19 dezembro, 2014

O quarto branco.



É muito raro eu me sentir confortável dentro desse quarto branco, mesmo quando ele não está aqui. Gosto bastante desse quarto quando está vazio. A cama ainda desarrumada como se ele tivesse levantando-se há pouco tempo, mas há dias ele não aparece. Estou sozinha.
Passo horas deitada na cama, esperando o crepúsculo chegar para que eu possa sair do quarto branco. Sabe, eu não gosto da cor sem vida dessas paredes, pois quando fico as olhando fixamente, como estou fazendo agora, o branco torna-se quase um amarelo cor de vômito.
Quando canso de olhar para as paredes fito o teto ou o chão, eles também são brancos. Tudo nesse quarto é branco, menos as borboletas, elas são verdes e rosas, mas essas borboletas não voam, estão pousadas nessas paredes há anos, sem movimentos. As borboletas me distraem e oferece um colorido pequeno a toda essa brancura.
Vez ou outra levanto da cama e olho pela janela do quarto. A janelinha tem uma grande, por isso não posso me debruçar sobre ela. Seguro a grade e fico olhando a parede cinza do muro do vizinho, meu horizonte se restringe aos tijolos.
            Ás vezes, quando não estou cansada, escrevo um pouco a respeito dele, mas choro muito, fico exausta e paro de escrever. Eu choro por qualquer coisa e quase o tempo todo. Coisa de mulher louca, frisava ele.
            Hoje quem apareceu para me visitar foram elas. Ficaram paradas no meio do quarto, julguei que assim como eu, elas estavam admirando toda aquela brancura. Uma delas usava o cabelo preso na nuca e mudou a visão das paredes para o meu rosto quando me ouviu chamá-la. Ela sorriu - um riso antigo, porém conhecido. Reparei na sua magreza, parecia que não comia há anos, seu rosto jazia envelhecido, mas ainda era doce e seus cabelos ainda cheiravam a jasmim.
A outra continuava elegante, equilibrando-se no salto alto, caminhou pelo quarto, parou em frente ao espelho para arrumar a aba do vestido preto. Ela sempre usava roupas de tonalidade escura, como se vivesse em um luto eterno.
Quando ela me olhou tive que colocar a mão em frente aos olhos, pois o seu batom vermelho queimava as minhas pupilas, era uma cor viva demais para meus olhos acostumados apenas ao branco.
Elas sentaram-se ao meu lado na cama e falaram sobre ele. Eu não queria ouvir nada sobre ele e sobre a sua vida fora desse quarto branco. Não queria saber como ele tinha virado infinito sem mim.
Certa vez, deitados na cama, fitando a pequena rachadura no teto, ele desenhou as iniciais dos nossos nomes no ar com o seu dedo indicador e falou que se as virássemos de lado e as juntássemos elas dariam forma ao símbolo do infinito, para sempre juntos. Mas ele não aguentou toda essa brancura e se foi.
Não quero lembrar ele.
Não posso.
Não consigo.
Eu morro.
Por que elas tendem a falar sobre ele?
E por que é tão difícil eu dizer qualquer coisa a elas e pedir para irem embora?
            Eu quero que elas me deixem em paz, porque eu gosto de ficar sozinha a admirar essas paredes brancas que são apenas minhas, não gosto de dividir a minha brancura com ninguém. Sou egoísta. Claro que eu não era quando ele estava aqui, mas agora sou.
            O dia chega ao fim e elas somem, como efeito de mágica. Agora posso escrever um pouco. Escreverei sobre a visita delas, sobre o brilho fugitivo de seus olhares e sobre as letras em forma de infinito. No entanto, não consegui movimentar meus dedos no papel, perdi toda a inspiração ao levantar da cama. Estou mais que exausta, ou pior, triste.
            Minutos depois, volto a deitar e a olhar para a parede branca. As borboletas continuam paradas sem se movimentarem. Irei arrancá-las. Elas estão usando o meu branco sem permissão. Quando eu levantar da cama darei um fim nelas! Está decidido!
Está tudo tão silencioso e meio escuro, acho mesmo que a hora do crepúsculo chegou. Sendo assim, já posso levantar, cruzar o corredor, e, por fim, descer as escadas segurando no corrimão branco, mas antes preciso arrumar o meu cabelo; ele não gostava que eu saísse do quarto com a madeixa bagunçada. Ele sempre foi tão bom para mim, ensinou-me a me embelezar como uma dama. Prendo o meu cabelo em um coque, depois troco de roupa, me desfaço da roupa velha e branca e visto um belo vestido preto. Meu reflexo no espelho parece tão pálido, minha pele também precisa de uma cor. Avermelho os meus lábios e as bochechas. Agora pareço uma pessoa normal e saudável. Ele vai amar me ver assim.
Desço as escadas segurando no corrimão, minha mão é tão pálida que chego a pensar que ela é parte integrante daquele ferro. Fora das paredes brancas sinto o frio congelante, esfrego minhas mãos enquanto caminho até o portãozinho de ferro, é só abri-lo e estarei fora da brancura.
Seguro o portão. Uma mão toca a minha. É ele. O olho atônita. Ele me diz que é preciso que eu fique sozinha, que não saia. “É muito perigoso lá fora”- murmura ele. Sim, eu sei que é perigoso, pois se eu sair terei que viver, o que é arriscado demais.
Sorrio para ele que não retribui, apenas continua falando que é melhor eu permanecer onde estou.
Ele beija-me e se vai.
Permaneço parada em meio aos muros brancos, segurando o portão, presa em um movimento em que preciso escolher se fico ou se vou, porque não é possível eu ficar para sempre estática segurando esse portão. Nada faço, permaneço imóvel, como ele me instruiu. Até que o portão se fecha sobre mim e esmaga-me dissolvida e intocável. 

           



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