30 maio, 2015

Prisão Transparente


imagem: Susano Correia

Chamava-se Liberdade, mas não era livre.
As pessoas sempre esperavam dela independência, autonomia e espontaneidade.
Espantavam-se com a sua utopia, mesmo assim buscavam-na.
A primeira vez que vi a Liberdade eu estava debruçada sobre a janela, e achei que a tinha percebido quase por inteira só porque ela estava indo embora. Eu senti um vazio no peito, e mergulhada em um silêncio solitário que vinha de dentro tentei falar a Liberdade que a amava, mas a garganta engoliu secas as palavras. As tantas coisas que eu gostaria de ter dito aquela Liberdade antes que ela fosse embora ficaram caladas, porque eu nunca soube ao certo como seriam ditas ou recebidas.
Algum tempo depois, eu a vi novamente. Entregou-me um bilhete, disse-me que era algo triste, mas que eu precisava ler.
Tem uma parte no bilhete escrito pela Liberdade que nunca irei esquecer. Diz o seguinte:
Cuidado com os monstros. Eles andam em bandos, se nutrem da vitalidade de outros seres, seus olhos são arregalados de retinas esbranquiçadas, a língua pende das bocas como vísceras de cobras. Chifres descem do alto da cabeça e se alojam nas vertebras da coluna. Cuidado com a sociedade, esse ser auspicioso, ele cobra caro por sua vida.

Quando terminei de ler senti vontade de chorar, mas percebi que ela desejava que eu fosse forte. Coloquei o bilhete no bolso e fui embora pensando: Um desses dias eu irei encontrar a Liberdade e meus braços não serão suficientes para abraçá-la por inteira

27 maio, 2015

Desvida.


Imagem: Yoko Tanji



Sabe o que não mudou na minha vida durante todos esses anos? O gosto amargo da “desvida”. É, eu acordar triste e solitária mesmo eu não sendo triste e solitária. A “desvida” são as milhares de histórias de amor que ouvi e vivi durante a minha vida. Essas histórias me fazem mal.
As histórias de amor me fazem mal, porque durante a sua escrita eu penso e repenso e desejo e anseio que a minha história de amor seja plena e eterna, e não estou falando do “eterno até que dure” e sim do eterno no seu contexto mais literal... Para todo o sempre!
E não adianta você me dizer que o “Para todo o sempre” não existe, pois eu irei acreditar nele mesmo assim, porque a parte do meu ser que vive no mundo irreal vai continuar acreditando firmemente nessa frase.
Eu que sempre preguei que a gente não precisa de outra pessoa para sermos completos, admito que: precisamos sim! De outra pessoa, mas para dividir as alegrias, os sonhos, e até as infelicidades. Precisamos de amor para viver, sem amor não há vida.
Já dizia Rubem Alves: “Quando você encontrar a outra metade da sua alma, você vai entender porque todos os outros amores deixaram você ir. Quando você encontrar a pessoa que REALMENTE merece o seu coração, você vai entender porque as coisas não funcionaram com todos os outros”. Esse pensamento me acalma a alma...
Perfeito-Imperfeito.
Para viver eu preciso acreditar no “Para todo o sempre”, mas principalmente tenho que aprender a suportar a dor da separação, porque “amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça”.
Não há como garantir nessa vida que teremos amor, porque confundimos muitas vezes a chama da paixão com a tranquilidade do amor, e quando essa chama cessa o coração morre um pouquinho.
Colorido-Dolorido
A “desvida” acaba comigo, mesmo eu estando com alguém, em algum momento ela vai chegar e me matar. Jogando-me na solidão exasperada do meu ser e derrubando todas as minhas defesas. E as imagens vivenciadas, como nossas mãos dadas, que eram para serem lembranças felizes começaram a me deixar sem ar. Esse é o medo de perder o momento se instalando na minha cartilagem “almetica”.
Doce-Amargo.
No meio de toda essa “desvida” de hoje eu aprendo. Toda dor é um aprendizado a ser seguido. E sei, sei que a “desvida” vai passar, mas que também vai voltar. Mas, veja só... Enquanto eu escrevia esse texto ela começou a ir... E quando ela vai eu posso voltar para ele com mais sede de ser uma pessoa melhor. Posso voltar para mim mesma quase completa novamente.  
E assim viverei, para todo o sempre...
Vida-Desvida