31 janeiro, 2016

Arco-Íris






            Na minha frente uma longa estrada deserta me conduz de volta para casa. Estou todo suado. O rosto molhado, salgado. Uma ruga tensa sobre as sobrancelhas pede calma. Na boca um gosto amargo causado pelo cigarro irrita a minha garganta. Os olhos ardem. Irritação causada pelas milhares de lágrimas derramadas desde o momento em que recebi aquele telefonema, ontem.
            Estou sem dormir há mais de 20 horas. Meu corpo, meu cérebro e a minha alma permanecem exaustos. Preciso urgentemente de uma soneca, mas sei que nunca mais conseguirei dormir como antes, quando ele estava aqui comigo. Assim, como sei que por mais que eu percorra infinitas estradas jamais poderei voltar para casa, pois, ele era a minha única casa. O vazio, este vazio que sinto agora e rasga o meu peito permanecerá para sempre gravado em meu ser como uma tatuagem cruel mal desenhada pelo destino.
            Existe um momento, existe sempre um momento em que a vida vai se fechar e lhe dar algo para te fazer desejar ter mais tempo. Alguns têm doenças e são lentamente devorados por elas, outros perdem a sua sanidade – o que os fazem se atirar das janelas ou tomar grandes doses de comprimidos. Quanto a mim, a vida me deu o que eu jamais imaginei que teria: amor. E o amor, ele me fez querer ter mais tempo, mais tempo com você.
            Continuo dirigindo sem destino, sinto como se estivesse fora do movimento da vida. A vida rolando por aí como uma festa feliz que deve ser celebrada, enquanto eu apenas dirijo, pois, desde que vi o corpo dele desfigurado, manchado de sangue e sem vida eu desaprendi a linguagem do viver.
Recebo na cara rajadas de vento frio que vem da tempestade que se forma logo à frente, no fim da estrada um arco-íris, um belo arco infinitamente colorido feito por Deus, assim como eu, você, ele. Nós dois. O frio congela os meus hematomas enquanto o som da chuva é apenas um tum tum nos vidros do carro. Chuva... no dia em que ele morreu também estava chovendo, eu lembro porque senti a água fria caindo sobre o meu corpo dolorido.
Naquela noite chuvosa eu rezei como jamais havia rezado antes. Confesso que o medo de morrer me paralisou mais do que a dor corporal. Então, rezei e clamei por piedade, por mais uma oportunidade. Rezei e pedi que ele também tivesse uma segunda chance, enquanto o encarava ali, deitado, imóvel – um boneco de gesso belo e pálido.   
Eu sabia...
Sabia que não havia mais ninguém a nossa volta e nossa sobrevivência seria uma questão de milagre. Pra ser sincero, eu nunca acreditei em milagres, mas ele acreditava. Ele sempre teve a tendência de acreditar em coisas boas, enquanto eu era levado pelo pessimismo.
Ligo o som do carro, preciso me distrair enquanto as árvores passam, os carros ultrapassam e o arco-íris se firma.
  Cause when there was doubt
You'll remember I said
I didn't come here believing
I would ever be away from you
I didn't come here to find out
There's a weakness in my faith,

            A letra da música favorita dele invade os meus ouvidos e o meu ser, isso aumenta a minha dor. Mesmo assim, não consigo desligar o som. Nesse instante, lembro mais dele. Moreno de barba forte no rosto, tragando vagarosamente o cigarro enquanto coloca um pouco de limão no copo de bebida.       
            Ele sentado naquele balcão de um bar qualquer de esquina. Eu, entrando pela primeira vez naquele ambiente noturno no meio de uma cidade sem almas. Olhares. Reconhecimento. Não que já tenhamos nos vistos antes, mas, como um toque de mágica, nossas almas nos reconheceram. Identificação essa de outros tempos, outras vidas, outros ambientes. Quem sabe...
            Depois desse encontro muitas histórias pessoais e sonhos foram compartilhados, revelados.
            Fomos felizes...
            No entanto, eles não aceitavam a nossa felicidade. As piadas eram constantes. Os olhares de reprovação e os murmurinhos maldosos também. Mas nada disso nos colocava para baixo, tínhamos um ao outro, e nada mais importava.
            Mas ontem, quando saímos da nossa casa para observar o mar recebemos mais do que “inofensivas” piadas. Naquele anoitecer andamos de mãos dadas sentindo a areia ultrapassar nossos dedos do pé.  A maré estava mansa, nos sentamos: dois corpos de homem um ao lado do outro próximos do mar.
Beijos e planos para o futuro...
            Veados! Eles gritaram de repente, e vieram em nossa direção. “Foge – gritei”. O pedido foi silenciado com um ponta pé nas minhas costas. Socos atingiam o meu estômago. Ele no chão recebendo o mesmo “trato” que eu. De repente cai, minha visão estava avermelhada, turva. Mas antes de fechar os olhos vi ele se desfazendo em mil pedaços sangrentos...
            O ontem já passou, mas é como se eu estivesse preso nele para sempre. Um tempo sem volta e sem ida. Eu nunca vou conseguir tirar os meus olhos dele – por isso perseguirei arco- íris pelo resto da vida, pois, ele costumava me dizer que quando partisse retornaria para mim como um belo arco colorido no céu.

           Portanto, apesar da dor me dilacerar é hora de voltar para casa e esperar um novo arco-íris aparecer. Nesse meio tempo me pergunto se o despertar de amanhã trará ele de volta... 

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