18 fevereiro, 2014

O Ladrão de almas.


Ele morreu, ontem à noite. Eu estava deitada na cama dentro do meu quarto, quando o ouvi morrendo. Foi um som inconfundível. Fiquei parada escutando o silêncio, pensando que deveria ter falado ao menos uma vez que o amava. Poderia ter fitado mais o seu rosto para guardar na lembrança suas expressões faciais, de certo que eu já as conhecia, mas com o passar dos anos elas mudaram e eu não dispunha de tempo para observá-lo.
Passei a noite na insônia, daqui a algumas horas já seria manhã, depois chegaria a sexta feira, março ou dezembro, questão de dias, de tempo. Tudo sempre passa muito rápido “- Daqui a alguns anos você vai olhar para trás e se perguntar o que exatamente você fez com a sua juventude” Ele costumava me dizer essa frase nas tardes de domingo minutos antes de se embrenhar no mato. Sempre imaginei que pessoas como ele não morriam, nasceram para viver eternamente, mas o para sempre... Sempre acaba – como diz aquela música da Cássia Eller. 
Então chegou a manhã, chegou a hora de vestir preto, de sentar no banco de madeira e orar. Foi só então, encarando aquele rosto pálido, aquele corpo sem alma dentro de uma caixa de madeira que percebi o sinalzinho de nascença que ele possuía na testa, eu nunca havia reparado naquele sinal antes, falta de tempo. Fiquei em pé esperando que ele sorrisse para mim. Nada, nunca mais aquele riso.
Nunca mais tantas coisas.

Dentro de mim existe a esperança da volta dele, nunca imaginei que a casa ficaria tão vazia sem a sua presença. Mas era tarde demais, o tempo o roubou, assim como roubou o amor da minha vida, meus amigos, minha família, minha juventude e a esperança do eterno. Agora só me resta comprar flores, algumas para o túmulo dele, outras para o meu.

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