03 julho, 2014

O outro dentro de julho.

Uma história de julhos, agostos, setembros, outubros, novembros, dezembros, janeiros, fevereiros, marços, abris e junhos...

            O outro, outra vez. Aqui, o outro. Fora, dentro de mim, o outro. Sempre aqui. A roupa do outro, a coxa do outro, a pele branca, exposta. Os pelos negros, expostos. A risada do outro. A voz do outro. A respiração do outro ao meu lado, eu ao lado do outro. A saudade do outro, de ser do outro. O gosto do outro impregnado na minha boca, na minha língua. Os cheiros do outro entrando profundo nas minhas narinas. O perfume, o suor, o hálito, o chulé, os cheiros misturados. O cabelo escuro molhado do outro encostando-se no seu cabelo escuro molhado.
- Vou contar amanhã?
- O quê?
- Sobre o outro.
- E quem é o outro?
- O outro é o não eu. É o ser humano que não habita a minha casca ossuda e castanha. O outro é o eu fora de mim que habita outra casca forte e branca.
            Naquela manhã de julho era pensará que poderia ser tarde demais, deverás, para ela sempre fora tarde demais, mas, e para o outro? Isso não se sabe! Ela não é o outro para possuir essa resposta. É a vida, a vida é não ser o outro. É a vida! Respira fundo e repita – É-a-vida-É-a-vida-É-a-vida.
- Hoje eu senti o gosto do outro.
- E como era?
- Bom, doce. – Tinha cheiro, o cheiro era bom. Doce. Tudo era muito doce no outro.
            Quase nem dói mais, não ser o outro. Quase nem dói mais, não ter o outro. Quase nem dói mais, ser tão individualmente indivisível. Quase nem dói mais, amar apenas o outro. Quase nem dói mais, ser invisível. Quase nem dói mais, a dor.
- Hoje eu chorei.
- Por quê?
- Porque se é tarde demais para se amar. O outro, o outro amar o outro. Se é tarde demais?
            Então chegou o outro, discretamente, assim, como se fosse insuspeitável a sua existência. Eu olho o outro e o peito fura, zim, zim – o peito fura! Eu tenho tanta coisa para falar para o outro, mas só sei ficar parada, assim, parada, e olhando o outro. Vez em quando dói olhar o outro. Olhar ele, o outro, aqui, parado na minha frente, sorrir, fala meu nome, o meu nome que não é o nome dele porque eu sou o outro, o outro dele.
Vem! Chama o outro. Me dá a tua mão. Vem, fala. Fala comigo. Senta aqui. Senta aqui do meu lado, mas, não eternamente.
Vem! Vem, que é julho, ainda não se é agosto. Iniciozinho do mês de câncer.
Vem! Que é o seu mês.
O outro sentado, parado, olhando baixo, o corpo tranquilo, leve, sem pesos. A alma tranquila, leve, sem pesos.
- O que foi? Por que você está me olhando assim?
- Nada.
- Nada?
- Fala.
- Falar o que?
- Por que você está me olhando assim?
- Nada.
- Eu sou o outro, é isso?
- O que?
- Eu sou o outro?
- Que outro?
- O seu outro.
- O meu outro?
- Sim, o seu outro. Eu sou o outro que não é você, então eu sou o seu outro.
- Você é o meu outro.
- O que você disse?
- Que você é o meu outro.
- Eu sou o seu outro.
- O outro
- Outro.








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