12 setembro, 2014

O Gostável


Imagem: Heather Landis
Para ler ao som de....




Por toda a minha vida por onde você andou? Fico pensando se vou te ver de novo, e se por acaso esse dia chegar tenho certeza que iríamos adorar – Again

Eu gostava das possibilidades que tínhamos juntos. Gostava dos seus olhos verdes que por muitas vezes julguei serem azuis. Eu gostei no dia em que sentado na cadeira de balanço você cruzou as mãos diante do queixo enquanto me explicava sobre o porquê da roseira da sua casa não ter florido ainda.
Eu gostava de todas as suas roupas que geralmente eram brancas. Gostava do seu banheiro em preto e branco e do espelho que ficava acima da pia onde nos olhávamos enquanto escovávamos os dentes juntos. Eu gostava quando me encontrava distraída e você puxava-me para dentro da rede branca, eu me aninhava em seus braços enquanto você me olhava meio paranoico porque você tinha medo de que um dia eu acabasse indo embora.
Eu gostava tanto da sua brancura e da sua altura que parecia pequena quando me abraçava. Eu lembro que gostei tanto daquela tarde em que você tentou me ensinar a atirar, você ficou por trás de mim ajudando-me a segurar a arma e dizendo que eu mirava errado, mas sempre acertava o alvo.
Eu gostava do quadro branco que ficava na parede em frente a sua cama, onde você rabiscava frases. Um dia eu peguei o pincel azul e tentei escreve-te algo, mas consegui apenas desenhar uma carinha feliz, faltavam-me palavras naquele momento para expressar o que eu sentia. Colorido-Dolorido.
Eu gostava quando você chegava a noite, eu te olhava da varanda, você na moto preta de capacete branco espremia os olhos como um gesto de riso. Eu descia as escadas do apartamento nervosamente sentindo pavor de nunca conseguir chegar até você completamente.
Eu gostava do jeito que você segurava a minha mão enquanto pilotava a moto e falava sobre o trabalho. Eu gostava tanto de te ouvir cantar enquanto tomava banho, sua voz era tão grave que atravessava as paredes. Eu gostei daquele dia em que você subiu as escadas com um buquê de rosas vermelhas e disse que o nosso amor era como sementes. Eu entendi que se eu regasse talvez ele durasse tempo suficiente para ser bom.
Eu gostava tanto do seu perfume que tinha um Z gravado no frasco, gostava da música Again do Lenny Kravitz, você costumava dizer que pensava em mim ouvindo ela. Meu Deus, como eu gostava do Alemão sem guerra.
Eu gostei tanto, tanto da primeira noite em que dormimos juntos, conversamos sobre nossas vidas até adormecemos. Lembro que quando acordei olhei para você e te gostei tanto. Você sorriu e disse que a melhor parte da noite foi quando acordou e viu que tinha adormecido segurando a minha mão.
Eu gostava tanto do cara misterioso e das suas aparições repentinas, fatigadas de nudismos interiores e exteriores. Eu gostava absurdamente dos nossos silêncios, que eram saciados quando a gente descobria algo pequeno para se observar, um feixe de luz em meio a escuridão.
Sabe do que eu não gostava? Eu não gostava quando você tornava-se agressivo verbalmente, ou sumia por vários dias sem me dá uma explicação. Eu sentia uma dor enorme no peito, na mente e no corpo, tentando encontrar algum esclarecimento plausível para compreender a sua frieza. Não gostava quando você era manipulador e paranoicamente amargo. Não gostava da maneira que você me fazia chorar após despejar as palavras mais duras em meus ouvidos. Ou do jeito que você me fazia sentir impotente diante da vida. Foi durante esses momentos em que comecei a presenciar a morte do amor, fria e dolorida. As coisas começaram a se modificar quando você apareceu lento na curva que levava ao meu lar, foi quando eu senti, mais uma vez, que paixão não resiste a tudo.
Sabe do que eu realmente gostava? Não era dos excessos de carinho, ou do seu sorriso metálico ou da sua escrita, ou da sua loucura. Eu gostava de você! Mas, gostei mais ainda do gosto da liberdade ao te deixar! 
Você já faz quatro anos e eu nem gosto mais de você, mas tenho que escrever sobre você para que nossa história seja salva nas páginas em banco do world.

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