21 julho, 2014

A Rosa e o Rouxinol


Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo”.
Oscar Wilde

18 julho, 2014

Mundo líquido.


Por que as pessoas perdem o interesse umas nas outras tão rapidamente? Será culpa da correria do dia a dia, a falta de tempo, o cansaço diante da vida que grita nos cantos!? O mundo atualmente é líquido, corre rápido como um rio e no meio do caminho afoga sonhos, pessoas, vidas. Eu me vejo como uma pessoa que é de uma geração, mas vivencio outra. Eu não sei ser líquida, não sei abandonar as pessoas as quais cativei “Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativas” – O pequeno príncipe. É como quando você conhece um cara, em duas semanas parecem velhos conhecidos, depois o contato desanda, como um bolo cuja receita foi mal seguida.
A sociedade contemporânea oferece diversos meios para a comunicação. O progresso tecnológico acarreta a perda da essência da comunicação pessoal, pois o indivíduo se encontra em uma busca infinita de melhorar o seu bem estar, imergindo em seu interior e fechando-se para os outros. Essa relação inter pessoal é chamada de comunicação fria. A pós-modernidade caracterizou a “sociedade da solidão”, uma solidão nova, intermediada por tecnologia. As pessoas não se interessam pelo contato pessoal, pois acreditam que o envio de e-mail e mensagens instantâneas substitui o contato da convivência íntima.
A comunicação por meio digital é veloz, prático, rápido e dinâmico. O homem possui a possibilidade de conexão mundial em tempo real. Infelizmente o ser humano está começando a perder o controle tecnológico, já não se permite viver fora do universo digital. As relações pessoais perdem espaço para as comunidades virtuais que reúnem pessoas com os mesmos gostos e estilos. Parece ser mais sedutor e prático conhecer pessoas por meio da rede virtual do que sair do aconchego de casa para ter uma comunicação pessoal.
O mundo contemporâneo é responsável pela liberdade individual e pela crença de viver intensamente esta liberdade. Os valores pragmáticos do passado estão perdendo-se aos poucos. Segundo Daniel Cruz (2011, p. 37) “A modernidade constrói personagens independentes, livres das pressões tradicionais”. Antes da revolução digital e sua popularização social, as pessoas viviam repreendidas por costumes impostos pela família e a sociedade, o principal objetivo a ser obtido na vida de alguém era o casamento e a constituição de uma família. A sociedade contemporânea é caracterizada pela adoração a imagens, o ser humano vive um estado de espelho idealizado. Frente ao espelho, cada um se contempla buscando decifrar o impacto de sua própria imagem aos olhos dos outros. O foco da sociedade contemporânea gira em torno da busca constante da satisfação pessoal, mas é impossível conseguir essa satisfação em um mundo carente de afeto. Eu não sei me adaptar a essa sociedade dissolvida! Meu Deus, como se solidifica o mundo? 

07 julho, 2014

Carta de suicidio de Virgínia Woolf

Meu Muito Querido:
Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.
O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.
Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.”

03 julho, 2014

O outro dentro de julho.

Uma história de julhos, agostos, setembros, outubros, novembros, dezembros, janeiros, fevereiros, marços, abris e junhos...

            O outro, outra vez. Aqui, o outro. Fora, dentro de mim, o outro. Sempre aqui. A roupa do outro, a coxa do outro, a pele branca, exposta. Os pelos negros, expostos. A risada do outro. A voz do outro. A respiração do outro ao meu lado, eu ao lado do outro. A saudade do outro, de ser do outro. O gosto do outro impregnado na minha boca, na minha língua. Os cheiros do outro entrando profundo nas minhas narinas. O perfume, o suor, o hálito, o chulé, os cheiros misturados. O cabelo escuro molhado do outro encostando-se no seu cabelo escuro molhado.
- Vou contar amanhã?
- O quê?
- Sobre o outro.
- E quem é o outro?
- O outro é o não eu. É o ser humano que não habita a minha casca ossuda e castanha. O outro é o eu fora de mim que habita outra casca forte e branca.
            Naquela manhã de julho era pensará que poderia ser tarde demais, deverás, para ela sempre fora tarde demais, mas, e para o outro? Isso não se sabe! Ela não é o outro para possuir essa resposta. É a vida, a vida é não ser o outro. É a vida! Respira fundo e repita – É-a-vida-É-a-vida-É-a-vida.
- Hoje eu senti o gosto do outro.
- E como era?
- Bom, doce. – Tinha cheiro, o cheiro era bom. Doce. Tudo era muito doce no outro.
            Quase nem dói mais, não ser o outro. Quase nem dói mais, não ter o outro. Quase nem dói mais, ser tão individualmente indivisível. Quase nem dói mais, amar apenas o outro. Quase nem dói mais, ser invisível. Quase nem dói mais, a dor.
- Hoje eu chorei.
- Por quê?
- Porque se é tarde demais para se amar. O outro, o outro amar o outro. Se é tarde demais?
            Então chegou o outro, discretamente, assim, como se fosse insuspeitável a sua existência. Eu olho o outro e o peito fura, zim, zim – o peito fura! Eu tenho tanta coisa para falar para o outro, mas só sei ficar parada, assim, parada, e olhando o outro. Vez em quando dói olhar o outro. Olhar ele, o outro, aqui, parado na minha frente, sorrir, fala meu nome, o meu nome que não é o nome dele porque eu sou o outro, o outro dele.
Vem! Chama o outro. Me dá a tua mão. Vem, fala. Fala comigo. Senta aqui. Senta aqui do meu lado, mas, não eternamente.
Vem! Vem, que é julho, ainda não se é agosto. Iniciozinho do mês de câncer.
Vem! Que é o seu mês.
O outro sentado, parado, olhando baixo, o corpo tranquilo, leve, sem pesos. A alma tranquila, leve, sem pesos.
- O que foi? Por que você está me olhando assim?
- Nada.
- Nada?
- Fala.
- Falar o que?
- Por que você está me olhando assim?
- Nada.
- Eu sou o outro, é isso?
- O que?
- Eu sou o outro?
- Que outro?
- O seu outro.
- O meu outro?
- Sim, o seu outro. Eu sou o outro que não é você, então eu sou o seu outro.
- Você é o meu outro.
- O que você disse?
- Que você é o meu outro.
- Eu sou o seu outro.
- O outro
- Outro.








02 julho, 2014

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Sinto muito por nunca ter te falado sobre essas coisas de saudade e de dores, ou que a cor azul cai bem em você. Mas, essas coisas não são dizíveis, são coisas que não falamos costumeiramente porque não achamos necessário serem ditas, apenas sentidas. Sinto muito por você nunca ter me falado sobre essas coisas de saudade e dores, ou que alguma cor cai bem em mim. Eu sinto tanto, tanto, tanto, que paro de sentir pra não morrer.


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A sua inocência é para a vida a literatura
 Seus olhos negros me calam
E suas pernas me cercam
Haveria em suas mãos as palavras para tudo isso?
É bem possível que tudo que eu sinta seja
De modo indistinto
Apenas a sensação de que ser jovem está no ato
E nesta vontade insana de soprar borboletas do estômago.

De: Carlos Vasconcelos
Para: Sidy Batalha