20 novembro, 2014

A solidão de ontem





Há alguém tentando me encontrar?
Alguém virá me levar para casa? ♪♫♩♫♭

Ontem eu senti dor. Uma dorzinha fininha e aguda, bem lá no fundinho do meu peito. Nessa hora pensei em escrever porque a dor geralmente passa quando eu a expilo para fora do meu corpo em forma de verbo. Mas ontem eu não escrevi, simplesmente parei a minha vida para contemplar o céu não azul. Era um céu feiinho, nublado e acinzentado. Era um daqueles céus de fim de tarde - fim de dia. Era um céu que pairava sobre mim como um abismo, e enquanto o sol sumia por trás da serra a minha alegria se pôs junto com ele.
Quem nunca se sentiu tristemente solitário que atire a primeira pedra. Quem nunca se sentiu um estranho no meio de uma multidão de pessoas conhecidas que quebre o meu teto de vidro. Eu, a solitária do dia de ontem, estava mais sem espirito do que um morto recém ceifado. Não é falta de amor, porque eu transbordo amor e o amor é trasbordado em mim. Não é falta de mim mesma, porque desde que descobrir que eu necessitava mais de mim mesma do que de qualquer outro ser humano, eu não me abandono mais.
A solidão de ontem me impossibilitou de fazer a coisa que mais sei fazer: sorrir. A solidão de ontem me fez perceber que sou apenas uma imortal, todos nós somos imortais cheios de solidão e medos bobos. Eu sei, sei que nascemos sozinhos e morremos sozinhos, talvez o problema esteja aí, teoricamente eu não me acostumei a ser sozinha. Deve ser por isso que passo horas e horas no fim da tarde sentada no meio do pequeno corredor do apartamento contemplando um céu feio. O feio e o belo, porque o feio, como o belo, também existe. Eles são inseparáveis assim como a alegria e a solidão.
O acontecer da solidão desmascara a nossa fragilidade humana. Ontem quando a minha fragilidade foi despertada, senti vontade de abraçar o mundo, mas é tão difícil abraçar se quer alguém, quem dirá o mundo. Então, eu fico aqui, sentada sem abraços, sem colo, sem vida. Do outro lado uma amiga me fala que preciso sorrir, porque se eu não sorrir não vou poder continuar reconstituindo os corações e a vida das outras pessoas. Tudo bem, eu vou me embriagar de vida para salvar a sua vida. Como quem muda um canal de televisão, vou apertar o botão e parar no canal da alegria. Mas, antes deixe-me contemplar esse céu feinho porque ele está quase morrendo e não será mais o ontem. 



19 novembro, 2014

Eles sobre mim



Um olhar que deveras penetrante
De sorriso e carisma encantador
Proporciona nos seus textos ao leitor
Viajares infindos... Cada linha fascinante.

E sempre de seu brilho radiante
Emana a natureza em sua essência
Cisne Negro mascarado em inocência
Que às vezes se transforma num instante.

E até quando propõe deixar implícito
Não esconde o que é claro e explicito
Em seus textos que encantam a quem leia

E a tudo o mais que encanta a quem conhece
Com destreza, nas palavras se engrandece.
Agregadas a beleza que alardeia.

De: Isaac Jordão
Para: Sidy Batalha

12 novembro, 2014

Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".



Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. 

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. 

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. 

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. 

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. 

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. 

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Caio Fernando Abreu