18 dezembro, 2015

Carta para o amor que vai chegar





Meu amor,
Olá, como você está?
Já é dezembro
Já, já o ano acaba e mais uma vez,
Eu estou sem você, estamos sem nós.
É época de festas, mas eu estou cansada
Dessa badalação toda, dos abraços frios, dos copos vazios,
De voltar, no fim, para casa sozinha.
Talvez você também esteja cansado disso tudo.
De segurar várias mãos e nunca encontrar o encaixe perfeito,
De procurar um mínimo preenchimento possível
Nos ritmos acelerado das músicas noturnas
No gosto do álcool tragado pela troca de saliva.
Talvez no outro dia, quando você acorda, pensa - enquanto calça suas meias
- “onde ela está” e quando sai, mais uma vez, para o trabalho
Em meio a uma cidade fria e solitária espera, enfim, cruzar comigo em
Alguma esquina, assim como eu espero o mesmo.
Mas nosso encontro nunca acontece e isso destrói aos poucos a
Nossa pequena esperança.
Meu amor,
Você pode me ouvir?
Eu estou esperando por você,
Por favor, me reconheça.
Meu amor,
Eu só quero que você saiba que vou esperá-lo,
Assim como disse o poeta “eu vou ficar esperando
você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma
praça então os meus braços não vão ser suficientes para
abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa
que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você
sem dizer nada só olhando e olhando”... 

13 dezembro, 2015

O fim de tudo


Imagem: Merska



É fim de ano e mais uma vez fui fraca e chorei depois de ter prometido a mim mesma que durante o resto deste maldito ano eu não derramaria mais nenhuma lágrima de amor, desamor ou raiva. Contudo, não consegui evitar.  Você sabe que eu sinto tudo infinitamente aqui no meu coraçãozinho maleável, e quando ouvi a letra da música que me deixa profundamente para baixo “você me avisar, me ensinar, falar do que foi pra você, não vai me livrar de viver !”... chorei os  43 km de volta para casa, pensando mil coisas que não faziam sentindo enquanto disfarçava as lágrimas usando o velho ray-ban.

Chorei porque naquele momento eu estava me sentindo a pessoa mais burra do mundo, academicamente falando. Chorei porque  fui abandonada por um homem que me manipulou de uma maneira cruel. Burra! Burra! Burra! Deveria agradecer a Deus por esse livramento, mas só soube chorar. Burra! 

Sabe, apesar de eu ser fria vez ou outra ainda caio no conto da carochinha conhecido como “Felizes para sempre”. 

Chorei porque você morreu há cinco anos e me deixou aqui nesse mundo caótico sozinha e amarga. Chorei do cansaço profundo de tudo e “Chorei de apego ao cheiro do novo e principalmente de melancolia pelo cheiro do velho. E chorei porque tudo envelhece com novos cheiros e a vida nunca volta. Eu chorei de pavor da rotina, de pavor do fim, de pavor de sair da rotina e começar outros fins”.

Mas, o principal motivo desse choro foi e é o não saber o que fazer da minha vida. É eu ter perdido o foco dos meus sonhos durante todo esse tempo em que passei buscando amor nos outros. De ter visto aquelas pobres crianças de rua descalças e com fome e não conseguir fazer muita coisa por elas. Chorei porque eu descobri que eu, como todo ser humano, também tenho limitações.

Só neste ano eu fui parar no hospital cinco vezes com sintomas de três  "doenças” diferentes. Só neste ano eu tomei vários analgésicos para conseguir lidar com a pressão pesadíssimas de um mestrado que está acabando comigo. Só neste ano deixei a deriva diversas amizades que de alguma forma não estavam me fazendo o bem que eu tanto precisava. Se as pessoas podem me abandonar, eu também posso abandonar quem eu quiser sem um pingo de dó e nem piedade!


Chorei porque sou uma perdedora...

Chorei o fim de tudo isso, essa loucura que foi 2015 e que é a minha vida. Assim é a vida, uma morte a cada dia, sua ou minha. Chorei porque vi em você o meu enlouquecer, mas decidi continuar sã e fui embora sozinha, mais uma vez. 

* Citações da Tati Bernadi e Los Hermanos. 

07 novembro, 2015

A sua falta


Imagem: Dorothy Monet



É estranho. É muito estranho encontrar você depois de tantos anos, vê esse rosto tão familiar, esse riso de chuva e perceber que tudo não passa de uma abstração. É estranho. É muito estranho estar diante do primeiro grande amor da minha vida e não poder falar nada, porque agora, somos apenas dois estranhos dentro de uma vida nova, onde o espaço para ambos é inexistente.

Por que já não podemos conversar? Talvez pelo o que aconteceu no passado, quando desfalecemos em dor e o sentimento que nos unia se transformou em uma grande ferida infeccionada por anos de desentendimento e orgulho.

Agora, é tarde. É muito tarde para esquecer toda a nossa crueldade cuspida acidamente contra nós mesmos. Então, vamos continuar sentados nessas mesas de bar, bebendo cervejas geladas, rindo dos disparates dos nossos amigos, e nos evitando olhar nos olhos enquanto vasculhamos um ao outro com nossas retinas aceleradas. Isso foi o que restou pra gente, é o que merecemos por termos cometido o erro de dar valor a tudo, menos ao amor.

Onde vamos parar? Separados?!
O que faremos com essa dor, com esse vazio que os anos não levam embora?

Não. Não podemos mais regressar, eu não suportaria mais me desmanchar em lágrimas enquanto  à noite alonga-se. Não aguentaria mais perder sonhos. Não aguentaria mais triturar o meu coração. Não aguentaria mais ficar em pedaços. Por isso, só nos resta à indiferença.

Oi, Estranho. 

.



10 setembro, 2015

A pequena gigante






Tua graça abunda nas mais profundas águas
Tua mão soberana, será minha guia
Onde meus pés podem falhar e o medo me cercar
Tu nunca falhaste e não o farás a partir de agora ♡❤♪♯

A primeira vez que a vi foi rapidamente, ela passou entre um dos corredores da grande casa amarela. Eu nada disse, apenas a olhei, mesmo assim tive a certeza de que nos falaríamos um dia. Quando cresci um pouco, finalmente a conheci por meio das palavras literárias o que impôs uma maior aproximação entre nós. E a partir desse momento eu soube que jamais a esqueceria, principalmente porque eu não desejava isso.

Agora, estamos sozinhas aqui dentro dessa sala branca e sem ar. Eu a olho, suas pequenas mãos se movem sobre o teclado preto buscando letras, talvez números, pois é preciso tabelar a vida antes do fim do dia. Suas mãos tremem um pouco e uma lágrima deseja fugir das suas retinas, mas ela não a deixa sair, talvez porque já tenha chorado demais esses últimos dias e sua alma já foi lavada, ou simplesmente ela encontrou uma maneira eficaz de vencer o mais novo gigante impiedoso que apareceu em sua vida. Sim, acho que deve ser isso. Ela tem cara de quem coleciona gigantes dentro de um pequeno armário cinza trancado a chave, pois, ela só o abre quando deseja lembrar que as batalhas foram difíceis, no entanto, apesar de a cada esquina da vida o novo gigante parecer maior , ela não recua. Avante! É o seu lema.

Continuo a observá-la. Percebo que ela é perfeita, contudo, dispunha de uma dor nas costas causada pelas lutas, mas quem não possui essa terrível dor? Todos! Todos possuímos a terrível dor colunar de carregar pesos humanos encravados em nossas veias e em nossos ossos vitais.

Então, em meio ao meu observar e pensar ela me olha com os seus olhos gentis, seus lábios abrem-se amáveis em um sorriso, desses dirigidos a um fotografo de aniversário, de uma menina de cabelo curto e cacheado e dentes pequenos sorrindo amorosamente para a vida. Uma pequena gigante – pensei e logo confirmei com o sorriso que tudo ficaria bem.

E antes de sair daquela sala eu gostaria de ter dito a ela uma porção de coisas, assim que não se dizem costumeiramente, sabe, “dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?” Falta muito pouco tempo, e se eu não falasse agora talvez não falaria nunca mais,  mas eu não falei. 

Queria ter dito sobre as coisas mais fundas, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas dores nas costas, e dedos nos teclados negros. Eu queria ter te dito naquele dia que “Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos”. Que sempre que a vejo eu sinto a coragem emanar do seu peito. Dizer que “as coisas vão dar certo. Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz – se não tiver, a gente inventa.
Te  feliz. Te quero sem melancolia nenhuma”. E o principal, nenhum gigante é tão grande ao ponto de você não conseguir derrotá-lo.


07 setembro, 2015

O Curioso caso dos idiotas





Houve um tempo que eu
Pensei que você fazia tudo certo
Sem mentiras, sem erros
Garoto, eu deveria estar fora de mim
Então, quando penso que houve uma época em que quase te amei
Você se mostrou um idiota e vi quem você era de verdade ♪♩♪♩

Certa vez, eu tive um namorado que disse que eu nunca chegaria a lugar algum com a minha escrita medíocre, que seria muito melhor eu ir lavar uma pia de louça suja do que estar escrevendo. Quando venci o primeiro concurso literário que participei, a primeira frase da minha biografia no livro foi “Você nunca vai chegar a lugar nenhum com essa sua escrita medíocre”.

Continuei escrevendo, nunca parei por causa dele ou por causa de qualquer outra pessoa. E fui crescendo no meio literário, na vida profissional e emocional e ele ... ah, ele foi ficando amargo e coisado, um coiso sem alma e sem amor.

Mas daí chegou outro, quase pior, por mim ele nunca teve nenhum sentimento, nenhum plano; a única coisa que ele teve por mim foi o prazer cruel de me usar e me sugar emocionalmente. Ele sugou a minha vitalidade e me abandonou como se eu fosse uma coisinha qualquer, um objeto facilmente descartável. "- Fiz você pular no nada e agora quero é olhar você toda quebrada". E quebrei, e como doeu a queda. Tudo bem, eu me consertei, demorou um tempo, mas remendei os pedacinhos que quebraram. O tempo me fez conhecer pessoas boas, construí novas amizades, li livros, escrevi, assisti filmes, sorri, cantei e dancei. E ele? ah, ele continua sem nada, sem amor, sem afeto e com um baita medo de não ser ninguém na vida. Coitadinho...

O próximo... ah, esse parecia ser diferente de todos. Mas, nós mulheres sempre dizemos isso “Ele é diferente dos outros” e aos meus olhos ele era, era sim! E é desse que algumas vezes sinto uma baita saudade, mas que logo passa, pois,  é perigoso demais querer ter por perto quem deixou de acrescentar algo bom em sua vida há muito tempo. Você poderia ter sido o príncipe, mas escolheu ser só mais um sapo bonito por fora e feio por dentro. Mais um sapo o qual eu beijei e me envenenou com a sua saliva visceral.

De você eu esperei apenas sinceridade, nada mais...

Sobre os outros dois não vou falar, deveria, contudo cansei de relembrar decepções, decapitações “almaticas”.

Vocês foram terrivelmente cruéis. Vocês foram e continuaram sendo o drama dentro de mim, a próxima seta a direita que leva para a morte, o copo de água sem gelo em uma tarde quente, o assento vazio ao meu lado, o hematoma do lado esquerdo do meu peito.  

Vocês nunca serão, a mão que levanta, o abraço que esquenta, a voz que acalma, a brisa suave em uma tarde quente de verão, o beijo que tranquiliza a alma e o coração. Vocês nunca serão o amor. Graças a Deus vocês não foram o amor.

E para vocês, eu sempre serei a melhor coisa que vocês não tiveram.

P.S - Eu lavei sim aquela pia de louça suja, depois fui escrever sobre você ;)




12 agosto, 2015

6º Avenida


Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos

E o tempo está congelado para sempre


Imagem - Sandro Andrade


O sol quando se esconde
Revela uma noite fugaz,
E um beijo se perfaz em meio
A 6º avenida.

Os braços apertam os corpos,
Os olhos vislumbram as faces cristalizadas.
As narinas sentem o cheiro; o perfume
Que perturbará alegremente e dolorosamente
A mente.

Você, tantas vezes amênico, tantas vezes imprescindível.
Rasga o início do que não era nada.
Eu, tantas vezes reles, tantas vezes depreciada.
Eu, tantas vezes apaixonada, tantas vezes inadequada,
Empresto-te, por um minuto, o hálito da vida.

E em meio aos seus olhos, céu sem estrelas,
Eu me torno prisioneira da 6º avenida de nossas vidas.

11 agosto, 2015

Bipolar





                                                           Imagem: Audrey kawasaki

Eu gostaria de tê-lo
Mas se eu o tivesse
o outro eu não teria.

Eu gostaria de beijá-lo
mas se ele eu beijasse
o outro eu não beijaria

Eu gostaria de tocá-lo
mas se ele eu tocasse
o outro eu não tocaria.

Se nele eu pensasse
no outro eu não pensaria
Mas, se nos dois eu penso
tudo fica tenso e logo
eu os dispenso.

Se um eu amasse
o outro eu não amaria.
Mas, como os dois eu amo
Depois de tantos anos
nenhum eu possuo.

07 agosto, 2015

Marilyn Monroe.


Uma garota sábia beija mas não ama, escuta mas não acredita e parte antes de ser abandonada. - Marylin Monroe. 



Eu sou impaciente e até um pouco insegura.
Não posso mudar isso, vem da minha essência.
Às vezes eu me sinto como a Marilyn Monroe
Com suas crises de ansiedade, paranoia e medo.
Às vezes não consigo nem levantar da cama,
Então o dia se torna nublado – eu estou deprimentemente
Para baixo, assim como a Marilyn Monroe.

Eu não sei qual caminho seguir...

E todos me tocam em busca de um pedaço meu, apenas um pedaço.
Como se eu fosse uma mercadoria eles ofertam o melhor sorriso,
A melhor gentileza, a melhor mentira.
Mas eu não estou à venda!

Eu sou amaldiçoada assim como a Marilyn Monroe.
Não sou perfeita, então me aceite ou desista de mim,
Porque se você não consegue lidar com o meu pior
Nunca terá o meu melhor.

Sorria, acene... Porque você é uma Diva e merece direito ao brilho.
Sorria e beije-o... Depois deixe-o se não ele te deixará antes.
Sozinha, assim como a Marilyn Monroe.

Então eu me ergo. E volto a me sentir nas alturas, tão inalcançável
Que nada, nem ninguém poderá me deter.
E todas elas precisam saber que:
Nenhuma mulher deve esquecer que ela não precisa de ninguém que não precise dela.
 Pois, tudo acontece por um motivo.
As pessoas mudam para que você consiga deixá-las para lá.
 As coisas dão mal para você aprender a aprecia-las quando estão boas.
E às vezes, coisas boas se separam para que coisas melhores ainda se juntem.









04 agosto, 2015

O dia seguinte.


Eu estou com frio e envergonhada.
Eu estou bem acordada e posso ver
Que o céu perfeito está destruído
Você está um pouco atrasado

E eu já estou despedaçada


Imagem: Rimel Neffati

Faz mais de uma hora que acordei, mas não consigo levantar da cama, isso sempre acontece quando me sinto triste e decepcionada. Eu viro a cabeça para o lado e penso que sou uma idiota. Eu viro a cabeça para o outro lado e penso que sou uma babaca. Levanto da cama com ar de defunta, a minha boca amarga como se eu tivesse tomado algo bem ácido e o gosto ficou impregnado na minha língua, e por mais que eu escove os dentes dezenas de vezes o azedo não vai sair por um bom tempo. Eu sei muito bem que gosto é esse, é o gosto da infelicidade, porque a felicidade é pra quem pode e hoje eu não estou podendo nada. Sei lá, mas a vida insiste que eu seja infeliz "amorosamente falando". E só me resta ficar assim, amarga. Vou fazer o quê? Reinventar a minha dor? Criar uma personagem alegre, sorridente, piadista, feliz... não, hoje não.  Eu só quero ficar aqui com a minha tristeza, trancada dentro desse quarto escuro e sem ar.
Por que você tinha que me magoar? Por que você me obrigou a fingir estar viva pra todo mundo ao meu redor enquanto eu queria apenas chorar sozinha trancada no banheiro de casa. Mas eu não chorei. Obriguei-me a sorrir para todo mundo que me olhava com um ar de espanto misturado com pena. Obriguei-me a dançar enquanto eu queria apenas estar dormindo um sono profundo. Vontade de te esmurrar, e dizer que você foi um idiota. Dizer que você  fez eu me senti a pior coisa do mundo, um objeto facilmente descartável que você usou para não sentir dor ou qualquer espécie de saudade.
Uma simples conversa bastaria. Uma simples conversa teria me feito compreender. Mas você não disse nada. E aquilo foi terrível.
E agora é impossível eu não senti uma raiva absurda de você. É impossível que você e os outros caras não tenham matado a minha esperança sobre o príncipe que não é encantado  aparecer um dia. Como eu faço para agradecer? Uma salva de palmas serve? Ok! agora estou aplaudindo de pé o belo espetáculo. Foi friamente lindo. Parabéns!
Sabe, você não era só um cara, estava começando a ser um amigo que me ajudava diariamente a ser mais alegre. E só Deus sabe que no meio de um mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo verdadeiro.
Agora só me resta senti uma falta absurda de você e do nosso laço que estava se fortalecendo aos poucos. Só me resta esperar o tempo passar. Só me resta apagar da memória o seu sorriso branco e amigável. Os seus olhos que se tornam minúsculos quando você ri. A manhosidade do seu corpo. A voz firme e introspectiva ao falar sobre a vida. A voz mais chiante e tranquila ao fazer uma piada. O andado meio confiante, meio desorientado. Do abraço de quebrar mil costelas. E o cheiro do perfume forte, e o natural expelido pela sua pele. Todas essas lembranças irão passar e eu não poderei mais emprestar mistério ao vazio.
Graças a Deus que isso tudo aconteceu no início do nada. Graças a Deus eu ainda permanecia com um pé no chão. Graças a Deus que sou pessimista e não espero mais nada dos “relacionamentos” há muito tempo. Mesmo assim, isso não me impede de senti uma tristeza absurda. É triste saber que a partir de agora você será apenas mais um cara desconhecido que de vez em quando eu vou cruzar pela vida. Que você vai ser apenas mais um ser humano igual a tantos outros que não trazem nenhuma magia para a minha vida.


É triste saber que apesar de tudo eu espero que você seja feliz e vencedor. É muito triste saber que apesar de estar friamente ferida eu não consigo te odiar por completo. E sinceramente, eu espero que você nunca leia esse texto, minhas palavras se encontram muito cruéis e apesar de tudo eu não  quero machucar você com a minha escrita que precisava ser redigida para eu me libertar da dor da ilusão perdida.

19 julho, 2015

O Cientista.


Ninguém disse que seria fácil
É uma pena nos separarmos
Ninguém disse que seria fácil
Mas também não disseram que seria tão difícil

Oh, me leve de volta ao começo ♥♪♩♡❤♪♯


Conto vencedor do 1º Concurso de literatura de Assú - RN

Estou embaixo do chuveiro. As gotas de água batem no meu corpo lentamente. Estou olhando para os meus pés. Vou até o espelho e penteio o meu cabelo cuidadosamente para trás. Ligo a torneira da pia e jogo água no meu rosto, ela se mistura com as lágrimas que não vem. Saio do banheiro e passo pela cozinha. Por um instante tenho um deslumbre dela segurando uma xícara de café, estou com pressa e não reparo. Pego minha pasta e ligo o carro. No caminho até o meu trabalho, olho as árvores, hoje elas estão bastante verdes. “Deve ser primavera”, pensei. Eu não sei bem em que dia estou, porque não tenho mais noção de tempo. Observo algumas crianças brincando no parque.  Reparo em um casal de namorados, eles aparentam serem felizes. Imagino que possuem uma bela história de amor, que talvez eu parasse para ouvir, se não fosse a pressa do dia-a-dia.
Chego ao meu trabalho, não estou atrasado - ao contrário. Nas cadeiras vermelhas ao lado do corredor, rostos sofridos e esperançosos me aguardam. Passo pela senhorita Marta.
- Bom dia Dr. Rafael. – Ela disse cordial.
- Bom dia Marta- Respondo e continuo meu caminho.
       As paredes do hospital são claras, combinam com as pessoas de branco que circulam por elas. Sento na minha mesa e rabisco em um pedaço de papel “Vim para te encontrar, dizer que está tudo bem, dizer que eu preciso de você.” O meu primeiro paciente entra.
- Oi Andrew, tudo bem? Sentiu dores esses dias? – Perguntei inclinando-me para examiná-lo.
A cabeça sem cabelos do menino de doze anos brilha enquanto o examino. Foi difícil contar a mãe dele que o pequeno suportaria apenas mais uns dias de vida. Mas esse é o meu trabalho.
 O dia termina lentamente, pela janela do hospital observo o crepúsculo que se segue. Pego a foto dela da carteira e por alguns segundos a observo.
Passava da meia noite quando a velha poltrona gemeu, então percebi que estava fitando o teto e sentia um prazer enorme em contar as suas rachaduras. Talvez porque eu queria que as horas voassem... voassem - aquela era uma forma de distração. Peguei o papel que havia rabiscado pela manhã e escrevi embaixo “Teu olhar é negro, negro como a noite...”. Era assim que ela definia os meus olhos.
Eu estava encostado na parede, conversando com alguns amigos. Foi quando eu a vi entrando na biblioteca, mexendo em seus cabelos levemente. Entrei logo depois. Ela estava procurando um livro de literatura, me aproximei, mas nada falei, apenas a olhei. Sentia que já a conhecia, mas como? Se aquela era a primeira vez que a via...
 Acordei pela madrugada. “Esse sonho novamente...”. Levantei da poltrona grogue, tentando manter o equilíbrio. “Café” – precisava de lucidez. Resolvo fazer um tour pelos corredores do hospital, então começo a andar com passos curtos e mãos no bolso. “Hoje está tudo tão tranquilo...”, pensei. Nenhuma cirurgia, nenhum paciente de última hora. Já passei dias e noites, horas e horas, e por que não dizer anos, nesse lugar, salvando e perdendo vidas. Odeio confessar isso, mas, há muito tempo minha vida se ressume a esses corredores.
Sento um pouco em uma das cadeiras no canto do corredor, e coloco as mãos sobre o rosto. O silêncio é perturbador ao ponto de eu apenas ouvi a minha respiração. Nesse momento volto a minha juventude novamente, ela passou rápido, e eu nem percebi. Quando resolvo voltar para a minha sala escuto soluços vindos do quarto onde o Andrew está. Deitado na cama segurando uma cruz tosca Andrew soluçava enquanto pequenas lágrimas percorriam a sua face, ele rezava baixinho.
Adentrei no quarto e sentei no canto da cama. Coloquei a mão sobre a de Andrew. O garoto ardia em febre.
- Dr. Rafael é o senhor? – Ele me olhou confuso.
- Sim, Andrew sou eu. O que esta fazendo? – Perguntei.
- Estou rezando para Deus... Para que... – Sua voz falhou de repente, suas expressões faciais contorcidas.
- Dr. Me ajude, por favor! Não me deixe morrer! – Andrew pediu com sua vozinha rouca e doída.
Aquelas palavras me dilaceraram , como se estivessem enfiando uma faca no meu peito lentamente.  O rosto do garoto  contraia-se de dor. Saltei da cama e corri aos gritos por minha equipe médica .
A chuva do mês de julho caía lá fora. Diante de mim, um garoto talvez com poucos minutos de vida. E pela janela uma tempestade, onde se via os raios e se ouvia os trovões.
Minha equipe finalmente chegou ao quarto, todos preparados para mais uma batalha contra a morte. Os batimentos cardíacos do menino se encontravam fracos no monitor. Começamos a dá-lhe choques com o desfibrilador. Ele pulava no leito convulsivamente.  Após a sessão de choques, Andrew soltou a cruz e olhou-me com aqueles olhos grandes de criança. Forçou um sorriso e virou a cabeça. Seus batimentos viraram uma linha reta no monitor.
Passei horas parado diante da janela olhando as gotas de chuva baterem no chão. Assisti de perto todo o tratamento daquele menino contra o câncer, e como eu, ele também morava ali, na casa dos vários cômodos – nosso hospital  não era opção dele, mas para mim foi. Uma mão tocou meu ombro.
- Dr. Rafael, a mãe do garoto esta na recepção esperando pelo senhor. – Marta disse tristonha.
- Obrigado Marta, já estou indo. – Falei baixinho, como se a minha voz pudesse ferir o meu luto, quebrar o meu silêncio. O meu vazio.
Aquele era o momento que eu mais odiava na minha profissão: dar a notícia. Principalmente às mães, ver-lhes o sofrimento misturado a certo nível de esperança quase desesperado. Os olhos marejados. A dor. A destruição da alma de alguém. Era a morte chegando ao meu lado.  
Entrei na recepção segurando a cruz tosca que estava com Andrew. A senhora de vestido azul e cabelos negros mesclados elegantemente com alguns fios brancos levanta-se e me olha assustada quando me aproximo.
- Dr. E o meu filho? - Pergunta-me ela com a mão no coração.
Meu corpo tremia espasmodicamente e minhas mãos estavam geladas. Senti um gosto amargo na boca.
- Infelizmente, senhora... O seu filho – engoli seco - não resistiu. Fizemos o que estava ao nosso alcance – procurei as palavras – Tentamos todos os procedimentos possíveis... Achávamos que iríamos conseguir reanima-lo com o desfibrilador, mas... – A minha voz parou no meio da garganta.
- Então quer dizer que o meu Andrew, Dr ... O meu filho... -  Sua voz falhou no final.
O meu olhar opaco a fez entender. Ambos não queríamos pronunciar a palavra. Senti arrepios em ondas.
- Era dele – Tirei do bolso a cruz do menino e entreguei a mãe.
É impossível saber como será a reação de uma pessoa diante de uma perda em sua vida. Mas ela simplesmente enxugou as lágrimas, segurou firme com as mãos a cruz e pediu que a levássemos para onde estava o seu filho. Penso que há tempo ela se preparava emocionalmente para esse dia. Acho que quando se sabe que a morte vem é um pouco mais fácil aceitar os fatos, as perdas, do que quando ela chega de surpresa. Volto para a minha sala e espero o dia chegar, não falta muito tempo.
Amanhece na cidade, o dia está ensolarado, nada parecido com a tempestade de ontem. A brisa toca levemente as folhas das árvores, e os pássaros cruzam o céu em voos cruzados. Pego novamente a foto dela que está em cima da minha mesa e a olho. Lembra-la dói a ponto de me faltar o ar nos pulmões.
Meu expediente chega ao fim, é hora de descansar. Começo a dirigir. Tudo o que eu queria era ir para casa, volta para ela, mas eu não posso. Então dirijo até o cemitério onde ela esta enterrada. Ajoelho-me em frente a sua sepultura e com a manga da minha camiseta branca de médico limpo a foto dela. Faço uma oração e antes de ir embora deixo para ela uma flor branca, sua preferida.
Sabe hoje eu percebo que são apenas questões da ciência e progresso. O progresso nos consome nos faz questionar...questionar quem somos o que queremos ser. Estamos sempre competindo, em busca de ser o melhor, e nessa trajetória não vemos o que perdemos, do que desistimos para sermos o primeiro. Eu sou um cientista, eu estudo vidas, eu salvo vidas. Mas eu não consegui salvá-la, como tantas outras pessoas. E não consigo estudar a minha própria vida, e é tarde demais para tentar corrigir os erros. Talvez um dia alguém me leve de volta ao começo.