19 dezembro, 2014

P.S eu não te amo


Imagem: Unkown Artist



Sou uma garota meio fria, mas não quero viver sufocada com a amargura de uma ignorância, por isso te escrevo. Aprendi que a vida e o tempo a gente entrega as lembranças, assim, a todas elas, sejam doces ou amargas, todas contém o susto abominável de vida. Eu sou a garota que permanece até o fim das lembranças, por isso, nesse momento me ouvir deve ser muito inesperado. Talvez eu não consiga alcançar por meio das palavras tudo que eu quero verdadeiramente e infinitamente te falar. Quem me conhece sabe que gosto de ser sozinha, uso a solidão para refletir, mas hoje me encontro sozinha de uma maneira diferente. Estou sentada em uma cadeira no canto de um corredor branco e frio, sentindo uma dorzinha no peito esquerdo, não é dor de amor, é física mesmo.
Estou segurando um espelho, vejo nele o seu reflexo, você sentado em uma cadeira no meio de um corredor branco e frio. Naquele dia em que você sentiu uma dorzinha no peito esquerdo, não era dor de amor...
Naquela noite eu não segurei a sua mão, me desculpe por não tê-la segurado. Você pode me perdoar por isso? Pelo único dia em que eu não segurei a sua mão? Desculpe-me, mas eu não conseguia mais viver ao lado do meu assassino. Só Deus sabe quantas vezes eu me mantive firme enquanto o iceberg quebrava os meus ossos lentamente. Detesto o amargo, mas minha boca provou todos os seus sabores numa degustação breve, mas voraz. Talvez eu e você tenhamos sido cedo demais. Talvez eu você tenhamos sido tarde demais. Não tem como saber, só imaginar o cedo e o tarde.
Confesso, sempre pensei na minha dor, na dor de quem é abandonado, nunca pensei na sua dor, a de quem abandona. Eu nunca abandonei ninguém, por isso não saberei falar sobre ela. Não segurar a sua mão naquela noite não foi necessariamente um abandono, foi a minha tentativa de salvação. Uma tentativa sem sucesso! Eu morri naquele dia. No meio de uma história sem glória ou heróis, quem sabe... até sem amor.
Estou escrevendo hoje apenas para te pedir a minha mais sincera desculpa. Agora, sem máscara, sem personagens, sem jogos. Apenas eu, a garota do “sim” te pedindo desculpas, por ter sido fria, por não ter de dado colo, por não ter segurado a sua mão com mais firmeza, e principalmente por não ter sido o seu “sim” mais e mais vezes.  Eu sou essa mistura de frieza, maluquice, drama e fantasia, mas preciso que você saiba, que  naquela época eu te via como o homem da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que cantava desvairadamente a vida em versos curtos, enquanto você assobiava canções infinitas.
Era uma loucura tudo. Nós dois. Graças a Deus chegamos ao fim do que não tem fim.
Agora, cruzo as pernas ardilosa, guardo a caneta no bolso da calça, o papel branco vai junto. Meu coração ainda dói, e vai doer todas ás vezes em que eu perturbada tentarei localizar o extremo disso que chamamos de amor. Seremos, eu e ele, o infinito das mãos vazias em meio a corredores frios. Sem amor, só a loucura.
P.S – Eu te gosto muito, o problema é que eu não te amo mais.


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