21 março, 2015

O dia em que eu fui embora



Imagem: Eriks Kuhn


E quem vai salvar você quando eu me for? E quem vai cuidar de você
quando eu me for?

Certa vez li que ficar triste é sempre pela primeira vez. Realmente, essa é uma verdade universal, quando ficamos tristes mesmo que seja pelo mesmo motivo, o jeito que a tristeza chega e vai embora é sempre diferente e sempre pela primeira vez. Ontem eu sonhei que você morria, e lá estava eu em um quarto branco segurando a sua mão até o seu último suspiro, depois o cômodo trasbordava em água das lágrimas que eu chorava, eternamente.
Daí acordei meio embargada e triste, sentindo no peito aquele velho aperto que a gente não sabe se é fome causada pelo desentendimento da vida ou sintoma de amor. Eu acordei e o dia seguiu normalzinho, e eu sentindo você perto, e eu sentindo você chegando, porque quando você vem sem me pedir permissão para entrar novamente na minha vida eu sinto lá no fundo da alma a sua presença indesejada.
Mas aí, você chegou de mansinho fingindo que o barco não tinha afundado e me perguntou a única coisa que não se pergunta a alguém que é deixado “Você continua aí?” E eu estava. Eu permaneci mesmo depois de você ter deixado claro que nós dois não éramos e nunca seriamos nada um do outro “Não somos amigos! Não somos nada!”. Mesmo assim, eu seguraria infinitas vezes a sua mão no meio de qualquer caos, mesmo assim, seria eu a correr primeiro em sua direção em um dos piores momentos da sua vida, porque felizmente eu possuo uma alma e um coração.
Diferente do que você deva pensar, eu não sou uma máquina sem sentimentos. Eu tenho muita alma e muito coração! Você acha que eu suportei o seu abandono regozijada, fria e insignificante? Não! Eu senti o seu abandono doer no menor músculo do meu corpo, na menor partícula do meu ser. O seu abandono e a sua frieza tornaram por muito tempo a minha vida cinza e triste.
Foi tão fácil você me deixar. Você me deixou como se eu fosse só mais uma coisinha na sua vida que você usa pra não sentir saudade. Você me deixou como se deixa um animal leproso, abandonado, sozinho e infeliz – sem nenhuma explicação. Você me deixou todas as vezes que eu precisei racionalmente de você. Você manipulou a minha vida e o meu ser até o último pingo de sanidade, depois me deixou...
Talvez eu também devesse ter te deixado! Mas eu não conseguir! E a única coisa que você fez quando eu não te deixei foi me olhar de canto de olho, se perguntando que raios eu estava fazendo ali, ainda ao seu lado, depois de tantos anos e tantos enganos. Eu continuava ali apenas querendo te olhar...
Depois você começou a namorar uma menina, e eu finalmente decidi ir embora para sempre! Te deletei da minha vida e você passou a ser só mais um cara desconhecido que de vez em quando eu cruzava na rua.
E agora FINALMENTE, eu não sinto falta do seu amor, ele nunca existiu e nunca vai existir. Eu o amava com o espirito que se dirigiam ao seu como iguais. Até hoje de manhã, quando eu decidi ir embora pela primeira vez sem dizer nada e sem sentir nenhuma pena nisso.


Nenhum comentário:

Postar um comentário