02 abril, 2015

Amor doce





Hoje foi mais um dia, um feriado no qual passei às 24 horas trancada no quarto lilás lendo e escrevendo. Tenho que ler muito e escrever muito, porque o meu futuro profissional depende dessas minhas leituras e dessas minhas escritas. Então fui ler Platão, Freud, Giddens e Barthes para compreender o envolvimento amoroso, a paixão que arde sem se ver. É preciso compreender a loucura que é o amor para a produção de um artigo universitário, é preciso compreender a loucura do amor para que eu também não enlouqueça um dia. 
Em meio às citações dos grandes filósofos escrevi que “o amor está ligado a carência e falta, assim a necessidade do outro se dá de forma eminente, como meio de suprir, completar-se. Nesse viés, o amor romântico torna-se uma busca incansável, pela proposta de felicidade, bem-estar e satisfação que ele sugere, de modo que a recompensa valerá os sacrifícios que os amantes enfrentarão até o tão desejado encontro. Essa busca torna-se instigante, visto que o homem está sempre em constante busca, essa que motiva e sustenta a vida, uma que a satisfação plena levaria o homem ao fado, e o amor como sentimento imperfeito e falho, permite-nos uma labuta árdua, geralmente dolorosa, no entanto prazerosa, que nos sustenta e mantém”. Escrevi e me senti mortalmente triste, porque eu vivencio a busca amorosa sem muitas  esperanças, ok, muitos dirão que eu ainda sou muito jovem e que um dia, talvez, quem sabe, alguém irá me amar no estilo do amor romântico descrito por Giddens, um sentimento puro e revigorante.
Eu não sou uma expert no quesito amor, na verdade nesse quesito eu só levei porrada de realidade, até chegar ao estado do desacreditamento amoroso.  Certa vez amei, certa vez fui amada, encontrei o amor ou o que eu achava que era o amor. Eu era uma garota que acreditava profundamente no amor, que acreditava que existia alguém para mim, a minha outra metade... Então um certo dia eu finalmente o encontrei, tivemos uma bela relação, mas foi uma relação fugaz, deu tudo errado e desde então temo que ele tenha levado junto com ele a minha capacidade de acreditar. E por isso, por ele ter levado embora a minha capacidade de acreditar eu o odeio. Agora eu só me sinto fria e perdida no meio do espaço da desesperança do vinculo amoroso. 
Daí eu via os meus amigos e suas relações amorosas, via os meus vizinhos, familiares e estranhos e suas relações amorosas e pensava que talvez o problema fosse eu, que eu não sabia o que era amor ou o que era amar. Eu só  sabia passar os dias inteiros trancados dentro de um quarto estudando, escrevendo, só sabia viver na minha mente ficcional, só sabia me angustiar porque não tinha ao meu lado um grande amor, e em meio a essa angústia e desespero existencial eu não comia, não dormir e não vivia. E todos esses dias dos quais eu morria por dentro por “falta de amor” minha mãe abria a porta do quarto e deixava um bombom em cima do meu livro de cabeceira, em certos momentos ela não falava nada, apenas entrava no quarto e deixava o bombom enquanto eu fitava paranoicamente a parede, calada e sôfrega. Minha mãe nunca foi de me perguntar o porquê do encarar a parede, mas sempre ficava em pé olhando pela fresta da porta até eu comer um pouco da comida que ela havia colocado delicadamente ao lado da cama, depois sussurrava  “tem um doce para você em cima do livro” deixar um bombom diariamente para mim ela o seu jeito discreto de adoçar a minha vida enquanto eu a afastava por ignorância humana.
Certo dia quando cansei de olhar para o vazio da parede de concreto e fitei o meu livro de cabeceira nenhum bombom enfeitava a sua capa, senti um medo imenso quando não vi o bombom e não sentir a presença da minha mãe me espiando quieta. Nesse dia eu finalmente levantei da cama depois de meses e encontrei  a minha mãe doente no quarto. Rapidamente entrei no quarto  e deixei um bombom ao lado dela na cama e enquanto ela dormia eu velei o seu sono como uma mãe vela o sono de um filho. O bombom ficou ali até ela melhorar, e eu também. E quando ela finalmente abriu e comeu o bombom eu soube lá no fundo do meu peito o que era amor. E é esse o amor que me mantém viva,  esse é o único amor que me faz sorrir e não chorar, o amor doce com M de mãe. 


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