06 agosto, 2014

A camisa azul xadrez.


(...) apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também –  Trecho de Terça feira gorda, Caio Fernando Abreu.

 Raul Moraes, pela inspiração. 






Eu encarava o relógio no meu pulso enquanto quebrava no meio, com os dedos da mão esquerda, um palito de dente recém-retirado da caixinha. Ele estava atrasado. Fazia meia hora que eu estava o aguardando ali,  sentado naquela mesa, dentro daquele bar. O atraso dele estava me incomodando bastante.
 Após alguns goles do drinque que transluzia em um copo de vidro e de muitos minutos de atraso, ele chegou, moreno e felino.
- Desculpe o atraso - ele sorriu e sentou. Pediu um Martini.
- Você poderia ter me ligado avisando que iria se atrasar. Assim, evitaria o meu pensamento: Será que ele morreu?
- Você sempre pensa isso quando me atraso?
- Não, depende, às vezes penso: Será que ele simplesmente desistiu?
Ele sorriu, fez cara de louco – Meus atrasos servem para você sentir saudade - falou mansinho, depois puxou uma das mangas da camisa azul xadrez que estava colada ao corpo. Suas camisas sempre eram muito, milimetricamente, coladas ao corpo e quase sempre de estampa xadrez.
- Eu não gosto da sua camisa - falei seco.
- Por que? - ele franziu o cenho. 
- É muito azul - retruquei.
- Você gosta que eu ligue avisando que vou me atrasar para que isso não lhe cause uma certa saudade, mas não gosta da minha camisa azul?
- Isso! Eu gosto disso! - concordei sorrindo, ele logo sorriu em resposta ao meu riso.
O garçom voltou trazendo o Martini.  Ele pegou o copo e antes de levá-lo à boca disse com a voz meio seca – gostoso. 
 Eu o encarei e pensei na semana fatigada que havia acabado. Pensei nas contas a pagar, e nos maus orgasmos protagonizados pelas noites mal dormidas. O encarei e pensei que o mundo sem seus atrasos é mais belo. Sempre que o encontrava ali... naquele bar. Nas sextas feiras que nunca eram treze, eu sentia, sempre pela primeira vez, que tudo daria certo.
- Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – perguntou-me ele com um semblante de indignação.
- A Ângela me deixou.
- Finalmente! Ela não conseguiu aceitar que você também me ama?
Eu queria dizer que sim, mas ao contrário do que ele pensava, ela aceitava. Quem não aceitava aquela situação era eu. Não estou falando da minha situação, ou da nossa, não me entenda mal. Falo sobre a situação dela, do seu amor incondicional que eu nutri sem ter me dado conta das futuras consequências.
- Cultura demais mata o corpo da gente – a voz dele tirou-me do devaneio de não ser.
- Desculpe-me, como disse?
- Nós somos o apesar de. O apesar de aquele casal estar nos encarando na mesa ao lado e de terem sussurrado um para o outro "veados"... Somos o corpo descosturado dessa cidade pequena, dessa cultura arcaica-burguesa. A visão deles para no ponto do nosso sexo e não de quem somos. Somos diferentes para eles, para a sua família que te cerca de Ângelas, Virginias, Marias, enquanto não compreendem que você só precisa de um José. Somos mais, mas no fim das contas também somos menos como todos os outros seres humanos, pois, nenhum ser tende a ser magnifico em plenitude.
- Cara, eu queria apenas ser feliz.
- Eu também, todo mundo quer apenas ser feliz, mas sobra sempre aquele nó no peito – ele colocou a mão quente sobre a minha, fingi não notar o efeito do toque entre nossas peles.
- Ela está grávida – minha voz saiu como um murmúrio fúnebre.
Ele fez sinal para o garçom e pediu outro Martini.
- Parabéns! O filho em potencial finalmente concebe um herdeiro a família. Sua mãe deve estar orgulhosa!
- Não fala assim! - meus olhos umedeceram, pisquei para que ele não percebesse as lágrimas.
Ele suspirou fundo, profundo, arrumou novamente a manga da camiseta azul xadrez e chamou: – Vem! Eu te levo para casa - ele levantou, eu o segui.
Entramos no carro e seguimos um longo caminho sem nos olharmos, o silêncio imperava. 
Ele parou em frente do meu apartamento.
- Obrigado – agradeci e antes de abrir a porta do carro senti sua mão firme agarrando o meu pulso. Voltei o meu olhar para o dele e senti que amar ardentemente uma pessoa e não tê-la é a mesma coisa que morrer.
Eu estendi a mão aberta e passei pelo rosto dele, a barba recém-feita. Ele estendeu a mão e passou pelo meu rosto. Eu o queria ali, agora! – Quero você, eu disse. Ele sorriu confirmando que também me queria, ali, agora! Desceu a mão pela minha barriga. Apertou, apertei, apertamos.
Beijamo-nos. Nossas bocas meio entreabertas, as línguas duras, gosto de Martini. Passei a mão pelos músculos dele, apertei a sua cintura. Ele a minha cocha.
Enfiei a língua no ouvido dele – Vamos subir - chamei, ele confirmou que sim com a cabeça.
Subimos correndo. Nossos corpos entrelaçados empurraram a porta.
- Olhe para mim – ele pediu – você é lindo!
- Você é o ser que eu gostaria de ser.
Nossas bocas se calaram em uníssono, e durante toda a noite brilhamos como estrelas cadentes redescobrindo o percurso do céu.
Acordei com gosto de Martini na boca, com a mão procurei o outro corpo masculino, mas ele já havia ido embora, restou apenas à camiseta azul xadrez esquecida por ele.
A semana passou lenta demais, mas a sexta feira havia chegado e lá estava eu novamente no bar esperando-o.
Meia hora de atraso. Uma hora de atraso. Duas horas de atraso. Uma semana de atraso. Sem ligações... Será que ele morreu? Ou, simplesmente desistiu?

Ele nunca mais apareceu.

Agora viro as sextas feiras, que não são treze, bebendo vodca no bar com as Ângelas, Virginias e Marias. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo. Sobrou apenas a parte que eu não gostava nele, a camisa azul xadrez que não foi esquecida e sim deixada propositalmente. A camisa que divide o closet com os vestidos da Ângela.

5 comentários:

  1. Incrível Sidy, meu favorito até agora. <3

    ResponderExcluir
  2. Fantástico, amei sua escrita Sidy, vou ler mais!

    ResponderExcluir
  3. Parabéns Sidy, vc mostra a cada dia o seu potencial e que vai conseguir atingir todos seus objetivos...

    ResponderExcluir