26 maio, 2014

A esquininha.



É isso, sei lá, mas acho que amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos. E por fim te amo até sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo, que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano. Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai-de-santo, nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e, principalmente (ou infelizmente): nem você. Mas eu te amo também do jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com você. Outro dia me peguei pensando que entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega-sena acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando, porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos,. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu. Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu. Amo tanto, tanto, tanto, que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho. Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado.
Tati Bernadi

22 maio, 2014

Grown Womam



Modelo: Sidy Batalha
Fotógrafo e Edição: Evandro Nogueira.
2014










Deusa do amor.



Majestosa divindade do amor,
Lábios vermelhos rasgam verbos
Sorrisos e desejos por onde andas...
Filha de Apolo, a verdadeira Deusa.
Talvez Ísis, talvez Afrodite.

Agora invoco Fernando Pessoa para te contemplar
A Deusa que ninguém viu sem amar.
Pele dourada, olhos de ressaca.
Mãos argilosas
Que criam histórias para fascinar.

Carrega uma pena gravada na pele,
És a perfeição.
Não precisa sequer falar...
És a Deusa das Deusas,
 és Vênus a estrela mais brilhante do céu.

José Carvalho.
para Sidy Batalha.

21 maio, 2014

Não quero saber.


(...)Então não perca seu tempo comigo. Eu não sou um corpo que você achou na noite. Eu não sou uma boca que precisa ser beijada por outra qualquer. Eu não preciso do seu dinheiro. Muito menos do seu carro. Mas talvez, eu precise dos seus braços fortes. Das suas mãos quentes. Do seu colo pra eu me deitar. Do seu conselho quando meu lado menina não souber o que fazer do meu futuro. Eu não vou te pedir nada. Não vou te cobrar aquilo que você não pode me dar. Mas uma coisa eu exijo. Quando estiver comigo, seja todo você. Corpo e alma. Às vezes mais alma. Às vezes mais corpo. Mas por favor, não me apareça pela metade. Não me venha com falsas promessas. Eu não me iludo com presentes caros. Não, eu não estou à venda. Eu não quero saber onde você mora. Desde que você saiba o caminho da minha casa. Eu não quero saber quanto você ganha. Quero saber se ganha o dia quando está comigo.
Caio Fernando Abreu

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10 maio, 2014

Vênus e Marte, a trágica história de amor.



Hoje li uma historinha de amor, que lindo dirão os apaixonados de plantão. Que trágica direi eu, pois,  ao terminar de ler a historinha de amor da mitologia grega entre a  deusa do amor Vênus e o Deus da guerra Marte, percebi que sou de Vênus, ou sou Vênus?
Sabemos que existe aquela velha história de que mulheres são de Vênus e os homens são de Marte, não sei se isso é verdade, mas sei que posso me comparar em alguns aspectos a Vênus.
Vou resumir a história para vocês...
Marte apesar de bárbaro e cruel tinha amor por Vênus. Ele ficou encantador com a sua beleza e apaixonou-se por ela. Já Vênus era infeliz, casada com Vulcano o Deus do fogo. Marte e Vênus, estes se encontravam constantemente até que o Sol, Apolo, o Deus que tudo via, contou a Vulcano que sua mulher o traía. Vulcano enraivecido confeccionou uma rede de ouro invisível e armou uma armadilha para os amantes. Assim, quando foram consumar mais uma vez o adultério, Vênus e Marte ficaram aprisionados ao leito e Vulcano trouxe todos os Deuses para observar a vergonha de Vênus. Ao serem libertados, Vênus esperava que Marte assumisse o seu amor, e mesmo expulsos do Olimpo fossem vagar pelos cantos da terra juntos. Porém, Marte frustrou a Deusa abandonando-a. Vênus, a deusa do Amor, transformando seu amor em ódio, rogou uma praga para que Marte se apaixonasse por todas as mulheres que visse, tornando-se assim um Deus constantemente apaixonado e agressivo que tomava as mulheres a força quando essas não cediam à sua sedução. 
Encontramos neste mito o Arquétipo do masculino e do feminino: a mulher sempre desejando ser amada mesmo diante de situações mais difíceis, enquanto o homem não consegue assumir o amor que sente, procurando afogar suas paixões se entregando a outras.
História trágica?
Como disse Camila Valente:
A mitologia diz que o Deus Marte tem o amor da deusa Vênus e dessa relação nasce o filho Cupido…e o resto, a história conta. O que não se conta (e eu decidi inventar) é que o filho desse casalzinho aí,  foi ficando míope ao longo das eras e saiu flechando os corpos mais aleatoriamente estranhos nesse mundão.Porque não é possível que a gente tenha esse gosto tão duvidoso quando se apaixona. Tá aí, acho que é isso mesmo.  A grande verdade sobre a paixão é quase um diagnóstico médico: o cupido é vesgo.

07 maio, 2014

Ele sobre ela, escrito por ele, mas não para ela.


Chamava-se Sidileide, mas não era loura. As pessoas sempre esperavam dela coisas como longas tranças, olhos azuis e voz mansa. Espantavam-se com traços exóticos, a cabeleira escura, os olhos escurecidos. Sidileide não brincava com os outros quando a gente era criança. Ela ficava sozinha o tempo todo. Mesmo assim, as pessoas gostavam dela.
Quase todo mundo foi na estação quando eles foram embora para a capital. Ela estava debruçada na janela, com os cabelos escuros em torno das maçãs salientes. Eu fiquei olhando para Sidileide sem conseguir imaginá-la no meio dos edifícios e dos automóveis. Acho que senti pena — e acho que ela sentiu que eu sentia pena dela, porque de repente fez uma coisa completamente inesperada. Sidileide desceu do trem e me deu um beijo no rosto. Um beijo duro e seco. Qualquer coisa como uma vergonha de gostar.
Essa foi a primeira vez que eu vi os pés dela. Estavam descalços e cansados. Os pés dela eram os pés que a gente esperava de uma Sidileide. Pequenos e dourados, de unhas de criança. Eu queria muito ficar olhando para seus pés porque achei que só tinha descoberto Sidileide na hora dela ir embora. Mas o trem se foi. E ela não olhou pela janela.
Um tempo depois a gente viu uma fotografia dela numa revista, com um vestido de baile. Sidileide era escriora na capital. Todo mundo falou e comprou seu livro. Quase todos os dias a gente via a foto dela nos jornais. Sidileide era famosa. A cidade adorava ela, mas ela carregava  dores vindas daquele lugar. 
Muito tempo depois, eu a vi outra vez. Eu estava trabalhando num jornal e tinha que fazer uma entrevista com ela. Sidileide estava sozinha e não ficou feliz em me ver. Continuava grande e consumida e tinha nos olhos uma sombra cheia de dor. Fumava. Falei da cidade, das pessoas, das ruas — mas ela pareceu não lembrar. Contou-me de seus livros, seus desfiles, suas viagens — contou tudo com uma voz lenta e rouca. Depois, sem que eu entendesse por que, mostrou-me uma coisa que ela tinha escrito. Uma coisa triste parecida com uma carta. Tinha um pedaço que nunca mais consegui esquecer, e que falava assim:

sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía. vezenquando  eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando olhando e pensando meu deus ah meu deus como você me dói vezenquando

Quando terminei de ler, tinha vontade de chorar e fiquei uma porção de tempo olhando para os pés dela. E pensei que ela parecia ter escrito aquilo com seus pés de criança, não com as mãos ossudas. Eu disse para Sidileide que era lindo, mas ela me olhou com aquela cara dura que a gente não esperava de uma Sidileide e disse que não adiantava nada ser lindo. Me chame de Sidy, ok? Tive vontade de fazer alguma coisa por ela. Mas eu só tinha uma vaga numa pensão ordinária e um número de telefone sempre estragado. Eu não podia fazer nada. E se pudesse, ela também não deixaria. Fui embora com a impressão de que ela queria dizer alguma coisa.
Três dias depois a gente soube que ela tinha tomado um monte de comprimidos para dormir, cortou os pulsos. Foi muita gente no enterro e ficaram inventando histórias sujas e tristes. Mas ninguém soube. Ninguém soube nunca dos pés de Sidileide. Só eu. Um desses invernos eu vou encontrar com ela no meio duma praça cinzenta e vou ficar uma porção de tempo sem dizer nada só olhando e pensando: que pena — que pena, Sidileide, você não ter sido normal. Vezenquando, pelo menos.

Subscrito -  Caio Fernando Abreu - .Harriet. 

03 maio, 2014

O homem da cobertura de aço








Na sua varanda sem céu, certa vez, você se sentou naquela cadeira sem fundo. Me colocou no seu colo e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. E me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu tinha subido todos os seus andares. Eu entendi que você era o homem da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum tipo de chave que se autodestruiria em poucos segundos. E eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo. A vertigem que era o nosso amor.

Eu permaneci e isso foi diferente, triste, insuportável, mas possível. Como os mortos que ficam em qualquer lugar, até mesmo embaixo da terra. Morto não deseja e por isso mesmo permanece. Acho que seu desejo morreu e talvez o meu também, já que boa parte desse amor enorme que eu sentia e  por você, vinha e vem da minha alegria desmesurada em me sentir amada pelos meus próprios sonhos. Você encerrava em mim eu mesma e era uma loucura tudo, como eu sentia, como eu queria me vomitar e ensanguentar e explodir e rodopiar em mim até furar o chão como uma broca desgovernada e depois sair derrubando o mundo como o único pião que sabe a verdade e precisa chacoalhar seu entorno pra não enlouquecer sozinho. Era uma loucura tudo. Mas a morte, o fim, nós, andando calmos, ao lado um do outro, isso me permitiu estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e para isso me retirando o tempo todo. E isso pode ser viver, mas viver é terrível. E antes, quando eu não sabia viver e me sentia amada, era ainda mais terrível. Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes, pois em nada dá pra ser com você. E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu sinta um amor absurdo por você.
Me peguei uma hora, olhando você, andar, tão feinho, seu ombro encolheu um pouco, cada dia que passa mais e mais é uma concha o que você se torna. Dessas que é mentira a pérola e o som do mar, mas eu os vejo, o tempo todo. Você andando desse seu jeito meio de louco, que chacoalha a cabeça. E se veste mal quando pouco se importa, eu sei, eu entendi.  A roupa bege da cor de tudo que é você. Você é tão errado e cheio de estragos. E me peguei olhando pra tudo isso e amando tanto, tanto, tanto. Como se nada mais no mundo fosse tão bonito ou correto ou mesmo perfeito porque perfeito é o que não tem mesmo cabimento. O resto nem existe porque vemos ou explicamos.
 Minhas olheiras, meu cansaço, meus quarenta e nove quilos. Eu poderia morrer porque você tinha uma carninha mais mole atrás da sua orelha direita e isso me impossibilitava, dia após dia, que eu vivesse sem sentir você o tempo todo. Mas quem é mesmo que morre dessas coisas? Não, não podemos, com tanta coisa pra fazer, os meninos de dez a vinte dias, os amigos, e estudos, a dança, os empregos, escrever, tudo isso que é minha vida antes e depois de você. Tudo isso que daqui a pouco, quando a sensação desgraçada de absurdo e solidão passar, tudo isso volta, se acomoda, a agenda mágica, o gostosinho no peito, esquecer você todo dia um pouco pra vida e todo dia muito pro dia. Mas agora, hoje, guarda isso. Por que escrevo? Porque é a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos os dias mostrando pra gente que nada vale de nada. Toma esse texto, o único lugar seguro e eterno pra gente.