre lágrimas escrevi para ele um texto intitulado “Beijando o céu”. Depois de colocar meus sentimentos no papel lavei o rosto e comecei a me arrumar. Vesti calça e blusa preta, e enquanto passava batom nos lábios às lágrimas voltaram; agora negras por causa da maquiagem. Enxuguei o rosto e fui para à festa. Lá, no meio daquela multidão, me senti o ser humano mais sujo e cruel do mundo. Eu era uma assassina, simplesmente pelo fato do meu corpo estar naquele local. Mas, eu era tão jovem, entende? Foi a primeira vez que a morte apareceu na minha vida. Fiquei perdida na insatisfação da solidão entre quatro paredes e pensei em tatear devaneios em meio à multidão. Mas, isso não justifica meu ato de covardia. Foi a pior festa da minha vida, parecia um velório. Eu não via as pessoas, não ouvia a música. O mundo estava morto.
               Na manhã seguinte, enquanto eu subia a serra de volta para casa, ao olhar aquela paisagem sua lembrança voltou. Lembrei-me de nós dois no ônibus da universidade dividindo os fones de ouvido e olhando aquela mesma paisagem. Ele sempre sentava ao meu lado de cabeça baixa usando sempre o mesmo boné branco, me olhava com aqueles lindos olhos azuis tímidos enquanto beijava a minha mão. Escutávamos sempre O Astronauta de Mármore música da banda Nenhum de nós. Hoje eu não consigo escutar essa música, principalmente aquela parte que diz assim: “vou chorar sem medo, vou lembrar o tempo em que eu via o mundo azul...” Eu via o mundo azul através dos olhos dele.
 Nas noites distante de casa eu sempre o tirava da aula para sentar comigo nas cadeiras do corredor do campus. Foi lá onde falei baixinho em seu ouvido “- Você é tão bonito.” Seu rosto ficou vermelho de vergonha. Foi naquele corredor o local do nosso primeiro beijo, seus lábios eram macios como nuvens.
Certa noite, em que acabei tudo mesmo antes de começar, por causa do meu medo absurdo de ser amada, ele que estava segurando delicadamente o meu braço quebrou uma pulseira que eu usava. Nesse momento, falei com a voz alterada que ele não podia destruir assim o que era dos outros, mas o que eu estava destruindo naquela noite era mais importante do que uma simples pulseira substituível. Essa foi à última vez que o vi com vida. Hoje no lugar da pulseira uso uma fita preta, sinal de luto.
         Após uma hora de viagem cheguei em casa e ao entrar no meu quarto peguei um buquê de flores que eu havia ganhado em um concurso de beleza que almejei há anos. Fiz um arranjo entre lágrimas, depois peguei da mala o texto que havia escrito para ele, o amarrei com uma fita amarela junto às flores. Saí às pressas e fui até o cemitério. Entrei com as pernas bambas e o coração disparado, andei entre lápides e covas abertas até encontrar a dele. Ao ler o seu nome escrito naquela lapide percebi que não se tratava de um pesadelo. Era real, ele se foi...
          Deixei as flores juntamente com a carta e voltei para casa. Recordo-me de ter sonhado com ele naquela noite. Ele usava roupas na tonalidade azul, a parte direita do seu rosto estava rocha e cheia  de ferimentos. Eu o abracei, sua pele quente.

- Como você está? – perguntei sorrindo.

- Estou bem linda, não se preocupe – Ele me disse calmamente.

Acordei entre lágrimas, mas aliviada. Peguei a copia do texto “Beijando o céu” e me dispus a ler:


 É tudo tão branco aqui, tão calmo. Estou caminhando devagarinho, pisando em um chão que parece ser feito de pequenos pedaços de diamante. A brisa suave e doce toca a minha face, e as nuvens passam por mim enquanto percorro uma estrada. Sinto que ela está me levando a alguém, e sei que essa pessoa está me esperando há tempo. Estou indo em direção ao pai. Ele que almejei há tanto tempo na terra, ele me chamou, e eu resolvi aceitar o seu convite de beijar o céu. O sol aqui é enorme, mas ele não me queima, nada aqui me feri. Minhas roupas são tão finas e leves que em alguns momentos penso não estar usando nada. Às vezes passam por mim pessoas correndo, acho que elas estão indo para o mesmo lugar que eu. Confesso que no começo senti medo porque era tudo estranho e as pessoas temem o que é  desconhecido. O mais difícil foi vê todos que amo segurando lágrimas nas mãos. Doeu estar ao lado delas e não poder abraçá-las. E as palavras que sempre me fugiram, naquele momento eu estava cheio delas. Eu só queria dizer que é bom estar em casa.
                                          
  P.S as pessoas vão rápido, o tempo, a vida passa muito rápido e às vezes você não consegue dizer tchau. Dizer aquilo que você sempre quis falar e não disse por que não achou que fosse necessário. Morte, o que essa palavra significa? Você sabe? Porque eu não sei.  E agora me diz: Quem vai beijar a minha mão e me desejar boa noite? Quem vai me olhar com timidez e sorrir envergonhado enquanto linhas de expressão marcam os cantos dos olhos azuis? Quem vai me fazer companhia nas noites sem estudos? E agora eu nunca saberei o que você tanto queria me falar e eu  nunca deixei...”
    
 É estranho vê o pessoal de geografia reunido e não vê-lo. Eu gosto de pensar que você está em casa dormindo. Às vezes também gosto de ir visitá-lo, sento ao lado dele e pergunto se está tudo bem. Nesses últimos dias eu sonhei com ele novamente, mas era algo tão real que juguei não ser sonho. Espero que sua luz me ilumine também, pois, meus passos são incertos, mas meu coração guarda o mesmo amor de sempre. Sei que você nunca partiu, mas a saudade que sinto não sei dizer. E essa mesma saudade que dói lacerando-me em mil, é tão real quanto a sua presença em mim. Que Deus te abençoe e me dê coragem para saber que todos os dias serão os mesmos dias sem você.

Crônica escrita no ano de 2010. Para você, meu querido, com muito amor e carinho, para todo o sempre. 





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