08 agosto, 2014

Quilômetros alaranjados.

Para ler ao som de...




Um pé na frente do outro, passos rápidos como se eu fosse uma máquina presa a um motor que precisa de algum tipo de combustível para poder continuar a andar pelas ruas. Eu precisava correr para aliviar a tensão de estar viva, eu precisava correr o mais rápido possível para não ouvir os meus pensamentos, mas é impossível não ouvir os meus pensamentos quando eu estou a observar um céu tão bonito quanto esse. Céu alaranjado de fim de tarde, um crepúsculo inevitavelmente belo. Eu piso com o meu tênis desgastado em um chão laranja, o mundo todo encontra-se dessa cor que não é o vermelho, mas que também é uma cor quente. Você costumava me dizer que as núvens se colorem para demostrarem que ainda existirá o amanhã após a escuridão dos céus.
Talvez você tenha razão, o amanhã sempre continuará ali mesmo que a gente não continue. O amanhã é de todos, dos que já viveram uma vida e dos que ainda irão vivê-la. É meu, é seu, o amanhã é daqueles pássaros que brincam entre si em meios as nuvens alaranjadas. Eu tive que parar de andar, sentar e observá-los, você sabe que desde a infância eu gosto de vê os pássaros cortando o céu em voos rasantes, senti o vento atravessando os pelos do meu corpo, procurar desenhos de animais nas núvens, olhar as folhas das árvores balançarem para lá e para cá e pensar que por trás disso tudo existe algo maior, maior do que a angústia e o medo de ser humano.
Sim, eu sei que enquanto vivo você me observa, de alguma maneira você vive ao meu lado, eu finjo que não vejo o seu olhar protetor cercando-me de longe como um amortecedor. Talvez eu não tenha te tratado tão bem quanto deveria, talvez eu não tenha te amado o tanto quanto eu queria, talvez eu tenha sido infantil em determinados momentos. Eu poderia ter feito mais por você, pequenas coisas, mas de alguma forma eu nunca encontrei tempo para dá-lhe o suficiente. Eu nunca te abracei nos momentos mais solitários ou alegres da sua vida. Nunca fui uma de suas asas, de alguma maneira eu não poderia ser o pássaro que te persegue entre nuvens quentes, sim, eu não poderia sê-lo pelo simples fato de te amar demais.
Eu sou algum tipo de mutilação de dor, eu cortei o seu cabelo porque você precisava aprender a viver sem o que se ama, mas doando o amor ao próximo você sentiria que a vida continua e que assim como os fios capilares o amor cresce novamente. Talvez não possua a força da raiz do primeiro fio, mas aprende-se a fortalecê-la. Eu sei que eu preciso de você, mas ao te pedir que continue em minha vida eu estou te matando aos poucos, talvez eu seja cruel e de alguma forma goste de me alimentar do seu amor. Eu sei que em muitos momentos eu te fiz se sentir em segundo lugar, por isso peço que me perdoe. Perdoe-me por ser um ser humano que erra.
Talvez o problema seja apenas atravessar as horas, você passa por uma e depois tem outra, e você continua ali parado porque sente que de alguma forma elas avançaram e eu terei o meu doce pássaro, eu serei o pássaro voando entre as horas da vida. De qualquer forma, eu acredito que duas pessoas não tenham sido mais felizes do que nós dois fomos. É hora de deixar o crepúsculo completar o seu circulo e voltar para casa.
Entre nós sempre haverá o tempo, o amor e o amanhã. 


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