17 julho, 2015

Isso é Guerra



Conto publicado no livro Cruviana  5ª edição em sua primeira versão impressa. 


Meu nome é Paul Witshon, tenho vinte e quatro anos de idade e sou um soldado do exército americano. Há dois anos me encontro nesse campo de batalha denominado Sinsig. Hoje faz exatamente dois dias que não durmo, pois é um pouco difícil adormecer com o odor forte de pedaços de corpos humanos decompondo-se, na verdade estou com medo de fechar os olhos e não acordar mais. Minha garganta está seca e minha pele do rosto está queimada por causa do sol forte. No momento estou segurando a morte nas mãos em forma de arma. No lugar desta Sten MKV, queria está segurando a minha filha, que deve ter agora dois anos e três meses de idade. Recordo-me agora a noite do seu nascimento, era dia 03 de setembro de 1939, uma noite de tempestade, onde se ouviam os trovões e viam-se os raios.
Eu estava sentado na cadeira no corredor do hospital, com a cabeça entre as mãos, o coração disparado, esperando o milagre da vida acontecer. Levantei da cadeira e acendi um cigarro. Fiquei caminhando de um lado para o outro enquanto tragava o cigarro e passava uma das mãos entre os cabelos. Após duas horas de espera escutei um choro de criança e adentrei no quarto. Mary encontrava-se segurando um pequeno ser. Aproximei-me devagarinho. A Mary estava pálida e suada, as toalhas da cama estavam ensanguentadas. Parei perto da cabeceira da cama, abaixei-me e peguei minha filha nos braços. "- Então era uma menina, uma pequena flor- Pensei".
 Não consigo descrever a emoção daquele momento, mas lágrimas quentes escorreram dos meus olhos. A TV do corredor estava ligada e por um momento deixei de fitar aqueles pequenos olhos azuis para ouvi o pronunciamento do presidente. "A guerra está declarada". Olhei novamente para aqueles lindos olhos e falei baixinho - Rose...
 - Paul, acorde! Está dormindo em pé ou sonhando acordado? – Perguntou- me Andrew sentando-se em um pedaço de madeira que estava à minha frente.
 - Não estou dormindo e nem sonhando acordado, apenas estava pensando na minha filha e na Mary, como elas devem está? – falei sentando-me ao lado do Andrew.
 - Não se preocupe Paul, aposto que as duas estão melhores do que nós dois – disse Andrew.
Andrew também era americano. Mais novo do que eu apenas três anos. Andrew tinha orgulho de está na guerra de defender o seu país. Estava sempre com um belo sorriso nos lábios e costumava cantar o hino nacional enquanto cavava os poços para reter água da chuva. Não era casado e nem tinha filhos, talvez por esse motivo ele não se importasse de passar anos fora de casa.
 - Acho melhor deixarmos de jogar conversa fora e irmos para a fila da ração. – Falei levantando-me e pegando minha MKV do chão.
 Ração era o nome dado a nossa comida, que muitas vezes era um pedaço de pão com enlatados. Enquanto estava na fila aguardando chegar a minha vez para pegar a comida, vi o Porsche entrando no campo cheio de prisioneiros acorrentados uns aos outros.
 - Acho que são japoneses, hoje à noite os meus colegas irão se divertir torturando-os - pensei.
 Os soldados puxavam com violência os prisioneiros de cima do carro, que caiam no chão e eram chutados até levantarem. A noite foi tranquila, silenciosa, consegui recuperar o sono atrasado. A sirene tocou às cinco horas da madrugada, como de costume, era hora da ração. Levantei da cama do alojamento, peguei minha garrafa térmica com água e lavei as minhas partes íntimas. Tomar banho, totalmente, apenas quando chovia. Vesti meu uniforme, sentei na cama e peguei embaixo dela a caixa em que guardava as cartas da Mary e sua foto segurando nossa pequena Rose. Olhei o retrato das duas sorridentes e chorei novamente.
É como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Tudo que eu queria era apenas voltar para casa. E pela primeira vez nesses dois anos em que estou aqui, ajoelhei e rezei, chorei e rezei. Porque homens também choram e também tem fé. Pedi a Deus que o ser humano deixasse de ter tanta ganância e que a guerra acabasse.
Após falar com Deus, levantei e fui para o refeitório. No caminho soube pelo Andrew que fomos escalados juntamente com outros dez soldados para a base de Pearl Harbor. A base de Pearl Harbor ficava na ilha de Oahu, Hawai. Eu e os outros soldados chegamos lá por volta do meio dia. Eles estavam precisando de pilotos para os caças. Andrew contou-me que há dois dias soldados da base de Pearl Harbor afundaram um mini submarino japonês que estava tentando lançar torpedos na base.
 Na manhã seguinte enquanto eu monitorava o radar, olhei a data no relógio era  7 de dezembro de 1941. Por volta das oito horas da manhã o radar indicou a presença de aviões, gritei pelo capitão... - Está tudo bem rapaz, é apenas um grupo de novos aviões estadunidenses. Estávamos esperando-os – disse o capitão. Saí da cabine e olhei para o céu, dezenas de caças se aproximavam.
- Esses não são aviões estadunidenses. Droga! - Corri para pegar minha arma. Um clarão cortou o céu, e eles estão vindo pela direita e pela esquerda, é hora de matar ou de morrer. O barulho é ensurdecedor, enquanto os caças japôneses atiram contra Pearl Harbor. Estou vendo companheiros meus serem mortos. Estou correndo e atirando. Estou pensando na minha filha, enquanto me pergunto pelo que exatamente estou lutando.
Nesse inferno o inocente nunca sobrevive. Isso é guerra, entre o bem e o mal, entre o início e o fim, entre a ganância e o poder. Esse é o momento, o momento de rezar e de tentar sobreviver. O momento de matar e o momento de morrer.
Aqui a sorte escolhe quem vive e hoje ela não estava ao meu lado. Sinto algo queimando dentro de mim. Pequenas gotas de sangue pingam no chão. O horizonte está meio embaçado, mas eu consigo ver o rosto da minha esposa e da minha filha. De repente tudo se apaga e uma luz me puxa. Estou ouvindo gritos clamando por paz. Me acorde quando a guerra acabar.

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