16 dezembro, 2016

O teatro do 'macho alfa'


Imagem: Eric Chow

Vem! Pode vir! Confia em mim. Não tenha medo! Não há motivos para ter medo. Eu prometo!

Não quero ir. Estou cansada de tentar...

Confia, vem. Eu abro a porta do carro para você. Abro a porta da minha vida para você, Mi Leide. Dá-me a mão. Vem, é seguro. Meu peito é seguro.

Não sei...

Repara no meu vocabulário. Nos meus versos e diversos. Sou HOMEM, está protegida. Para sempre.

Não tenho certeza. Já me afoguei demais no (des)amor.

Eu te ajudo a remar. Re-amar. Amar. Você é tão bonita. Você é tão inteligente. Você é tão diferente. Como posso mentir para você? Acredita!

Você quer como eu quero?

Quero! Vem! Pode vir! Eu posso ficar até você conseguir. Estou aqui por sua causa. Vem. Isso. Pode segurar na minha mão. Calma. Isso. Devagar. Vamos conseguir.

Respira, respira... Vou tentar!

Isso. Vem, menina. Isso. Já tenho a sua boca. Mais um pouco. Isso. Vem. Já tive o seu corpo. Agora eu vou decapitar o seu coração para usar como boia. Eu nunca soube (re) amar.






01 dezembro, 2016

Lançamento do livro O Lago.

Algumas fotos do lançamento do primeiro romance de Sidy Batalha, O Lago, que aconteceu dia 26 de novembro de 2016 na Escola Municipal Avelino Pinheiro, São Miguel-RN.



























24 novembro, 2016

À espera.


O amor chegava em uma hora
Mas já são duas
Três
Quatro horas.
Estou cansada de esperar o amor chegar...
Sono
Sonhos
Silêncio
Súbita encontro-me, novamente, a esperar
O amor chegar.
Ele chega em uma hora, o amor.
Por que o amor não veio?
Perdeu-se de mim.
Uma pena.

18 novembro, 2016

Sozinha


Imagem: Alexandra Levasseur



Estou parada na ponte
Estou esperando no escuro
Pensei que você estaria aqui agora
Não há ninguém tentando me encontrar?
Ninguém virá me levar pra casa?

Estar sozinha é algo libertador. Estar sozinha é algo triste e assustador. Porém, estar com alguém é tal qual estar sozinha. Compreende? É temível!

Estar sozinha é pegar a contramão. É atravessar uma avenida movimentada sem olhar para os lados e não ter uma mão para te guiar, segurar.  

Estar sozinha é acordar e demora-se na cama encarando o nada. 

Estar sozinha é abrir as cortinas da janela e o reflexo do sol sombrear apenas um rosto.

Estar sozinha é ser solta, leve, livre.

Estar sozinha é imaginar histórias de amor platônicas que oferecem um pouco de calor ao coração.

Estar com alguém é imaginar futuros momentos e morrer de medo de perder o outro antes mesmo de realizá-los.

Estar sozinha é um abismo sem fim. Uma vitória diária.  Estar com alguém também. Porém, não existe graça em ser louca sozinha. De jeito nenhum.

Estar sozinha é caminhar horas a fio, em meio ao nada, procurando a companhia inexistente.  É voltar para casa de mãos vazias.

Estar sozinha é sangrar um pouco mais, a cada dia.

Estar sozinha é fechar o coração, mas ainda manter a esperança de encontrar o amor a cada dobrada de esquina.

Estar sozinha, ou estar com alguém, é cogitar enlouquecer. 

16 novembro, 2016

Capítulo 1 - O Lago.






Imagem: Mahafsoun

CAPÍTULO 1
 Raízes
  
É início de julho do ano de 2012 e Guilherme Almeida está retornando a sua cidade de origem, agora como um médico recém-formado. Uma placa na beira da estrada saúda o seu regresso: “Seja bem-vindo a Miguel Arcanjo”. As letras se encontram desgastadas por causa da ação do tempo, mas a placa continua exatamente como ele lembra, velha e meio enviesada. A cidadezinha do interior mudou um pouco — as ruas estão pavimentadas e alguns mini edifícios tentam alcançar o céu. Guilherme reconhece algumas casas e até pessoas enquanto percorre as ruas até a fazenda de seus pais.
O céu encontra-se em um tom alaranjado; é hora do crepúsculo. Fora do asfalto da cidade e já na estrada de terra, Guilherme bate o polegar direito no volante do carro seguindo o ritmo da música In loving memory, da banda Alter Bridge. Pelas lentes do seu óculos de grau, ele observa ao longe o reflexo do pôr-do-sol na água de um pequeno lago, o mesmo lago onde ele costumava pescar com seu pai nas manhãs de domingo. Repentinamente, Guilherme é embriagado por uma nostalgia gostosa que o faz  ir até lá e contemplar o finalzinho do crepúsculo sentado no píer. Maravilhar-se com o pôr-do-sol é um privilégio que ele não tinha há algum tempo, pois os últimos anos que antecederam a sua formatura foram corridos.
Guilherme caminha em direção ao lago sentindo-se absorto com aquela magnífica vista do sol sumindo por trás do verde dos campos da serra. Ao chegar ao fim do píer, ele se detém a observar o movimento da água que ondula de acordo com o toque do vento. Quando volta a contemplar o pôr-do-sol, avista uma mulher de cabelos longos e negros segurando a aba do vestido florido enquanto avança para dentro da água. Guilherme percebe/sente, sem nenhuma sobra de dúvidas, que ela tentará suicídio.
— Droga! — murmura. E corre até ela. Sem ser percebido, para ao lado de uma árvore que fica próxima da beira do lago. — Se eu fosse você, não faria isso.
A mulher para de avançar lago adentro e, sem se virar, diz: — Quem é você para me dizer o que eu devo ou não fazer?
— Um ser humano, por isso, se você continuar, eu terei que impedi-la. — Ele avança um pouco na direção dela, afundando ligeiramente os sapatos na terra amolecida.
— Não se aproxime!
— Me dê a sua mão, eu te ajudo a sair daí. — Ele estende a mão, mas ela não se vira.
— Já falei para não se aproximar! Vá embora!
— Não posso, já estou completamente envolvido nessa situação. Como falei, se você entrar, eu terei que ir atrás de você. Só temos um problema: eu não sei nadar.
— Não seja ridículo! Você não me conhece, por que faria isso?
— Porque essa é a minha profissão. Eu salvo vidas.
Ela se volta para ele, encara-o.
— Venha, eu te ajudo a sair. — E estende a mão novamente. — Eu sei que você não quer morrer assim, sentindo os pulmões queimarem. A morte deve ser algo tranquilo e não angustiante, e se afogar é terrivelmente aflitivo.
Ela olha para a mão dele estendida em sua direção, pensa um pouco e então a segura. Guilherme agarra o braço dela com as duas mãos e, com a ajuda dele, ela avança desajeitadamente para fora do lago. Perde o equilíbrio e tropeça para frente, chocando seu corpo contra o corpo dele.
Rapidamente, Guilherme a segura:
— Tudo bem, eu a peguei!
Ele sorri, mas ela não retribui: sente-se envergonhada e idiota. Mas confessa mentalmente para si própria que ele é como um anjo que veio salvá-la de si mesma. Ela consegue sentir a aura de proteção que emana dele, e isso a tranquiliza. Após retomar o equilíbrio, ela se desvencilha dos braços dele e volta de súbito a olhar para o lago, calada e misteriosa. Guilherme admira a beleza dela enquanto escolhe cuidadosamente as palavras:
— Vamos! Eu te levo até sua casa. — Ele toca o ombro dela. — Suponho que deva morar por perto.
Ela não o responde, continuando imóvel.
— Então você não quer ir para casa? Tudo bem, eu vou sentar aqui e descansar um pouco, pois acabei de fazer uma longa viagem. — Ele tenta distraí-la dos pensamentos que permeiam sua mente enquanto se acomoda embaixo da árvore. Não pode deixá-la sozinha, temendo que ela atente novamente contra a própria vida. De braços cruzados e sentado debaixo daquela árvore, Guilherme não desvia os olhos da mulher que está parada a sua frente como se fosse uma estátua de mármore. Ele formula mentalmente uma conversa, mas acaba desistindo de falar algo, uma vez que todas as outras tentativas falharam. O melhor, por enquanto, é continuar calado e atento a qualquer movimento dela.

“Ele ainda não apareceu. Talvez não tenha se dado conta de que saí de casa, mas isso só é possível caso ele não tenha retornado do trabalho”, pensa a mulher enquanto suspira. De súbito, parece fácil voltar para casa agora ao imaginar que ele não esteja por lá. Nesse momento, parece impossível e surreal o fato de que há poucos minutos ela tenha tentado se matar. Suspira novamente. Parece que tudo irá ficar bem, ao menos por hoje. Felizmente, não perdera a esperança de ser livre algum dia em vida, sendo ela mesma, mas hoje, a única coisa que ela pode fazer é retornar para casa sentindo-se covarde por não ter tido coragem suficiente para acabar com tudo logo de uma vez.
 A mulher sorri lacrimosamente e seu riso é de derrota.
 Tristonha, ela descruza os braços e, com um movimento apressado, põe-se a andar, pois é hora de voltar para casa. Ao se virar, vê o seu salvador ainda sentado debaixo da árvore. Havia se esquecido dele, surpreendendo-se ao encontrá-lo ainda ali.
Guilherme fica surpreso ao vê-la caminhar em sua direção. Levanta-se rapidamente e sorri para ela, que apenas o olha com raiva enquanto passa por ele. Guilherme sente-se aliviado ao vê-la se afastar daquele lago e a única coisa que ele pode fazer agora é observá-la sumir entre o verde do campo. 
Quando Guilherme chega à fazenda dos seus pais, já é noite. Sua mãe, Amanda Almeida, o espera na varanda com um sorriso largo entre os lábios; ao seu lado, Pedro Almeida, tenta não transparecer a emoção de reencontrar o filho, após tantos anos. Guilherme estaciona o carro em frente à casa e desce. As suas pernas estão bambas e o coração batendo disparado de saudade.
— Guilherme, meu filho! Quanta saudade eu estava de você! — Amanda o abraça, com olhos marejados.
— Seja bem-vindo de volta, rapaz! — murmura Pedro Almeida ao abraçar calorosamente o filho.
— Senti muita falta de vocês dois! — afirma Guilherme emocionado.
— Vamos entrar, filho! Você deve estar faminto. Preparei o seu prato predileto, baião de dois ao queijo — diz Amanda enquanto passa carinhosamente uma das mãos sobre o rosto do filho.
— Oba! Que delícia! — Sorridente e sentindo-se feliz, Guilherme entra em casa acompanhado de seus pais.
Naquela noite, após o jantar e as conversas jogadas fora com a família, Guilherme  senta-se em uma cadeira de balanço, posta na varanda que circunda a casa, e põe-se a olhar as estrelas. Da cidade não dá para vê-las nitidamente, apenas no interior o céu torna-se um espetáculo cheio de constelações. “O vento continua suave e os grilos cantam entre os matos. Senti muita falta desse ambiente, pois estar em contato com a natureza é algo maravilhoso e inexplicável”, pensa Guilherme enquanto empurra com os pés a cadeira de balanço. Vez ou outra a lembrança da mulher  do lago aparece em sua mente, no entanto, ele afasta o pensamento. Nesse momento, deseja apenas relaxar. Talvez depois tente descobrir o nome dela, dessa forma será mais fácil encontrá-la para saber se está bem.
— Pensando na vida, filho? — Pedro Almeida senta-se na cadeira de balanço ao lado de Guilherme.
— Sim. Penso que ela é maravilhosa e a natureza existe para confirmar isso.
— Concordo! A natureza é realmente divina, mas acho melhor você ir dormir, descansar, pois a viagem foi longa. Amanhã sua mãe deseja fazer um jantar em sua homenagem.
— Imaginei que ela faria algo. Mais alguns minutos e entrarei, pai.
— Não demore muito — diz Pedro ao levantar-se e antes de sumir pela porta, acrescenta: — Ah, é bom tê-lo de volta, filho.
— A benção, meu pai.
— Deus te abençoe.

07 novembro, 2016

Lançamento do livro O Lago - da nossa autora Sidy Batalha.



Editora e Escrita:

O Lago é o primeiro romance da escritora Sidy Batalha. O livro foi publicado pela Editora Schoba. A escrita de estilo irreverente, a delicadeza da alma e a visão voltada para a dor das minorias e a complexidade da vida humana foram pontos cruciais para o interesse da editora em publicar O Lago. Sidy assume a emoção. 
A história:
A história acontece na cidade de Miguel Arcanjo, uma região interiorana simples e pacata. Guilherme Almeida, após formar-se em medicina, retorna da capital para a sua cidade de origem. O seu retorno e a sua entrada na vida de Sibele (uma moça bonita e discreta que evita laços pessoais profundos) mudará para sempre o destino de ambos. Sibele é a esposa de Diogo Lobos, agrônomo da maior fazenda da região, Fazenda Almeida. Aos olhos dos moradores da cidade Diogo é um cara estimado, no entanto, ele guarda um segredo abominável.
Sabemos que a literatura é uma das mais belas artes produzida pelo homem, pois envolve o ser humano em seus múltiplos aspectos literários e reflexivos, principalmente, por sua relação entre ficção e história. De fato, as obras literárias podem oferecer  diversos conceitos de interpretação, pois, o conceito da leitura de um livro e suas diferentes interpretações é questão formulada à centenas de anos, cada um lê e absorve da obra o que realmente lhe é apropriado, necessário ou o que o seu consciente permitiu ser atingido.  
O Lago é um livro sobre a alma humana. As personagens carregam em suas vidas muitos sentimentos em comum, como a insatisfação e a fé. Um livro encantador que mescla mistério, suspense e uma linda história de amor, envolvendo o leitor com uma narrativa fluída e de rápida leitura.
 Lançamento:
O lançamento do livro acontecerá no dia 26 de novembro de 2016, na Escola Municipal Avelino Pinheiro, berço da alfabetização da nossa autora, São Miguel/RN às 19h. No momento, será realizado um evento cultural com algumas atrações de artistas micaelenses. O evento de lançamento conta com o apoio de: 

Atrações:

Primeira atração









29 outubro, 2016

Pela metade


                                                        Imagem: Brian M. Viveros

Ela voltou para casa sozinha
Com a maquiagem borrada. 
Com a faca ainda enfiada no peito. 

Entrou sem nada.
Nada que esquenta o pé e que protege.

Passaram-se dias. Meses. Anos.
Então chegou o menos.
Menos dor. Menos amor. Menos rancor.

Está acabando.
Contudo, sente-se solitária demais. Terrível demais.
Viveu quase toda a vida assim, sendo sozinha.
Dando-se carinho. Sendo blasé.

Tudo bem. Depois ela melhora.
Se apaixona pelo mocinho do filme.
Lê romance e vai passando. Sempre passa. Sempre acaba.

O amor morreu assim, pela metade.

O corvo


 O corvo








27 outubro, 2016

Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.



Refém do medo – Eles cavaram uma cova para mim.

Preciso falar sobre a violência psicológica contra a mulher.

Chamava-se X. As pessoas esperavam dele coisas como beijar bebês, amar animais, versos poéticos, o prêmio Nobel da paz. Espantavam-se com os olhos claros profundos, ombros largos, a voz meio áspera, o rosto duro e frio. O conheci através das poesias. Que romântico! - dirão os desavisados de plantão. Que redoma de vidro! - direi eu. E você sabe a que me refiro.

X, inicialmente, demonstrou ser um homem amoroso. Bom filho. Bom irmão. Bom cidadão. É um santo! – dizia a família. É um exemplo de humanidade! – diziam os vizinhos e os conhecidos. X era o príncipe que fazia de tudo para me ver feliz. Ele era perfeito. Mas não existem pessoas perfeitas. Mais uma vez, você sabe o que eu quero dizer.

X se apaixonou por mim, e antes de hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro do campo magnético daquela pessoa era bom. Eu esperava encontrar em X um companheiro, mas encontrei o meu principal coveiro.

Com o tempo descobri as verdadeiras ‘qualidades’ de X. Ele era um ditador, um egoísta, um manipulador, um robô cruel e frio. X costumava me dizer, ‘carinhosamente’: “O curso que você faz é uma m****! Você não tem futuro longe de mim!”; “Você não vai chegar a lugar algum com essa sua escrita medíocre”; “Já lavou a louça hoje? Você só serve para isso!” “Seus amigos são um lixo! Pobres coitados como você.” “Sua idiota!” "Te amo" "Me perdoa".

X controlava a minha maneira de andar, de falar, de sentir e de pensar. Eu vivia um pesadelo. Estava presa dentro de uma redoma de vidro que se fechava mais e mais, a cada dia. Eu era refém do medo. Refém do pavor. Refém da baixa autoestima. Refém daquele jogo psicológico.

Ninguém acreditava em mim quando eu falava sobre X e sobre não conseguir sair daquela situação. 
A culpa de tudo aquilo era minha. Vocês sabem, a mulher é sempre a culpada, a mentirosa. Já o homem é o possuidor de toda a sabedoria e da verdade. Né assim, sociedade?

Por trás do que acontecia, eu redescobria medos profundos que me tiravam o sono, a fome e a vontade de viver. Esses medos me proporcionavam crises de pânico indescritíveis que me esfacelava  a alma como um cadáver em decomposição. X fazia-me sentir esquizofrênica.

Certo dia, tateando traços difusos, li em um site uma matéria intitulada “Violência psicológica”. Naquele dia, finalmente, descobri o que estava acontecendo comigo. Procurei ajuda psicológica. E fui, aos poucos, tirando X da minha vida - apesar de sua insistência em se fazer presente nela, sem um pingo de remorso.

Anos depois, conheci Y. Com ele nunca tive nada. Apenas respondi, por educação, uma mensagem no Facebook deixada por ele, na qual Y elogiava a minha vida artística. Mas Y começou a criar, em sua mente, uma história de amor entre nós dois. O que o levou a me perseguir, me ameaçar e perturbar a minha paz. Contra Y alertei toda a minha família, meus amigos e os familiares de Y. E, por medo, me isolei, por um tempo, na casa de uma amiga, em outra cidade.

Z, igual a Y e a W, não soube receber um não. Teve a masculinidade ferida e reagiu cruelmente a isso. Falou coisas terríveis para mim. E tentou fazer-me acreditar que eu era uma pessoa horrível.

X, Z, Y, W, K ... O que todos eles têm em comum? Eles causaram em mim uma grande ferida. São os responsáveis pelo pavor que carrego no peito e na alma. Esse medo é o principal vilão na tentativa de iniciar uma relação amorosa com um parceiro. Mas se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, é porque sei que existem as exceções.

O que aprendi com todos eles? Que é preciso falar. Gritar! Nunca calar. Ninguém te escuta? Grita mais alto que no meio da multidão robótica uma alma branda te ouve e te dá à mão. Eles têm que te ouvir, antes de você tomar vários comprimidos para dormir, cortar os pulsos, ou pular do vigésimo andar. Depois vão todos ao seu enterro e ficarão inventado historinhas sujas a seu respeito.


P.S Mulheres, contêm as suas histórias. Não se calem! Como disse uma amiga minha: Nada justifica atos machistas, idiotas e frustrantes. O universo não merece tanta mediocridade. Meu grito é de libertação! 

19 outubro, 2016

Céu - Agradecimentos da Dissertação de Mestrado.


Imagem: Henn Kim



Nunca a desistência. Revisão de erros cometidos. Acertos comemorados. Chorei pela guerra diária da sobrevivência, mas também sorri pelo mesmo motivo. Dá-me a tua mão, você já tem a minha!
Amanheceu, e mais uma vez eu não consigo levantar da cama. Sinto-me um lixo. Uma carcaça humana sem serventia. Estou sozinha no apartamento branco. Nessa casa que não é minha. Nessa cidade que não é minha. Vivendo uma vida que no início eu também julguei não ser minha.
Nunca imaginei que para chegar ao céu teríamos que percorrer um deserto lamacento infestado de mãos que brotam do chão e tentam agarrar nossos calcanhares para depois nos puxar para o fundo do poço. Ontem eles quase conseguiram me puxar para o poço, por isso, hoje, acordei sentindo dor. Uma dor que foge a explicações filosóficas e científicas. Uma dor que, como uma droga, alucina-me as imagens mais trepidas e surreais do meu subconsciente.
A dor não me deixa respirar, não me deixa ESCREVER. A dor só quer que eu chore e chore e chore, como se o choro fosse a única saída para o fim dela. Então, eu choro. Choro como se fosse a única coisa que eu soubesse fazer na vida. Choro triste, perdida, solitária, doente, nervosa, dolorida, sôfrega. Eu choro o choro de um sonho, das idas e das vindas, da travessia, de cenas imaginárias, irreais. Eu choro o pior choro do mundo: choro o desacreditar em mim mesma. O desmerecimento de mim quase me fez perder o sonho - e a dor de perder um sonho é igual à dor da morte do corpo. Veja só, quando você perde o seu sonho e se perde de você mesmo, você e seu sonho continuam vivos. Há, então, como disse Caio Fernando Abreu, “uma morte anormal”. O desacreditar em mim mesma se torna tão irremediável e dolorido quanto o nunca mais ter quem morreu.
A dor me fez ficar na cama durante horas. Fez-me vomitar tudo: a comida, a água, a minha pele, o meu cérebro, a minha vitalidade e a alegria. Vomitei o eu, a esperança, todo o resto do que sobrou e do que não sobrou.

A dor me fez tomar o calmante em partes e me fez dormir por horas a fio. A dor me fez cortar o cabelo, parar de sorrir e vestir preto.  Diante de todo esse tormento, o pior de tudo era não saber de onde vinha exatamente essa dor, era não saber exatamente o que fazer com ela e o que fazer comigo e com o sumiço de mim, por mágica.
Mas, houve um dia de sol intenso e eu, finalmente, levantei da cama. Nesse dia, elas estavam ao meu lado, o Girassol e a Margarida – Além do céu e do deserto existe um jardim com belas flores. Por muitas vezes, para evitar o cansaço que me sufocava, eu ia até o jardim. E quando, por segundos, ficava alegre, era porque me aproximava do canteiro das flores. E recomponho na memória essas flores amontoadas no canteiro de tijolos, com seus talos verdes e rígidos, suas longas pétalas amarelas e o miolo marrom, granuloso, soltando cheiros delicados e doces. Acabamos aos poucos fazendo amizade e, então, começamos a dividir experiências de guerra, carinho e amor.
Hoje, elas atravessaram o deserto para me colocar cara a cara comigo mesma e para me ajudar a seguir em frente.
Olhei demoradamente o meu reflexo no espelho, delicadamente posto por elas à minha frente.
- O que você vê? – perguntaram-me elas.
- Uma pessoa que tem a força de dentro maior – respondi. E lembrei que a minha mãe costumava dizer que crescer dói e que a dor é necessária, pois é ela que antecede a vitória.
Nesse dia voltei para o céu e, agora que possuía asas, atravessei o deserto voando. Nunca mais teria contado com as mãos do deserto, de maneira alguma elas me puxariam novamente para o fundo do poço. NUNCA MAIS!
 Quando retornei ao céu, ela já me esperava, parada com as mãos cruzadas em frente ao corpo, os cabelos loiros caindo sobre os ombros. Minha Guia. Ela exalava um ar de mistério e uma sabedoria que seria transmitida para mim e para todos os seus outros aprendizes que estavam à espera de um novo ensinamento.
   Comecei a segui-la pelo corredor branco. Durante o percurso, observei as pessoas que ali se encontravam: eram pessoas tão jovens, tão demasiadamente deslumbradas e, ao mesmo tempo, assustadas pela complexidade do céu que surgia em nossa frente. Mas, o segredo daquele lugar, acontecia quando nos encontrávamos o suficiente concentrados para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. Quando aprendemos a voar, cruzar o céu se tornou um pouco mais fácil. 
Acredito que eu e eles um dia seremos grandes. Na verdade, já somos grandes! Mas, faltam-nos algumas complexidades que aperfeiçoaremos com o tempo.

Agora, estou caminhando por esse corredor. A minha estadia aqui está acabando. A lição foi ensinada e aprendida. É hora de partir e ensinar aos tantos outros como voar ferozmente, cruzar o deserto, passar pelo jardim, alcançar a porta do céu e sair. Ensinar como cultivar flores e não sentir dor. Preciso ensiná-los a plantar e a colher, assim como me ensinaram.
Paro no meio do corredor e olho para além daquelas montanhas verdes, daqueles campos amarelos, para além das nuvens. O coração aperta – lembro-me dos meus pais, meus irmãos, meus amigos. Eu os sinto perto de mim, sempre. Eles sempre estiveram além dessas nuvens, enviando-me amor e carinho, e o mais importante: sempre acreditaram em mim! O meu ser agradece por isso.
Retomo os passos para além daquela porta que estou prestes a atravessar. Uma nova história será escrita, vivida. Respiro fundo. O medo e a dor nunca mais tomará conta de mim. Entrego-me a saudade, a fragilidade de partir e a felicidade de ter vivido naquele céu. Por fim, permaneço caminhando. Firme!

Sidileide Batalha
24 de abril de 2016