02 abril, 2014

Carta de perdão a menina que um dia eu fui.





(...) É apenas mais um dia de verão que vem e vai embora... mas eu quero voltar para casa.

Você nunca possuiu bonecas para brincar, e o pior de tudo, você nunca teve amiguinhos para brincar. Ninguém queria ser seu amigo porque você era carente de bens materiais, mas principalmente porque você era estranha. Você era tão estranha que a diversão dos seus coleguinhas de sala de aula era fazer da sua vida um inferno, como se ela já não fosse um.
Recordo que, uma de suas diversões era correr pela terra solta do muro da casa dos seus pais, ali era o seu cantinho, ao lado das árvores, flores e frutos. Você costumava chamar aquele lugar de Mundo Mágica, e realmente era um mundo mágico, sua imaginação o criou e você era a rainha, a princesa, o príncipe e a plebeia. Você era todos os personagens e os interpretava com paixão. Nas tardes de sol as borboletas você tentava alcançar, as árvores você escalava a procura de frutos que matassem a sua fome. A noitinha sua mãe gritava seu nome e você corria para dentro de casa, era hora de comer feijão com farinha para depois ir dormir. Mas, você nunca dormia, você tinha medo de fechar os olhos e não acordar no dia seguinte, você sempre sentiu um medo absurdo de dormir eternamente igual a Bela Adormecida. Então, você costumava imaginar mil histórias absurdas sobre diversas coisas e ficava olhando para as velhas telhas do teto esperando que elas ficassem claras – sinal que o sol já havia nascido. Naquela época,você tinha um caderno de desenho, lembra-se? Todas as histórias fantasiadas a noite eram transportadas para ele em forma de imagens rabiscadas, você sempre adorou desenhar, principalmente os personagens das histórias que sua mãe contava para você e seu irmão embaixo daquela árvore enorme de folhas grandes e verdes.
Um dia seus colegas da escola te humilharam no intervalo porque seu pai era vendedor ambulante e você fugiu de lá  correndo e chorando. Chegou em casa mas não teve coragem de entrar pela porta da frente, então você pulou a cerca de arames farpados do vizinho e depois a dos seus pais, escalou o tronco da sua árvore favorita e sentada em um de seus galhos você chorou uma eternidade de dores. Chorou por sentir fome, chorou por ser sozinha, chorou por não ter amigos, chorou por ser estranha, chorou por usar roupas remendadas, chorou pelos seus pais tão bons e tão demasiadamente descriminados. 
Você não suportava a escola, eu lembro bem, você forçava as pernas a andarem até lá. Você era menina fraca, tinha mais ossos do que pele, tinha mais sonhos do que realidade. Todas as humilhações tornaram-se demasiadamente demais para você que era tão pequena e insignificante, então você fugiu, abandonou a sala de aula, mas não contou para os seus pais, mesmo quando você começou a vender balas juntamente com eles para ajudar nas despesas de casa, mesmo quando você ganhou a sua primeira boneca, uma falsificação barata da Barbie, você não contou para os seus pais que fingia ir para a escola, mas na verdade escondia-se nos degraus de uma casa abandonada e passava as tardes escrevendo sobre coisas malucas, aliás, você era meio louca. Todo mundo dizia isso, que você era maluca. Você era louca porque conversava sozinha, era louca porque usava roupas longas e escuras enquanto outras meninas da sua idade usavam roupas curtas na cor rosa. Você era louca porque era apaixonada pelo menino mais popular da escola, logo ele que te humilhava tanto, mas mesmo assim você o amava. Lembra-se? Você sempre teve essa tendência de gostar de pessoas impossíveis.
Alguns anos se passaram e você retornou a escola, e finalmente tinha amigos, tudo bem que eles te roubavam o dinheiro do lanche e fazer piadas com o seu sobrenome era a maior diversão deles, mas quem ligava? Agora você tinha com quem conversar sobre desenhos animados, você não era mais humilhada pelos seus colegas, mas sim usada, sugada. Em troca do seu cérebro eles ofereciam companhia, e você ingênua como sempre aceitava essa troca sem se opor. Você nunca se opôs a nada. Sua opinião não significava nada! Você não significava nada! Mas finalmente no meio desse caos o amor surgiu. Ele era dois anos mais velho do que você, louro e esquio, era o único cara que ganhava de você na bolinha de gude. O único cara que te achava bonita e normal. Mas você não sabia lidar com o amor e rasgou a cartinha em formato de coração que ele havia escrito. Os pedaços dela caíram ao chão juntamente com a paixão dele por você. Coitadinha chorou dias por ser uma menina sem amor.
Mas, tudo bem, a adolescência havia chegado e tudo isso tinha ficado para trás, agora você tinha amigos de verdade e objetivos “- Quero um dia ajudar crianças carentes, quero oferecer a elas o que eu nunca tive”. Mas, você se esqueceu desse juramento que tinha feito no dia que chorou em cima da sua  árvore favorita. Agora o que importava era a sua existência medíocre e as roupas da moda. Até a escrita você tinha abandonado. Você queria ser bonita igual as garotas populares do colegial, para isso cortou os cabelos e mudou o estilo das roupas, adorava a cor rosa e bolsinhas de bichinhos de pelúcia. Seus pais estavam conseguindo se estabelecer financeiramente e até de casa vocês mudaram. Agora só faltava o amor chegar. E chegou, em uma manhã enquanto você fechava o portão ele passou e a olhou. Cabelo desgrenhado, olhos negros, pele branca... Seu coração disparou e logo você se apaixonou, mas infelizmente ele não te amou. E você teve que mais uma vez matar o amor.
Todas as tardes você saia as ruas caminhando, pensando, sonhando, chorando, foi quando você o conheceu e durante muito tempo ele foi o segundo cara que se interessou por você. Ele era gentil, prestativo, atencioso, e estava apaixonado por você. Você não tinha ninguém e logo a paixão brotou no seu peito. Que pena que ela não durou muito, que pena que ele te deixou. Que pena que você chorou dias, semanas, meses e anos por ele. Que peninha da menininha que não era amada.
Daí, você tinha um diário, mas nunca o havia usado, até aquele dia em que ele te deixou. As páginas foram infestadas por letras e lágrimas, palavras tão tristes e sofridas, finalmente você tinha voltado a escrever mesmo que fosse sobre dor e não sobre amor. Quando finalmente você virou adulta queimou o diário, as lembranças escritas ali agora eram apenas fumaça e cinzas, e aos poucos você arrancou todas as sementes do mal que plantaram no seu coração. E quem diria, a vida te colocou cara a cara com crianças iguais a menininha que você foi um dia. Você tentou oferecer todo o seu amor para elas e ensinar que a vida é como uma caixinha de música, basta girar a corda para que ela se torne mágica. Mas, infelizmente você não conseguiu tocar todas as almas infantis. Ninguém nunca te disse que seria muito difícil tentar mudar o mundo.
Por fim, escrevo-te essa carta  não apenas para te lembrar tudo o que você viveu, e sim para pedir perdão por ter desistido de alguns sonhos seus, por ter mudado os planos, e por ter virado fria e calculista. Eu sei, estou longe de ser quem você desejou tornar-se. Em toda a minha vida nunca imaginei que eu me tornaria essa ferida fechada. Você melhor do que ninguém compreende a mudança de rotação. Mas, escrevo, também, para mostrá-la que nunca deixei de colocar no papel os meus sentimentos, minhas fantasias e sonhos. Por você eu nunca parei definitivamente de escrever, por você e por uma promessa, aquela promessa eu ainda escrevo. Enquanto a ele,... nós duas sabemos porque ele não irá ficar com a gente, esse sempre foi o nosso sonho, e não o dele. 

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