27 maio, 2018

O MITO DO AMOR ROMÂNTICO E O CASAMENTO


O mais importante na vida, de fato, é o amor. O sociólogo Bauman disse que o amor e a morte são os dois personagens principais da história da humanidade. Não podemos penetrar duas vezes nem no amor e nem na morte, pois são acontecimentos únicos. E quando eu falo em amor, no que vocês pensam? Aposto que vocês pensaram primeiro em seus namorados, maridos, ou no crush. Resumindo: Quando alguém fala de amor, ou quando pensamos no amor, é comum, principalmente entre os adolescentes, a nossa mente ligar-se ao pensamento da união entre um homem e uma mulher.
Isso acontece porque, como afirma à psicóloga, Damasceno, o ser humano passa grande parte de sua vida buscando realizar suas fantasias, preencher o seu vazio existencial, suprir suas carências, buscando no outro, já idealizado, a realização de todos os seus anseios. Todos querem amar e ser amado, ansiando pelo mito do amor incondicional. Muitas mulheres desejam uma vida de Cinderela, onde o amor romântico, que é idealizado, afasta os problemas do cotidiano, onde príncipes e princesas serão “felizes para sempre”.
Contos de fadas, na nossa infância, eles formulam o nosso primeiro pensamento sobre o amor romântico: Eu (você), a Cinderela ou a Branca de neve do mundo real, mulher passiva, bondosa, prendada nos serviços domésticos, espera passiva e pacientemente a chegada do príncipe encantado, que nós salvará de uma vida de miséria ao propor casamento. Simone de Beauvoir disse que o casamento é o destino tradicionalmente oferecido às mulheres pela sociedade. Desse modo, é possível que as suas bisâvos tenham ensinado as suas avôs, e as suas avôs doutrinaram as suas mães, e talvez as suas mães instruíram vocês a pensar que a coisa mais importante que uma mulher pode alcançar na vida é o casamento. Ou talvez isso não aconteceu; pois, felizmente, os tempos estão mudando.
A escritora africana Chimamanda afirma que como mulher a sociedade espera que tomemos decisões pensando no casamento, o qual pode ser “uma fonte de alegria, amor e apoio mútuo”, porém a autora salienta que esse pensamento é ensinado apenas as garotas, o ciclo masculino é deixado de fora.
Nós, mulheres, somos seres incríveis, assim, podemos fazer o que quisermos, sermos o que quisermos, mas poucas de nós fazem ou se tornam. Quando todas as mulheres perceberem que não precisam de um homem ao seu lado para se sentirem incríveis e felizes, não precisam casar para se sentirem realizadas, quando percebemos que apesar de tudo o que a sociedade e a mídia diz sobre nós, e de como devemos agir, quando você perceber que tudo isso é bobagem estará livre para fazer o que quiser (casar ou ser solteira). Ser o que quiser. Quando tiramos a venda do amor romântico que não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela, trazendo a ilusão de amor verdadeiro. Começaremos a ter amor próprio, e afastaremos de nossas vidas as relações destrutivas e doentias. A sua alegria depende de você e não do outro de nossas vidas as relações destrutivas e doentias. A sua alegria depende de você e não do outro.

*Todos os textos desse blog são de autoria da escritora Sidy Batalha, desse modo, a reprodução do conteúdo sem permissão da autora é terminantemente proibida. 









4 DICAS DO QUE NÃO FAZER NA REDAÇÃO DO ENEM/IFRN

05 janeiro, 2018

O outono da vida


Imagem: Derek Gores



               O silêncio está me deprimindo. Não é o silêncio das pessoas ou o silêncio do mundo que está me magoando, mas o meu próprio silêncio. Em certo dia comum, eu comecei a ver a minha vida se ramificando, como a vida de Sylvia Plath no seu único romance: A redoma de vidro. Assim, “na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava para mim. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas”... Mas, não mais como Sylvia Plath, a minha árvore começou a desfolhar. Eu estava no outono da minha vida e os homens que encontrei pelo caminho de cada estação eram o meu único abrigo das tempestades e do frio. No entanto, foram esses mesmo homens que me empurraram para um ponto alucinante de loucura. Eles eram como uma bússola que me fazia movimentar-se em busca de mais: MAIS vida, MAIS vitórias, MAIS sonhos, MAIS desejo, MAIS paixão, MAIS insanidade. 
            Sempre fui uma mulher incomum. Uma mulher que acredita que a paixão dá sentido à vida. Eu sou uma escritora, não muito popular, que escreve sobre a tensa chama fugaz da paixão, e tem o profundo sonho de transformar tudo o que toca em poesia. Dentro de mim mora um grito, ele toma voz na minha escrita, na minha arte, e sai à procura de pessoas como eu: insaciáveis por liberdade e por paixões - sejam essas carnais, matérias, afetivas ou imaginarias - paixões de qualquer outro substantivo ou verbo, mas que nos empurram para frente. Nós os camaleões que acreditam na liberdade de ser sempre aquilo que o momento oferece. Nômades desajustados que procuram a intensa felicidade por entre as fendas de dor.
            Ouço as vozes deles me perguntando para que serve a minha vida?  Ouço o discurso das personas que reivindicam a minha sensatez, o meu equilíbrio diante do sistema. Tem uma guerra na minha mente. Estou cansada de sentir como se eu fosse louca. Tem uma guerra na minha cabeça. E eu só quero me aproximar dele como um ladrão aproxima-se de uma joia rara.
Eis a fuga para a loucura...
            


26 novembro, 2017

FELICIDADE CLANDESTINA


                                                                         Imagem: Bradley Soile




            Quando penso nele, penso sempre nas suas tatuagens. No significado delas, em primeiro lugar. Quando nos conhecemos, naquele sórdido bar de esquina, foi nas tatuagens que eu reparei. Havia algo fascinante naquela âncora e naquele navio sombrio, como a representação de uma travessia do mundo material para o espiritual. Era o que a burguesia chamaria de manifesto rebelde: o corpo como uma tela humana.
            E o que havia além daqueles símbolos, também lembro-me bem: loucura. Carpe diem o verdadeiro Alcorão da vida, para ele. Seus pensamentos disparando espirais entorpecidos pelos alucinógenos. Muitas e muitas vezes, enquanto estávamos deitados na cama enorme, eu fazia a pergunta de maior frequência: “- O que você está pensando, querido?” “-  Nada” – ele respondia, encarando o teto branco. Mas a pergunta certa que deveria ser feita, era: “- Devo deixar o meu coração do lado de fora antes de entrar?”.
Nas noites de verão e nas manhãs de inverno, ele me beijava, a barba roçando as minhas têmporas, meu James Dean. Lá fora, as luzes da rua criavam formas confusas, às vezes sombrias, enquanto ele arqueava o corpo, projetando-se para cima de mim. Eu sentia todo o peso dele, e isso era bom.
Existe uma mulher como eu em todo lugar, eu acho. A moça que se apaixona perdidamente pelo cara mau. É, sou como qualquer ser humano entorpecido pela paixão, cega, surda e muda. Duas semanas juntos e ele já era o grande amor da minha vida. O meu homem perfeito, como se fosse tudo parte de um plano divino, então não me importei em me entregar de corpo e alma. Eu sempre fui sedenta por carinho e atenção. E isso, ele me dava de sobra. Bem aventurados os apaixonados.
Eu, uma pessoa tão original, finalmente, havia encontrado alguém tão inerente quanto eu. Mas, naturalmente, uma modesta angústia cresceu em minha alma, após dois dias sem notícias dele. E assim continuou. Quanto tempo? Uma semana. Eu não liguei. Também não esperava que ele ligasse. Eu sabia que durante esse tempo indefinido o jogo é ganho por aquele que demonstrar mais desapego e desinteresse. Mas o drama do “dia seguinte” corroía a minha alma como um rato a roer um pano velho descartado em qualquer bueiro urbano.
E apesar da hostilidade entre ambos tornar-se gradativamente mais intensa ao passar dos dias, pois tudo na vida deve ser recíproco, até o desinteresse, o meu coração ofendido sofria a grande desgraça de ser irremediavelmente “jovem” e imprudente; mas, principalmente, intenso demais para uma era tão contemporaneamente subjetiva.
O fato é que, quando ele apareceu com outra mulher, eu me senti usada para satisfazer o prazer dele, bonequinha de luxo, descartável. Vagamente consciente, eu sabia que não nos amávamos, isso era claro. Mas o que seria amor? Essa palavra tão embaraçosa. Acho até que existia algo de falso em nossa relação. Então, por que sofri? Porque me feriu o grave orgulho de não ser levada a sério, novamente. Eu sabia que a raiva que eu sentia daquela nova mulher era mal direcionada – eu ficava furiosa por agora ela tê-lo e eu estar, mais uma vez, sozinha.
Será que realmente tentamos? Perguntava-me entre a escuridão da noite e o raiar do dia. O que foi que aconteceu, o que foi exatamente que aconteceu, meu Deus? Não queria lembrar, mas não me saía da cabeça a nossa excitação mental, espiritual e física. Havia o cansaço do dia-a-dia e os livros separando os nossos corpos, foi isso, amor de menos? Amor demais? Ou foi o mundo líquido?
Passei a noite pensando e repensando: ele me caçou para o quê, ah foi para ... ? Não, não foi apenas isso. Haveria de não ser. Mas conheço bem esse processo do mundo dos amantes: chamam-me de amor, pelo menos durante algum tempo até o instante de utilidade. A verdade é que, como li certa vez em um livro com o título de morangos, “Cultura demais mata o corpo da gente”, mas penso que deveria ser o contrário: cultura demais mata a alma da gente. Atordoa a mente.
Existiu um momento, quando estávamos observando estrelas ofuscadas, naquele deserto de almas, que eu pensei que iríamos dar certo. Eu. Você. As tatuagens. Mas aquele olhar, que não mais me despia, importunava-me. Aquele olhar que eu vi era anônimo.  Um olhar imóvel. Sem vida.
Depois daquela noite, eu não o olhei mais. Aquele homem por quem me apaixonei ensinou o meu coração a bater em silêncio, mais uma vez. A paixão é um perigo social. É uma gafe que só os loucos comentem.
E foi assim que...

04 novembro, 2017

Cidade grande


Imagem: Sandro Andrade

Luzes...
Dezenas delas, 
Pequenos vagalumes que cortam o céu
E iluminam os olhos tão vagamente
Opacos e incrédulos. 

O céu
Negro como um mar ébano
Sem estrelas no fundo
Da água turbulenta.

A esperança
De um crescimento oportuno
No crânio do mundo 
Fez-se a solidão

Acontece
Que eu tinha aqueles braços
Que me abraçavam 
Eu tinha aqueles olhos
Que me olhavam 

Eu tinha aquela boca 
feita de beijos
Rubros e ardentes

Eu tinha aquelas noites
De volúpia

Na névoa da solidão
Eu o tinha.

30 agosto, 2017

O dia do adeus


Imagem: Jen Mann



VERSÃO CONTO

A história que irei contar agora é particularmente dolorosa. E se escrevo, nesse momento, sobre isso é porque tenho a certeza de que nunca esquecerei aquele dia. Sobretudo, eu nunca o esquecerei.
No dia em que ele morreu, eu estava na casa de uma amiga em outra cidade, porquanto; naquela noite, aconteceria uma grande festa com uma famosa cantora da música popular brasileira. Lembro-me que naquela manhã ao acordar eu vi tanta beleza em um céu tão azul que os meus opacos olhos desatentos, por um instante, conduziram-me a uma epifania: vida.
Mas foi à tarde que tudo aconteceu. Eu estava na sala com as garotas, conversando sobre as festividades da cidade, e como seria legal combinarmos os nossos sapatos com a cor dos nossos vestidos de gala. Nesse momento de falações fúteis, o telefone tocou. Eu o atendi em gargalhadas: “– Ele morreu” – disse ela com um tom de voz que eu nunca havia escutado antes na vida, fúnebre. Soltei o telefone de sobressalto, depois senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto e um braço me segurando firme pela cintura. As meninas tentavam me consolar, me abraçavam e pediam para eu ficar calma. Mas eu não queria me acalmar. Eu queria apenas voltar para casa. Estar com ele.
Por um longo tempo, elas ficaram ali na minha frente, me olhando. Eu me sentia mal com aqueles olhares a filtrar o meu ser, então afastei-me delas, meio grogue, e entrei no quarto. Um lugar vazio e úmido, assim como a minha alma. Fiquei ali por horas.
Finalmente, quando à noite chegou, levantei. Meu corpo movia-se desajustado pelo espaço quadriculado. Eu me sentia mal e muito culpada. Quis conversar com uma amiga, mas acredito que eu não aguentaria o olhar penoso. Quando percebi, estava escrevendo uma carta, endereçada a mim mesma:

É tudo tão branco aqui, tão calmo. Estou caminhando devagarinho, pisando em um chão que parece ser feito de pequenos pedaços de diamante. A brisa suave e doce toca a minha face. As nuvens passam por mim, enquanto percorro uma estrada - sinto que ela está me levando a alguém, e sei que essa pessoa está me esperando há tempo. Estou indo em direção ao pai. Ele, que almejei há tanto tempo na terra, me chamou e eu aceitei o seu convite de beijar o céu.
O sol aqui é enorme, mas ele não me queima. Nada aqui me feri. Minhas roupas são tão finas e leves que em alguns momentos penso não estar usando nada. Às vezes passam por mim pessoas correndo, acho que elas estão indo para o mesmo lugar que
eu. Confesso que no começo senti medo, porque era tudo estranho e as pessoas temem o que é desconhecido. O mais difícil foi ver todos que amo segurando lágrimas nas mãos. Doeu estar ao lado delas e não poder abraçá-las. E as palavras que sempre me fugiram, naquele momento eu estava cheio delas. Eu só queria dizer que é bom estar em casa.

Quando as minhas mãos soltaram o lápis, vesti calça e blusa preta. Nada de vestido. Enquanto passava batom vermelho nos lábios, às lágrimas voltaram; agora negras por causa da maquiagem. Engoli o choro culposo e fui para a festa. Lá, no meio daquela multidão, me senti o ser humano mais sujo e cruel do mundo. Eu era uma assassina declarada, simplesmente pelo fato do meu corpo estar naquele local. Eu era tão jovem, entende? - foi a primeira vez que a morte apareceu na minha vida - fiquei perdida na insatisfação da solidão entre quatro paredes e pensei em tatear devaneios em meio à multidão. O que eles não sabiam é que aquela foi a pior festa da minha vida, parecia um velório. Eu não via as pessoas, não ouvia a música, pois o mundo estava morto.
Na manhã seguinte, enquanto eu voltava para casa, ao observar o nascer do sol, a lembrança dele voltou. Naquele instante, uma certeza aflorou dentro de mim: a vida nunca mais seria a mesma.
Seja como for, depois de algum tempo, e aos poucos, as lágrimas foram sumindo e eu comecei a me comportar de uma maneira estranha. Comecei a visitá-lo com bastante frequência. Sentava sobre o seu túmulo e lia cartas e mais cartas que eu o escrevia, diariamente. Eram cartas; acho eu, de amor. E devo dizer ainda que eu sentia um prazer enorme em passar horas deitada ao lado dele, enfim: como se o fantasma dele, que eu tenho certeza que vagava por aquele cemitério, pudesse me ver, me ouvir, me sentir e me perdoar.
Desculpem a minha loucura, sei que parece um pouco inacreditável, mas eu o sentia perto de mim, para ser mais objetiva: eu sentia os olhos dele sobre mim, vigiando-me, como um detetive atento a qualquer deslize meu. Quando o olhar dele me transpassava, via o que havia acontecido depois de sua morte, e o que havia acontecido depois de sua partida era algo cinza e podre. Algo em mim era pútrido, os amigos dele tinham razão, nada em mim era belo ou divino, e no momento em que tive essa certeza; decidi contá-lo pessoalmente que eu sempre o amei, mas que só tinha descoberto isso no dia em que ele morreu. É assim mesmo, a gente só sente falta daquilo que perdeu.
Hoje, como de costume, cheguei cedo ao cemitério. Sentei ao lado dele e retirei a carta do bolso da calça jeans. Com cuidado abri o envelope com o estilete e, em seguida, os pulsos. As palavras da carta eram tão vermelhas que pareciam sangrar. Assim como eu.