14 janeiro, 2015

A frase tecida.


Imagem: Paula Bonet


Ontem quando ele me disse a única frase que eu esperei a vida toda para ouvir de alguém “Eu gosto de você do jeito que você é, maluca e maluca” – eu me senti inteiramente estranha, de certa forma porque não sabia o que fazer, eu nunca pensei que chegaria a ouvir essa frase um dia, por isso o meu coração doeu – parou- e voltou a bater. Por um momento, a minha alma ficou estranha como se ela tivesse recebido um choque elétrico de ressuscitação, enquanto a minha mente trabalhava a mil entregando-me palavras e pensamentos para a formulação da resposta, a garganta congelava. Mas ai, eu só conseguia pensar que deveria arrumar a minha mala e levar embora da sua vida a minha bagagem mais que pesada, e o meu coração surrado e cansado.
            Primeiramente, porque eu não sou em sua vida nada mais do que uma intrusa, segundo porque eu tenho medo de tecer. Eu sei que tecer é fácil, basta apenas começar ligando devagarinho um fio a outro. Mas, eu me sinto tão cansada de tentar começar a cerzir uma matéria que talvez se desgaste no final. Hoje eu lembrei da dor do fim da matéria cerzida, é uma dor pior do que a dor da morte “Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retorno para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo - tudo segue. E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes”.
            Então eu te disse que me doíam todas as tentativas de cerzir uma matéria, e todos “esses chamados que quando vinham não traziam nem a palavra e ás vezes nem a pessoa certa”. Perguntei se tu achavas que essa minha loucura me doía, e se iria doer em você também, e você me disse novamente que gostava de mim do jeito que eu sou, nem menos normal ou “desanormal”. Eu não disse nada. Mas eu chorei, por dentro e por fora. E pensei mesmo que eu deveria ir embora, porque daqui a uma semana eu estaria esperando uma mensagem que não chegaria, uma frase que não seria dita e um encontro não marcado. Embora eu estivesse desejando tecer fio por fio o telefone permaneceu em silêncio no silêncio. O frio continuou frio. E a noite escura continuou escura. Pois, sabia que diante de todos os de repentes eu estaria abrindo as asas para um desconhecido intangível para ti.
            Um dia você me disse que esperaria com animo uma crônica minha para você, a crônica finalmente chegou, não sei se boa ou ruim, ou se ela possui toda a verdadeira carga dos meus pensamentos, só sei que teci essas palavras no meio do silêncio no silêncio. No fundo eu não sei se as pessoas se tornam realmente responsáveis por aquilo que cativas, só sei que os cativados sim. Eu vou viajar por meio  dos pinheiros brancos e desejar durante toda a caminha encontrar um canto para chorar sem dor. E mais tarde, bem mais tarde eu te direi rindo que não sabia tecer ou cerzir uma matéria sozinha, uma matéria que não é minha. 

Citações:
*Caio Fernando Abreu

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