26 janeiro, 2015

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Tecendo a vida



Imagem: Regian Rocha



Coração na mão
Como um refrão de um bolero
Eu fui sincero como não se pode ser

Acordo ainda muito sonolento, o despertador toca uma melodia insuportável enquanto busco com dedos ágeis o aparelho celular em meio à imensidão do colchão branco que está preenchido somente pelo meu corpo cansado. Começou a amanhecer recentemente, por isso ainda sinto uma mistura de sono e cansaço, pois a noite não foi suficiente para recuperar a minha energia humana. Ultimamente ando muito cansado, tenho trabalho demais, estudado demais, mas no fim das contas tenho o cansaço como o principal caminho a ser percorrido na obtenção do meu sonho. O cansaço é o mais puro sinal do meu esforço de sobrevivência e amor. Amor pela vida, pelo o que desejo, pelo o que faço e para quem o faço.
            Intangível sobressalto da cama e caminho vagarosamente até o banheiro. Já embaixo do chuveiro deixo a água levar embora o meu cansaço físico enquanto entoou desvairadamente uma música dos Engenheiros do Havaí, cantar sempre anima o dia da gente. No guarda roupas escolho dentre as varias camisas sócias uma na cor azul clara, e também uma gravata preta. Visto-me rapidamente, não tenho tempo a perder, o meu dia é cronometrado. Quando entro no elevador o espelho ao meu lado reflete o rosto de um homem pálido e de sobrancelhas espessas, a barba por fazer, a simbólica aparência de um futuro advogado um pouco cansado da cronometração diária do seu viver, mas, vejo principalmente a figura de um homem com muita esperança de tecer dias, sonhos, realidade!
            Quando finalmente o elevador para caminho a passos longos até o carro. Entro e jogo a mochila sobre o acento do passageiro, é hora de enfrentar o trânsito caótico. Na estrada, pelas janelas do carro observo o céu limpo da cidade suja. O sol tenta nascer confuso em meio a prédios amontoados uns sobre os outros, que separam vidas de outras vidas.  A cor roxa toma conta do céu, mas prefiro quando ele está alaranjado, é quando posso retornar para casa, para a minha família que não está aqui comigo, mas que vive em meu coração e na minha alma. É para eles que conto sobre as cores do céu, como contava sobre o frio que sentia na infância, quando também acordava cedo e  subia uma serra para tirar leite do gado. Nessa época, o céu também continha uma tonalidade roxa, mas o sol nascia livre em meio às árvores.
“E o anjo pálido troca o mel pelo sal”
            Dentro do escritório encaro os ponteiros do relógio, o tempo passa lento. Sabe, penso as vezes que, quando o tempo passar um pouco mais rápido me surpreenderei com o seu resultado e pensarei assustado: “Eu era muito pálido nas manhãs, e queria mais de mim”. Sei também que, irei lembrar-me da época em que, “Olhando para cima, descobri entre o roxo e o alaranjado das nuvens um anjo também pálido, magro e de barba por fazer, vestido de negro, com um leve sorriso nos lábios, vertendo uma gota de mel sobre nossas cabeças. Não prestei atenção nele. Me deixava levar, guiado  apenas  pelo  jardim  que  entrevia  pelas  frestas  dos  tijolos,  nos muros-palavras    erguidos   entre   nós,  com   descuido   e  precisão.  Viriam depois, mais muros que os de palavras, muros de silêncio tão espesso que nem mesmo os demorados exercícios de violão, as notas repetidas e os dedos distendidos, conseguiriam derrubar”.
            A minha fome, muitas vezes a mato pela rua, procuro alimento em alguns locais imprevisíveis. Gosto muito de comer em silêncio observando o outro, ou apenas pensando nos lírios que eu não colhi ontem. Eu deveria ter os colhido, mas pensei que ficariam mais belos ali no meio do terreno baldio. Eu sempre poderei olhar os lírios ao voltar para casa. Se eu os arrancar-se eles morreriam solitários no meu apartamento. Bem, é hora de parar de pensar nos lírios e retornar ao trabalho.
            Chego em casa ao anoitecer, exausto! Tiro os sapatos e fico sentado na varanda por alguns minutos. Minha mente me traz lembranças da infância, a garganta aperta junto com o coração, é o sinal da saudade visitando o meu peito. Ah! Quem me dera agora está nos braços da minha mãe, ouvindo o seu riso, sentindo o seu cheiro de amor. Lembro uma vez em que ela me olhou seriamente e disse “Meu filho, ninguém te ensinará os caminhos, os caminhos estão dentro de você. E você sempre saberá qual seguir”. E lembrei de uns versos de um poeta conterrâneo: “Vida que é vida galga um mundo em poesia. Vida que é vida vale a pena ser vivida!”.
            É isso, a vida tem que ser vivida mesmo na exaustão. Vida é esperança. O caminho certo sou eu. E mesmo que às vezes todo mundo me cobre o meu viver exposto, eu apenas o terei de dentro para fora, como o céu nascendo discreto em meio às árvores de folhas verdes, pois a vida é um conjunto de experiências para serem apreciadas e não sobrevividas. Teceres com calma os dias. Usarei seus pequenos fios para costurar o meu crescimento. Eu sei, sei que tecer não é fácil às vezes, mas pegamos o jeito com o passar do tempo.
***
            Deixa-me te usar para escrever, isolando as cobranças, mexendo fundo no meio dessa solidão. Deixa-me escrever sobre você, eu vou escrever sobre o que vier de dentro para fora, caso contrário não vai prestar. Eu uso muito os outros para escrever, eu remexo muitos em suas vidas, eu os olhos de perto e os sinto, os vivo. E a única recompensa de escrever sobre os outros é o sentimento de vida. Eu não o olhei de perto, mas posso escrever sobre você roubando a sua essência solitária.
Amanhã eu irei acordar cansado, mas tendo esperanças novinhas. E sem medo de viver plenamente.

E eu vou escrever que “Eu quero te ver com saúde / sempre de bom humor / e de boa vontade”.  

Inspirado na vida de Regian Rocha. Ok, com um bom fundo ficcional, é claro! 

18 janeiro, 2015

Atormentado



Meu coração que acalma
Fantasma nos lençóis
Eu sei que se eu estou te assombrando
Você deve estar me assombrando

Eu serei a tua pior tormenta.
Serei a insônia e a saudade batendo a porta.
Quando o vento soprar ele trará o meu perfume
 para envenenar as tuas narinas. 

Quando o vento  tocar o seu corpo
você irá recordar do meu toque impiedoso,
linda e louca traçando linhas invisíveis na seda vermelha.

Aparecerei em seus sonhos com olhos profundos
carregando-o para abismos nunca vistos antes.
Serei o buraco no teu peito mal preenchido,
Você não conseguirá respirar,
roubarei o seu ar, depois 
mancharei a sua alma com o batom vermelho escarlate.

Sendo o seu tormento,
Mãos na pele firme.
O seu tormento, Sendo o seu tormento.

Vestindo a sua pele com a camurça da nudez,
Embriagando-o com o meu vinho
Que eu derramo em gotas pelos quatro cantos do teu corpo. 
Sendo o seu tormento.

"Reprise" - 2013




14 janeiro, 2015

A frase tecida.


Imagem: Paula Bonet


Ontem quando ele me disse a única frase que eu esperei a vida toda para ouvir de alguém “Eu gosto de você do jeito que você é, maluca e maluca” – eu me senti inteiramente estranha, de certa forma porque não sabia o que fazer, eu nunca pensei que chegaria a ouvir essa frase um dia, por isso o meu coração doeu – parou- e voltou a bater. Por um momento, a minha alma ficou estranha como se ela tivesse recebido um choque elétrico de ressuscitação, enquanto a minha mente trabalhava a mil entregando-me palavras e pensamentos para a formulação da resposta, a garganta congelava. Mas ai, eu só conseguia pensar que deveria arrumar a minha mala e levar embora da sua vida a minha bagagem mais que pesada, e o meu coração surrado e cansado.
            Primeiramente, porque eu não sou em sua vida nada mais do que uma intrusa, segundo porque eu tenho medo de tecer. Eu sei que tecer é fácil, basta apenas começar ligando devagarinho um fio a outro. Mas, eu me sinto tão cansada de tentar começar a cerzir uma matéria que talvez se desgaste no final. Hoje eu lembrei da dor do fim da matéria cerzida, é uma dor pior do que a dor da morte “Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retorno para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo - tudo segue. E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes”.
            Então eu te disse que me doíam todas as tentativas de cerzir uma matéria, e todos “esses chamados que quando vinham não traziam nem a palavra e ás vezes nem a pessoa certa”. Perguntei se tu achavas que essa minha loucura me doía, e se iria doer em você também, e você me disse novamente que gostava de mim do jeito que eu sou, nem menos normal ou “desanormal”. Eu não disse nada. Mas eu chorei, por dentro e por fora. E pensei mesmo que eu deveria ir embora, porque daqui a uma semana eu estaria esperando uma mensagem que não chegaria, uma frase que não seria dita e um encontro não marcado. Embora eu estivesse desejando tecer fio por fio o telefone permaneceu em silêncio no silêncio. O frio continuou frio. E a noite escura continuou escura. Pois, sabia que diante de todos os de repentes eu estaria abrindo as asas para um desconhecido intangível para ti.
            Um dia você me disse que esperaria com animo uma crônica minha para você, a crônica finalmente chegou, não sei se boa ou ruim, ou se ela possui toda a verdadeira carga dos meus pensamentos, só sei que teci essas palavras no meio do silêncio no silêncio. No fundo eu não sei se as pessoas se tornam realmente responsáveis por aquilo que cativas, só sei que os cativados sim. Eu vou viajar por meio  dos pinheiros brancos e desejar durante toda a caminha encontrar um canto para chorar sem dor. E mais tarde, bem mais tarde eu te direi rindo que não sabia tecer ou cerzir uma matéria sozinha, uma matéria que não é minha. 

Citações:
*Caio Fernando Abreu

04 janeiro, 2015

O Melhor de Mim


Que legal! Sidy Batalha está fazendo parte do livro O Melhor de Mim - Poesias Escolhidas Vol II. Um projeto que engloba escritores do Brasil, França, Espanha, Portugal, Argentina, Uruguai, México, Áustria, e Galiza. Um ideal que teve início com a Libertária e foi abraçado pela editora Poesias Escolhidas. 
Segue a baixo o link da editora e da Libertária - a página de poesias mais famosa do Brasil. 
https://www.facebook.com/libertariapoesias
https://www.facebook.com/PoesiasEscolhidas


Organizador: Rodrigo Ricardo 
Editora: Poesias Escolhidas Editora
Preço: R$ 30,00
Descrição:
Depois do sucesso do VOZES DE UMA ALMA o Projeto Poesias Escolhidas se expande para incluir 174 poetas do Brasil e do Uruguai, Argentina, México, Portugal, Espanha, França e Áustria. Essa mistura cada dia mais diversificada conta ainda com escritores de 8 a 80 anos de todas as profissões imaginadas para compor um conjunto relativamente impossível. 272 páginas.
 Comprar: http://peeditora.facileme.com.br/catalogo/poesia/omelhor

03 janeiro, 2015

O não milagre de hoje.






Estive guardando essas últimas palavras para um último milagre,
 Mas agora eu não tenho certeza se ele acontecerá um dia.

“Amanhã eu vou encontrar o amor da minha vida, ou apenas outro idiota”.
“Por que você é sempre tão pessimista?”
“Na verdade, sou realista!”

Faz duas horas que estou sentada em uma mesa, esperando um cara que não vem. É, levei um bolo, e não gostei do sabor do recheio. Agora, é a hora em que a minha amiga me telefona para saber como foi o encontro, e surpreendida com a resposta exclama um “Ai, como é que um homem pode te dar um bolo?” Como se eu fosse uma mulher milimetricamente perfeita, e nenhum homem pudesse não me querer. Inocência dos amigos.
Sentada nessa mesa, sinto-me constrangida e infelizmente infeliz. Não foi hoje que o milagre do amor surgiu na minha vida, e nem sei se vai aparecer um dia, começo a acreditar que não fui feita para ninguém. Que pensamento triste, mas, ao mesmo tempo tão verdadeiro.
Eu odeio quando um cara destrói a minha autoestima, principalmente um que eu não conheço. E é nesse momento em que eu preciso entender o porquê de nós mulheres padecemos tanto com essas ânsias tolas que nunca passam. Sempre esperando algo mágico, um amor que nunca vem, que não apareceu na fila da padaria ou na do supermercado, nem naquela festa bacana que você foi no fim de semana. Por que nos mulheres temos que criar os cenários e as historinhas imaginárias em nossas mentes tolas e românticas? Ou, por que passamos horas em frente a um espelho escolhendo a roupa perfeita para um encontro jamais perfeito.
Deve ser porque todo esse ritual aparentemente simples e bobo faz parte da magia da alma feminina. Sem esse maldito desejo de encontrar um cara legal na próxima esquina que você vira indo ou vindo do seu trabalho, não haveria a esperança da sua existência fazer parte de outra existência.
De quem é a culpa da não morte da esperança? Sua, minha, ou da Disney? Não sei, só sei que estou me dando ao luxo de ser tola pela primeira vez no ano, enquanto uma mulher que estar sentada na mesa ao lado conta para a amiga sobre o amor que tudo espera, que tudo suporta, que tudo... blá blá blá, a vá!


Tá na hora de levantar dessa mesa e voltar para casa, ouvir dos amigos o eterno clichê “Isso passa” “Um dia aparece”. Sim! Eles tem toda a razão, um dia esse sentimento de falta vai passar e algo muito triste vai acontecer, eu não vou mais ter a esperança de amar ninguém! 

*Texto inspirado no desabafo de uma amiga.