15 setembro, 2014

O Lobo do Sul




Olhando para o teto no escuro, o mesmo velho sentimento de vazio em seu coração. O amor chega devagar e passa muito rápido. Bem, você a vê quando dorme, mas nunca para tocar e nunca para deixar 

Você me pergunta, morena e ferina? E eu respondo, por que não?
- Eu sempre gostei de mulher assim.
- Assim como?
- Morena e ferina.
- E eu sempre gostei de homem assim.
- Assim como?
- Olhos de gelo e lobo.
- Eu sinto falta da pessoa que projetei nela. Ela foi um grande amor platônico na medida do desejo que existiu, extinguiu como fumaça – conta-me ele meio desajeitado, talvez pelo momento da confissão demasiadamente profunda para o seu próprio ser. – Ela é assim como você, morena. Eu adoro morenas!
Eu sorrio – Sabe, eu sinto uma certa falta da pessoa que projetei nele. Sinto falta da pessoa que eu julgava que ele era, não que ele não seja uma personalidade real. Sei lá, mas acho que é isso.

***
Eu leio a frase do meu texto “O Gostável” no seu perfil e me assusto com a enorme semelhança entre as linhas do texto e ele. Você me explica que a frase assemelha-se a algo que tu escreveste e por meio dela encontrou-me. Eu sorrio, nunca imaginei que alguém escreveria algo que se assemelha com os meus pensamentos. Você me mostra um conto seu, eu o leio e gosto demasiadamente da maneira como você descreve o amor de um pai para com a sua filha. Como se só existisse vocês dois no mundo e nada mais importasse quando as duas retinas dos olhos verdes se encontram. É o sangue que pulsa o mais puro do amor.
***

Ainda ontem eu te disse que me sentia um pouco cansada de tecer a vida. Ainda ontem você me disse que se sentia um pouco cansado de tecer a vida, mas que era forte o bastante para continua na guerra. A sua coragem pulsa em suas veias como aviões caças que sobrevoam um céu meio nublado preparados para atacarem se necessário os inimigos que ameaçam intervir em sua rota original. A mesma veia que circunda o seu braço e para sobre a tatuagem de lobo gravada em teu pulso.  Eu encaro o lobo de olhos cinzas e te pergunto qual o significado da frase também escrita em teu pulso. Você responde com a voz grave “Was mich nicht umbringt, Macht mich starker” O que não me mata me fortalece - Friedrich Nietzsche.


 Eu olho para os seus olhos verdes que por muitas vezes julgo serem cinza e sinto uma perdição involuntária que se aprofunda quando ouço a sua voz. É a natureza me provocando o mais óbvio dos desejos.  
Simplesmente isso. Você, uma pessoa com poesia, um lobo medindo forças com uma tigresa. Eu olho novamente para a sua tatuagem e para o tamanho da sua mão e imagino que ela pode me tocar mesmo eu estando em um quarto bem longe de você.
No meio disso tudo você me olha reto, verde, eu digo novamente que são cinzas e você discorda soberbamente. Daí você com a voz meio abafada fala que sou sua Ciganinha e que eu deveria dançar eternamente pra você. Eu gosto da sua pele branca e do seu rascunho de textos inacabados. Desse desejo mútuo que explode entre nós. Gosto do seu mistério que não me dá medo. Tem dez minutos que te perguntei por que você é tão interessante. Você diz que é a mistura de alemão com italiano, não tem nada de gente do mato? Algo meio selvagem, como se você fosse um animal que não poderia viver preso em uma jaula dourada.
Mas, eu gosto mais ainda da nossa cumplicidade, cheia de segredos e mistérios. E da maneira como você conta sobre a sua infância e da infância que você cuida, dessa forma a sua voz controla uma sinceridade muito alta.
Você diz que deveríamos escrever algo juntos, e eu concordo.
Baby – você sussurra e desperta a minha parte selvagem, como se eu fosse uma tigresa e você o meu treinador pronto para me domar por meio do seu toque.
Sua loucura surge em frases curtas cheias de predicados incompletos, mas que levam ao entendimento de algo, como se você não precisasse de verbos para descrever o mundo.
Daí no meio de tudo isso você me olha hipnotizado como se eu fosse Afrodite e resigna para a lua um uivo de caça.

E disso tudo o que eu mais gosto é do sentimento que não existe. 

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