14 março, 2016

Ele é mais cruel que eu.





Imagem: Rob Hefferan

           Você acorda meio embargada, cabelo bagunçado, uma dorzinha de cabeça insiste em não ir embora. Seus olhos ainda inchados, presentinho das lágrimas que vieram novamente te visitar durante a noite passada, você não queria, mas mesmo assim elas inundaram as suas retinas fatigadas. Seu pequeno coração bate tão lentamente que você chega a pensar que de hoje você não passa, mas tudo bem, todo mundo tem que morrer um dia seja de morte natural ou de amor.
            Mas, daí você levanta e busca um lugarzinho na janela pra tentar sentir no seu corpo frio um calorzinho do sol que acabou de nascer. Você sente o vento brincar com os seus cabelos e um leve cheiro de madeira molhada  que te faz recordar julho e a cor branca. Julho e o branco doem fundo na sua alma translúcida, então você fecha a janela e volta a sentar na cama ainda desfeita enquanto tenta se perdoar, mais uma vez, por mais uma “escolha insensata” feita entre sorrisos, taquicardia e copos de vinho postos delicadamente sobre as toalhas brancas.
            Você pousa um lado do rosto sobre uma das mãos e com a outra desenha no ar riscos tristes, rostos sombrios de fantasmas que te assombram quase diariamente. Isso te entristece, mas não mais do que a morte da paixão. A paixão já morreu tanto na sua vida que você nem faz mais questão de dar a ela um velório descente. Sabe o que dói mais? Não é a morte em si, é o momento em que você se descobre em meio a um tabuleiro de xadrez enorme e humano, onde você era apenas mais uma peça facilmente descartável. Um dia te usam para conseguir atravessar o tabuleiro, no outro dia você é deixada de lado, jogada no vazio do lixo de almas assassinadas por idiotas alados.
Ele é mais cruel do que você... porque ele não se importou se você ficaria bem depois que ele “venceu” o campeonato de xadrez. Ele não se importou se sua condição no início seria seca e desbotada, sem cores, sem vida. Você vazia, morta no canto negro do tabuleiro.  
Ele é mais cruel do que você... porque quando você disse não, ele moveu céu e terra para conseguir o seu sim para depois transformar no não dele. O NÃO – NÃO DITO, o maldito não que você teve que descobrir sozinha em meio a um cruel jogo mental.
Ele é mais cruel do que você... porque ele não te amou, mas te fez acreditar que sim.
E desde então você desconhece o mundo, as pessoas, a vida que para tantos eles (as) é facilmente manipulada, esmagada, tirada.  Você é mais sentimental do que ele... porque você apesar de tudo, apesar das mortes diárias sobrevive e possui um coração que acredita e ama.
No entanto, em cada julho você vai lembrar daquele sorriso, das mãos dadas, dos olhos da cor do céu mais límpido e azul, do cheiro que você tanto amava e que ainda sente, vez ou outra pela rua enquanto  morre de medo de ser ele a próxima pessoa a virar a esquina, mas nunca é. E você agradece a Deus por isso. E sorrir, assim... leve, solta e bonita, porque você é realmente muito bonita, você vai ser infinitamente mais bonita do que ele, e essa comparação diz respeito a sua beleza interior, a que nem o dinheiro pode comprar. E agora... Agora você não sabe o que fazer com tanta beleza e pouca idade, mas um dia vai saber. Um dia você vai saber e vai querer ser  linda para ele que não é cruel e que sabe que você não é uma peça descartável de um jogo, mas um ser humano com alma e coração. Você vai querer ser mais linda para a mulher que te curou da dor e te fez renascer, você mesma.    
E hoje, o que você mais lembra dele é apenas um rabisco feio no início do livro da sua vida, um rabisco que você apagou com uma borracha branca, a cor favorita dele.
            

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