19 julho, 2015

O Cientista.


Ninguém disse que seria fácil
É uma pena nos separarmos
Ninguém disse que seria fácil
Mas também não disseram que seria tão difícil

Oh, me leve de volta ao começo ♥♪♩♡❤♪♯


Conto vencedor do 1º Concurso de literatura de Assú - RN

Estou embaixo do chuveiro. As gotas de água batem no meu corpo lentamente. Estou olhando para os meus pés. Vou até o espelho e penteio o meu cabelo cuidadosamente para trás. Ligo a torneira da pia e jogo água no meu rosto, ela se mistura com as lágrimas que não vem. Saio do banheiro e passo pela cozinha. Por um instante tenho um deslumbre dela segurando uma xícara de café, estou com pressa e não reparo. Pego minha pasta e ligo o carro. No caminho até o meu trabalho, olho as árvores, hoje elas estão bastante verdes. “Deve ser primavera”, pensei. Eu não sei bem em que dia estou, porque não tenho mais noção de tempo. Observo algumas crianças brincando no parque.  Reparo em um casal de namorados, eles aparentam serem felizes. Imagino que possuem uma bela história de amor, que talvez eu parasse para ouvir, se não fosse a pressa do dia-a-dia.
Chego ao meu trabalho, não estou atrasado - ao contrário. Nas cadeiras vermelhas ao lado do corredor, rostos sofridos e esperançosos me aguardam. Passo pela senhorita Marta.
- Bom dia Dr. Rafael. – Ela disse cordial.
- Bom dia Marta- Respondo e continuo meu caminho.
       As paredes do hospital são claras, combinam com as pessoas de branco que circulam por elas. Sento na minha mesa e rabisco em um pedaço de papel “Vim para te encontrar, dizer que está tudo bem, dizer que eu preciso de você.” O meu primeiro paciente entra.
- Oi Andrew, tudo bem? Sentiu dores esses dias? – Perguntei inclinando-me para examiná-lo.
A cabeça sem cabelos do menino de doze anos brilha enquanto o examino. Foi difícil contar a mãe dele que o pequeno suportaria apenas mais uns dias de vida. Mas esse é o meu trabalho.
 O dia termina lentamente, pela janela do hospital observo o crepúsculo que se segue. Pego a foto dela da carteira e por alguns segundos a observo.
Passava da meia noite quando a velha poltrona gemeu, então percebi que estava fitando o teto e sentia um prazer enorme em contar as suas rachaduras. Talvez porque eu queria que as horas voassem... voassem - aquela era uma forma de distração. Peguei o papel que havia rabiscado pela manhã e escrevi embaixo “Teu olhar é negro, negro como a noite...”. Era assim que ela definia os meus olhos.
Eu estava encostado na parede, conversando com alguns amigos. Foi quando eu a vi entrando na biblioteca, mexendo em seus cabelos levemente. Entrei logo depois. Ela estava procurando um livro de literatura, me aproximei, mas nada falei, apenas a olhei. Sentia que já a conhecia, mas como? Se aquela era a primeira vez que a via...
 Acordei pela madrugada. “Esse sonho novamente...”. Levantei da poltrona grogue, tentando manter o equilíbrio. “Café” – precisava de lucidez. Resolvo fazer um tour pelos corredores do hospital, então começo a andar com passos curtos e mãos no bolso. “Hoje está tudo tão tranquilo...”, pensei. Nenhuma cirurgia, nenhum paciente de última hora. Já passei dias e noites, horas e horas, e por que não dizer anos, nesse lugar, salvando e perdendo vidas. Odeio confessar isso, mas, há muito tempo minha vida se ressume a esses corredores.
Sento um pouco em uma das cadeiras no canto do corredor, e coloco as mãos sobre o rosto. O silêncio é perturbador ao ponto de eu apenas ouvi a minha respiração. Nesse momento volto a minha juventude novamente, ela passou rápido, e eu nem percebi. Quando resolvo voltar para a minha sala escuto soluços vindos do quarto onde o Andrew está. Deitado na cama segurando uma cruz tosca Andrew soluçava enquanto pequenas lágrimas percorriam a sua face, ele rezava baixinho.
Adentrei no quarto e sentei no canto da cama. Coloquei a mão sobre a de Andrew. O garoto ardia em febre.
- Dr. Rafael é o senhor? – Ele me olhou confuso.
- Sim, Andrew sou eu. O que esta fazendo? – Perguntei.
- Estou rezando para Deus... Para que... – Sua voz falhou de repente, suas expressões faciais contorcidas.
- Dr. Me ajude, por favor! Não me deixe morrer! – Andrew pediu com sua vozinha rouca e doída.
Aquelas palavras me dilaceraram , como se estivessem enfiando uma faca no meu peito lentamente.  O rosto do garoto  contraia-se de dor. Saltei da cama e corri aos gritos por minha equipe médica .
A chuva do mês de julho caía lá fora. Diante de mim, um garoto talvez com poucos minutos de vida. E pela janela uma tempestade, onde se via os raios e se ouvia os trovões.
Minha equipe finalmente chegou ao quarto, todos preparados para mais uma batalha contra a morte. Os batimentos cardíacos do menino se encontravam fracos no monitor. Começamos a dá-lhe choques com o desfibrilador. Ele pulava no leito convulsivamente.  Após a sessão de choques, Andrew soltou a cruz e olhou-me com aqueles olhos grandes de criança. Forçou um sorriso e virou a cabeça. Seus batimentos viraram uma linha reta no monitor.
Passei horas parado diante da janela olhando as gotas de chuva baterem no chão. Assisti de perto todo o tratamento daquele menino contra o câncer, e como eu, ele também morava ali, na casa dos vários cômodos – nosso hospital  não era opção dele, mas para mim foi. Uma mão tocou meu ombro.
- Dr. Rafael, a mãe do garoto esta na recepção esperando pelo senhor. – Marta disse tristonha.
- Obrigado Marta, já estou indo. – Falei baixinho, como se a minha voz pudesse ferir o meu luto, quebrar o meu silêncio. O meu vazio.
Aquele era o momento que eu mais odiava na minha profissão: dar a notícia. Principalmente às mães, ver-lhes o sofrimento misturado a certo nível de esperança quase desesperado. Os olhos marejados. A dor. A destruição da alma de alguém. Era a morte chegando ao meu lado.  
Entrei na recepção segurando a cruz tosca que estava com Andrew. A senhora de vestido azul e cabelos negros mesclados elegantemente com alguns fios brancos levanta-se e me olha assustada quando me aproximo.
- Dr. E o meu filho? - Pergunta-me ela com a mão no coração.
Meu corpo tremia espasmodicamente e minhas mãos estavam geladas. Senti um gosto amargo na boca.
- Infelizmente, senhora... O seu filho – engoli seco - não resistiu. Fizemos o que estava ao nosso alcance – procurei as palavras – Tentamos todos os procedimentos possíveis... Achávamos que iríamos conseguir reanima-lo com o desfibrilador, mas... – A minha voz parou no meio da garganta.
- Então quer dizer que o meu Andrew, Dr ... O meu filho... -  Sua voz falhou no final.
O meu olhar opaco a fez entender. Ambos não queríamos pronunciar a palavra. Senti arrepios em ondas.
- Era dele – Tirei do bolso a cruz do menino e entreguei a mãe.
É impossível saber como será a reação de uma pessoa diante de uma perda em sua vida. Mas ela simplesmente enxugou as lágrimas, segurou firme com as mãos a cruz e pediu que a levássemos para onde estava o seu filho. Penso que há tempo ela se preparava emocionalmente para esse dia. Acho que quando se sabe que a morte vem é um pouco mais fácil aceitar os fatos, as perdas, do que quando ela chega de surpresa. Volto para a minha sala e espero o dia chegar, não falta muito tempo.
Amanhece na cidade, o dia está ensolarado, nada parecido com a tempestade de ontem. A brisa toca levemente as folhas das árvores, e os pássaros cruzam o céu em voos cruzados. Pego novamente a foto dela que está em cima da minha mesa e a olho. Lembra-la dói a ponto de me faltar o ar nos pulmões.
Meu expediente chega ao fim, é hora de descansar. Começo a dirigir. Tudo o que eu queria era ir para casa, volta para ela, mas eu não posso. Então dirijo até o cemitério onde ela esta enterrada. Ajoelho-me em frente a sua sepultura e com a manga da minha camiseta branca de médico limpo a foto dela. Faço uma oração e antes de ir embora deixo para ela uma flor branca, sua preferida.
Sabe hoje eu percebo que são apenas questões da ciência e progresso. O progresso nos consome nos faz questionar...questionar quem somos o que queremos ser. Estamos sempre competindo, em busca de ser o melhor, e nessa trajetória não vemos o que perdemos, do que desistimos para sermos o primeiro. Eu sou um cientista, eu estudo vidas, eu salvo vidas. Mas eu não consegui salvá-la, como tantas outras pessoas. E não consigo estudar a minha própria vida, e é tarde demais para tentar corrigir os erros. Talvez um dia alguém me leve de volta ao começo.




Estranhos



                                                                  Apenas uma menina do interior
                                                                 Vivendo em um mundo solitário
                                                                 Ela pegou o trem da meia-noite
                                                              Que vai para lugar nenhum ♥♪♩♡❤♪♯


Imagem: Vladimir Kush

Era apenas mais um garoto da cidade grande vestindo terno e gravata, sentado em um bar após um longo dia de trabalho.
Era apenas mais uma garota do interior que tinha trocado a tranquilidade de uma cidadezinha pequena pelo ar poluído da cidade grande.
Dois estranhos sentados lado a lado, talvez pensando em coisas parecidas.
Ela segurava um livro, ele um copo de uísque.
Ele pensava na dor de voltar para casa, mas não voltar para ninguém.
Ela pensava na mesma coisa.
Ela sentiu vontade de chorar, ele de socar a mesa.
A vida dos dois estava gritando nos cantos daquele bar.
Ele afrouxou a gravata e levantou-se. 
Ela calçou os sapatos e caminhou até a porta de saída.
Os dois andaram a poucos metros de distância um do outro.
Ele caminhava com passos largos, ela com passos curtos.
Ele puxou do bolso do paletó as chaves e abriu o portão do pequeno prédio de paredes pichadas. 
Ela retirou a chave da bolsa, mas não a usou.
Ele segurou o portão para ela entrar.
Ela murmurou um “obrigada”, os olhos dos dois se encontraram, olhos castanhos como o mel e olhos negros como a noite.
Ele sentiu os batimentos do coração acelerarem, ela também.
Ela entrou no apartamento 202, ele no 203.
Antes de fecharem as portas e voltarem para a solidão individual de cada um, sorriram de alegria por pensarem que a partir daquele momento não seriam mais duas almas solitárias no meio de uma selva de pedras.

17 julho, 2015

Isso é Guerra



Conto publicado no livro Cruviana  5ª edição em sua primeira versão impressa. 


Meu nome é Paul Witshon, tenho vinte e quatro anos de idade e sou um soldado do exército americano. Há dois anos me encontro nesse campo de batalha denominado Sinsig. Hoje faz exatamente dois dias que não durmo, pois é um pouco difícil adormecer com o odor forte de pedaços de corpos humanos decompondo-se, na verdade estou com medo de fechar os olhos e não acordar mais. Minha garganta está seca e minha pele do rosto está queimada por causa do sol forte. No momento estou segurando a morte nas mãos em forma de arma. No lugar desta Sten MKV, queria está segurando a minha filha, que deve ter agora dois anos e três meses de idade. Recordo-me agora a noite do seu nascimento, era dia 03 de setembro de 1939, uma noite de tempestade, onde se ouviam os trovões e viam-se os raios.
Eu estava sentado na cadeira no corredor do hospital, com a cabeça entre as mãos, o coração disparado, esperando o milagre da vida acontecer. Levantei da cadeira e acendi um cigarro. Fiquei caminhando de um lado para o outro enquanto tragava o cigarro e passava uma das mãos entre os cabelos. Após duas horas de espera escutei um choro de criança e adentrei no quarto. Mary encontrava-se segurando um pequeno ser. Aproximei-me devagarinho. A Mary estava pálida e suada, as toalhas da cama estavam ensanguentadas. Parei perto da cabeceira da cama, abaixei-me e peguei minha filha nos braços. "- Então era uma menina, uma pequena flor- Pensei".
 Não consigo descrever a emoção daquele momento, mas lágrimas quentes escorreram dos meus olhos. A TV do corredor estava ligada e por um momento deixei de fitar aqueles pequenos olhos azuis para ouvi o pronunciamento do presidente. "A guerra está declarada". Olhei novamente para aqueles lindos olhos e falei baixinho - Rose...
 - Paul, acorde! Está dormindo em pé ou sonhando acordado? – Perguntou- me Andrew sentando-se em um pedaço de madeira que estava à minha frente.
 - Não estou dormindo e nem sonhando acordado, apenas estava pensando na minha filha e na Mary, como elas devem está? – falei sentando-me ao lado do Andrew.
 - Não se preocupe Paul, aposto que as duas estão melhores do que nós dois – disse Andrew.
Andrew também era americano. Mais novo do que eu apenas três anos. Andrew tinha orgulho de está na guerra de defender o seu país. Estava sempre com um belo sorriso nos lábios e costumava cantar o hino nacional enquanto cavava os poços para reter água da chuva. Não era casado e nem tinha filhos, talvez por esse motivo ele não se importasse de passar anos fora de casa.
 - Acho melhor deixarmos de jogar conversa fora e irmos para a fila da ração. – Falei levantando-me e pegando minha MKV do chão.
 Ração era o nome dado a nossa comida, que muitas vezes era um pedaço de pão com enlatados. Enquanto estava na fila aguardando chegar a minha vez para pegar a comida, vi o Porsche entrando no campo cheio de prisioneiros acorrentados uns aos outros.
 - Acho que são japoneses, hoje à noite os meus colegas irão se divertir torturando-os - pensei.
 Os soldados puxavam com violência os prisioneiros de cima do carro, que caiam no chão e eram chutados até levantarem. A noite foi tranquila, silenciosa, consegui recuperar o sono atrasado. A sirene tocou às cinco horas da madrugada, como de costume, era hora da ração. Levantei da cama do alojamento, peguei minha garrafa térmica com água e lavei as minhas partes íntimas. Tomar banho, totalmente, apenas quando chovia. Vesti meu uniforme, sentei na cama e peguei embaixo dela a caixa em que guardava as cartas da Mary e sua foto segurando nossa pequena Rose. Olhei o retrato das duas sorridentes e chorei novamente.
É como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Tudo que eu queria era apenas voltar para casa. E pela primeira vez nesses dois anos em que estou aqui, ajoelhei e rezei, chorei e rezei. Porque homens também choram e também tem fé. Pedi a Deus que o ser humano deixasse de ter tanta ganância e que a guerra acabasse.
Após falar com Deus, levantei e fui para o refeitório. No caminho soube pelo Andrew que fomos escalados juntamente com outros dez soldados para a base de Pearl Harbor. A base de Pearl Harbor ficava na ilha de Oahu, Hawai. Eu e os outros soldados chegamos lá por volta do meio dia. Eles estavam precisando de pilotos para os caças. Andrew contou-me que há dois dias soldados da base de Pearl Harbor afundaram um mini submarino japonês que estava tentando lançar torpedos na base.
 Na manhã seguinte enquanto eu monitorava o radar, olhei a data no relógio era  7 de dezembro de 1941. Por volta das oito horas da manhã o radar indicou a presença de aviões, gritei pelo capitão... - Está tudo bem rapaz, é apenas um grupo de novos aviões estadunidenses. Estávamos esperando-os – disse o capitão. Saí da cabine e olhei para o céu, dezenas de caças se aproximavam.
- Esses não são aviões estadunidenses. Droga! - Corri para pegar minha arma. Um clarão cortou o céu, e eles estão vindo pela direita e pela esquerda, é hora de matar ou de morrer. O barulho é ensurdecedor, enquanto os caças japôneses atiram contra Pearl Harbor. Estou vendo companheiros meus serem mortos. Estou correndo e atirando. Estou pensando na minha filha, enquanto me pergunto pelo que exatamente estou lutando.
Nesse inferno o inocente nunca sobrevive. Isso é guerra, entre o bem e o mal, entre o início e o fim, entre a ganância e o poder. Esse é o momento, o momento de rezar e de tentar sobreviver. O momento de matar e o momento de morrer.
Aqui a sorte escolhe quem vive e hoje ela não estava ao meu lado. Sinto algo queimando dentro de mim. Pequenas gotas de sangue pingam no chão. O horizonte está meio embaçado, mas eu consigo ver o rosto da minha esposa e da minha filha. De repente tudo se apaga e uma luz me puxa. Estou ouvindo gritos clamando por paz. Me acorde quando a guerra acabar.

07 julho, 2015

Day of Infinite



                                                                8 de Julho ∞ de 2015



Essa será para sempre a música desse dia, porque marcou a transição entre um certo amadorismo — para uma espécie de amadurecimento. E digo espécie porque, hoje, um ano depois, esse amadurecimento continua ainda em esboço.



                             Seu amor sempre vai brilhar
                       Mesmo nas sombras... ♩♡♪♯ 

                                                                       ***




Estou sentada em frente ao computador e penso que deveria escrever, mas não tem sobre o quê escrever. Mesmo assim, queria escrever, dessa vez, um texto para mim, pois eu passei quase a minha vida toda escrevendo para os outros, sobre os outros, e nunca me sobrou um tempinho para escrever sobre a Sidy, para a Sidy. Então, queria muito, hoje, me presentear com um texto, já que é o dia do infinito. Mas, antes de escrever vou explicar o que é o dia do infinito para os desconhecedores de plantão. Quando você pega o número oito e o coloca de lado, vira-o, singelamente ele se transforma no símbolo do infinito. Sendo assim, dia 8 de julho é o meu dia do infinito porque eu nasci nessa data, então todos os dias oitos de todos os meses de julhos de todos os anos será para sempre o meu sempre.
Então, esse texto é o meu presente para mim mesma. Portanto, resolvi falar do hoje.


Estou correndo, muito, muito rápido, como se eu estivesse que chegar a algum lugar em poucos minutos, mas não se tem aonde chegar porque estou correndo em circulo e um circulo, no fim, sempre vai nós levar para o início, o lugar que a corrida começou. Eu corro todos os dias, porque correr me ajuda a pensar e preciso pensar para criar, escrever e viver.
Faz uns quinze minutos que parei de correr e sentei nessa escada de cimento para observar o bando de pássaros fazer seu voo de despedida em meio a um céu rosa-azulado. Fico olhando esse céu imenso e relembro a minha primeira festa de aniversário nos meus remotos cinco, sete anos, não recordo a idade certa, contudo lembro perfeitamente o dia 8 de julho de um ano qualquer quando meu pai chegou em casa do trabalho e trouxe na sacola de plástico ingredientes que mais tarde virariam um bolo feinho, mas feito com muito amor pela minha mãe. A festa foi simples, só tinha o bolo, uma vela e alguns balões, mesmo assim foi mágico. Nesse dia ganhei o meu primeiro presente, do meu pai, uma tortuguita, um chocolate em formato de tartaruga; foi a primeira vez na vida que comi chocolate e foi incrível, o cheiro, o gosto adocicado. Anos depois eu entenderia que: éramos muito pobres e o maior presente que os meus pais poderiam me dá, além de amor, era comida. É preciso alimentar-se para o corpo físico não morrer, comer para crescer, para viver... ganhar o chocolate naquele dia do infinito  simbolizava o desejo dos meus pais de me mostrar que a vida, apesar de ser amargar em alguns momentos dá sempre para adocicá-la de alguma maneira linda. Esse gesto me ensinou a ter paixão pela vida, pelo tempo. Agora tenho vinte três anos, na verdade, amanhã/hoje terei/tenho 24, um novo ciclo vai se iniciar e só consigo pensar em uma única coisa: Uma idade nova, eu com o mesmo coração idiota e a mesma ilusão de sempre. Coisa chata, não? Só consigo pensar nisso e nessa profunda falta de alguma coisa que eu não sei o que é. Só que doía, dói, vez ou outra, sem remédio.
Só consigo pensar que sou adulta, que preciso trabalhar, pagar contas, andar firme, erguer a cabeça, ser mais paciente, menos estressada, menos amável (ser amável demais, todos esses anos, só me trouxe dor. Preciso, também, acreditar mais nas pessoas, ou, desacreditar nelas?
Estou sentada aqui, só pensando nas dezenas de pessoas que saíram e entraram na minha vida durante esses vinte e quatro anos. O que elas trouxeram de bom? O que elas levaram? O que eu fiz com o que restou? Ou não restou nada?
Nesse fim de tarde fria de julho, eu quero ficar bem. Quero ter esperança sobre o futuro. Ser sábia ao ponto de saber tomar decisões, as mais complicadas e delicadas. Eu quero continuar louca para poder criar infinitas histórias que só existem na minha cabecinha mirabolante. Quero saúde para lutar. Quero que a esperança volte e que nunca mais morra. Quero os meus pais, meus irmãos e meus amigos ao meu lado por muitos, e muitos anos. Quero amor, sincero, por favor. Quero isso e muito mais Por tudo que há de mau no mundo, eu mereço o máximo do bom. Sem culpa”. Sopro uma vela imaginaria no ar e envio os meus pedidos ao céu.
Estou cansada, muito cansada e triste. Parece que é uma lei universal ficar triste no dia em que se foi mandado para o mundo “Vai lá, seja forte, ou enlouqueça”. Por isso e por outros motivos vou finalizar esse texto, que nem ficou bom, mas que precisou ser escrito para que eu não enlouqueça.

P. S - Eu não sei aonde eu vou estar no próximo dia do infinito, espero estar viva. Não sei se estarei sentada nesses mesmos degraus, contudo, lembrarei do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.