19 julho, 2015

Estranhos



                                                                  Apenas uma menina do interior
                                                                 Vivendo em um mundo solitário
                                                                 Ela pegou o trem da meia-noite
                                                              Que vai para lugar nenhum ♥♪♩♡❤♪♯


Imagem: Vladimir Kush

Era apenas mais um garoto da cidade grande vestindo terno e gravata, sentado em um bar após um longo dia de trabalho.
Era apenas mais uma garota do interior que tinha trocado a tranquilidade de uma cidadezinha pequena pelo ar poluído da cidade grande.
Dois estranhos sentados lado a lado, talvez pensando em coisas parecidas.
Ela segurava um livro, ele um copo de uísque.
Ele pensava na dor de voltar para casa, mas não voltar para ninguém.
Ela pensava na mesma coisa.
Ela sentiu vontade de chorar, ele de socar a mesa.
A vida dos dois estava gritando nos cantos daquele bar.
Ele afrouxou a gravata e levantou-se. 
Ela calçou os sapatos e caminhou até a porta de saída.
Os dois andaram a poucos metros de distância um do outro.
Ele caminhava com passos largos, ela com passos curtos.
Ele puxou do bolso do paletó as chaves e abriu o portão do pequeno prédio de paredes pichadas. 
Ela retirou a chave da bolsa, mas não a usou.
Ele segurou o portão para ela entrar.
Ela murmurou um “obrigada”, os olhos dos dois se encontraram, olhos castanhos como o mel e olhos negros como a noite.
Ele sentiu os batimentos do coração acelerarem, ela também.
Ela entrou no apartamento 202, ele no 203.
Antes de fecharem as portas e voltarem para a solidão individual de cada um, sorriram de alegria por pensarem que a partir daquele momento não seriam mais duas almas solitárias no meio de uma selva de pedras.

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