30 maio, 2015

Prisão Transparente


imagem: Susano Correia

Chamava-se Liberdade, mas não era livre.
As pessoas sempre esperavam dela independência, autonomia e espontaneidade.
Espantavam-se com a sua utopia, mesmo assim buscavam-na.
A primeira vez que vi a Liberdade eu estava debruçada sobre a janela, e achei que a tinha percebido quase por inteira só porque ela estava indo embora. Eu senti um vazio no peito, e mergulhada em um silêncio solitário que vinha de dentro tentei falar a Liberdade que a amava, mas a garganta engoliu secas as palavras. As tantas coisas que eu gostaria de ter dito aquela Liberdade antes que ela fosse embora ficaram caladas, porque eu nunca soube ao certo como seriam ditas ou recebidas.
Algum tempo depois, eu a vi novamente. Entregou-me um bilhete, disse-me que era algo triste, mas que eu precisava ler.
Tem uma parte no bilhete escrito pela Liberdade que nunca irei esquecer. Diz o seguinte:
Cuidado com os monstros. Eles andam em bandos, se nutrem da vitalidade de outros seres, seus olhos são arregalados de retinas esbranquiçadas, a língua pende das bocas como vísceras de cobras. Chifres descem do alto da cabeça e se alojam nas vertebras da coluna. Cuidado com a sociedade, esse ser auspicioso, ele cobra caro por sua vida.

Quando terminei de ler senti vontade de chorar, mas percebi que ela desejava que eu fosse forte. Coloquei o bilhete no bolso e fui embora pensando: Um desses dias eu irei encontrar a Liberdade e meus braços não serão suficientes para abraçá-la por inteira

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